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Recebi uma surpresa, hoje pela manhã, ao abrir o jornal Bom Dia e deparar-me com a crítica da minha colega Vera Sass sobre o meu livro de contos. Me senti muito honrada com as palavras dirigidas à minha produção literária.
Minha eterna gratidão à Vera pela primeira crítica literária publicada em jornal!
Se quiserem ler, o texto segue abaixo.
Texto de Vera Beatriz Sass*
Dentro da renovação literária que vem ocorrendo ultimamente, não se tem mais a idéia de que o conto apenas conta uma história. O conto moderno não é circular, com começo, meio e fim, mas tem estrutura aberta. E nesse sentido ele é um fragmento da realidade, vinculado a um processo criativo que dá a idéia ao texto, seguido pela seleção do material lingüístico adequado, do planejamento, da execução e da revisão do texto produzido.
Vários jogos literários conhecidos colaboram atualmente para o melhor desempenho do contista. Sabe-se, por exemplo, que o autor deve produzir um texto elíptico, não dizer demais e torná-lo sutil, com o final apenas sugerido. É melhor fazer as personagens agirem e deixar que o próprio leitor tire as suas conclusões, não o subestimando.
O conto em sua contemporaneidade procura apresentar um olhar de relance ou de viés sobre determinado fato. E tudo isso, Joselma Noal faz.
Daí a importância da coletânea de contos constante do seu livro intitulado “Aroma Hortelã”, cujo lançamento aconteceu no último dia 30 de maio nas dependências da URI-Campus de Erechim. Numa publicação da Editora Movimento de Porto Alegre, a obra conta com a recomendação de Luis Antonio de Assis Brasil, considerado um dos maiores escritores brasileiros da atualidade, além de ministrar uma renomada Oficina de Criação Literária na PUC/RS..
As variações originais dos contos de Joselma Noal caracterizam-se como absolutamente contemporâneas, expressam um estilo preocupado com o seu conteúdo e o seu valor estético. Ao adentrar-se em sua obra dois elementos altamente simbólicos chamam a atenção. Seu universo ficcional gira em torno de cenas que reportam a um mundo onde relógio marca o ciclo da vida das personagens e a hora do chá tem uma função ritualística.
Juan Chevalier, autor do Diccionário de los símbolos (1986), enfatiza que a cerimônia do chá tem todas as aparências de um rito de comunhão, sua principal característica é a sobriedade, o chá é o símbolo da essência, que faz parte do self (do si-mesmo).
Em diversos contos, a presença do chá é uma constante, pois ele está a simbolizar a essência das personagens. No conto AROMA HORTELÃ, a contista revela que “Francisco aspira o aroma hortelã e seu rosto revela o reencontro com o sabor da infância”. É quando, nós leitores, nos sentimos participantes do aconchego deste ritual e comungamos com os sentimentos das personagens numa passagem que expressa que “a tia sorri um riso de espera sabor hortelã”.
Por sua vez, o conto ABRACO inicia: “Na cozinha a água fervendo para fazer o chá traz até o ambiente o perfume de Olga”. Percebe-se então, o aroma do chá interligado a essência da personagem, ou seja, ao seu perfume.
Mas apesar dos momentos de comunhão, nota-se também a presença de um “eu” que se dilui num processo catártico e desabafa no conto O FRUTO: “Eu ainda sinto o peso do silêncio, da palavra guardada, engolida, sufocada. Preciso gritar”.
Este grito se estende até a inconformação com um mundo de aparências que transparece no conto A ESPERA DE NATÁLIA: “Debruçada a janela, Natália percebe que domingo é falsidade. Tudo parece perfeito, feliz, perfeitamente feliz. Aparências, as malditas aparências! Querem afirmar com aquele sorriso nos lábios uma dose de felicidade que nunca existiu dentro deles.”
Mas ao grito de dor e inconformação somam-se momentos poéticos que revelam a sensibilidade da contista com relação à condição humana, quando diz no conto O BALÉ E A CONFEITARIA: “Marina abandona a condição de lagarta. Surge uma borboleta que logo aprenderá a voar”.
Observa-se que ao optar por um texto elíptico que diz o essencial, Joselma Noal apresenta uma grande dose de criatividade. As qualidades de seu estilo literário expressam a harmonia, a concisão que foge com maestria aos lugares-comuns e às frases-feitas.
Os diálogos são incisivos e rápidos e as descrições breves, mas nítidas. A contista extrapola a condição de observadora e destila seus contos com enredos que poderiam render novelas, mas que saltam concentrados, acabados, sem uma palavra fora do lugar.
Nota-se um caráter ritualístico, uma sabedoria de mostrar sem julgar e o contagio da celebração, porque sua literatura é vida em estado latente. O núcleo original de conflitos, ao suscitar uma colagem de situações do cotidiano, ergue as linhas narrativas para alem da banalidade, e exalta a condição humana que compreende o amor, o corpo, a perda e o desejo.
A partir destes elementos percebe-se que a contista tem a aguda consciência de que a questão existencial permeia a própria literatura, e por meio das sutilezas de sua construção verbal, abre janelas, a fim de que possamos também ver a escuridão da alma humana.
E tudo isso nos inquieta e nos provoca através de situações e reações, num torvelinho de emoções que se chocam, e tornam reconhecíveis os obtusos caminhos de cada um.
*Doutora em Letras pela PUC/RS
Professora do Curso de Letras da URI-Campus de Erechim
Publicado em 19 de junho de 2008, no Jornal Bom Dia, p.2
criado por joselmanoal
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