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A entrega do Urso de Ouro, prêmio para o considerado melhor filme no Festival de Berlim, para Tropa de Elite nos faz relembrar a vitória, na mesma categoria, há dez anos para Central do Brasil. Dois grandes filmes que apresentam em comum: a revelação de um Brasil triste e violento, além de direção e de elenco primorosos. Ambos nos comovem pela verdade!
Em um tempo, não muito distante, os brasileiros gostavam de dizer que, em nosso país, não se sabia fazer cinema. Não assistíamos aos nossos próprios filmes! Por sorte acho que a qualidade cinematográfica brasileira está mudando e a concepção do povo sobre esta produção também. Pois a questão não está no saber fazer, mas na dificuldade que enfrenta quem trabalha com arte no Brasil! Não podemos comparar a verba conquistada através de patrocínios e parceiras em nosso país, com a grana alta que circula nas produtoras do mercado norte-americano. O que importa é que estamos chegando lá, sendo reconhecidos e aplaudidos pelo mundo.
Me emocionei também com o Oscar para Javier Bardem como melhor ator coadjuvante, prêmio nunca antes concedido a um espanhol. Artista de talento excepcional que acompanho de longa data... Advindo de uma família de comediantes, a quem agradeceu em seu discurso entremeado pela língua materna, que invade qualquer pessoa (por mais fluente que seja em outro idioma) em situações como esta. Em momentos de forte emoção a língua estrangeira escapa e, é na língua materna, que conseguimos expressar os sentimentos. O ator dedicou o prêmio à mãe e à sua pátria Espanha.
As premiações nem sempre são justas! Porém, as duas vitórias: a de Tropa de Elite e de Javier Bardem me pareceram merecidas! O filme Tropa de Elite foi muito criticado, considerado fascista, eu já havia escrito sobre isto e assumido minha posição em defesa da obra. O premiado ator espanhol em Onde os fracos não tem vez, não representa um galã, um bom moço, um herói, encarna um personagem cruel, um assassino psicótico.
A violência está entre os grandes temas da atualidade. Se a arte é um reflexo da realidade, da sociedade e de sua história, nada mais natural. Tomara que a arte, ao tratar do tema da violência, possa provocar uma maior conscientização e consiga mexer um pouco com os seres, a cada dia, menos humanos.
Publicado em 6 de março de 2008, Jornal Bom Dia, p. 6
criado por joselmanoal
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