Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

27/5/09

Doar é legal!

 

 

            A matéria na Zero Hora de 26/05/2009, p. 31 é tão relevante que cabe à escrita deste texto, a fim de sensibilizar mais pessoas para a doação de órgãos e tecidos.

          No Rio Grande há quase 3.000 pessoas à espera de transplantes, segundo dados atuais da Central de Transplantes do RS. A campanha Doar é legal, do Foro Central e da seccional gaúcha da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/RS), em parceria com a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) e Hemocentro de fornecer um diploma a pretensos doadores pode provocar uma discussão sobre um assunto de suma importância.

          Segundo pesquisa encomendada pela ADOTE (Aliança Brasileira pela Doação de Órgãos e Tecidos) ao Instituto DataFolha, 64% dos brasileiros doariam seus órgãos para serem transplantados após a morte. No entanto, somente 39% conversaram com suas famílias sobre a perspectiva de doar.

          Daí o valor, não apenas simbólico do diploma da campanha Doar é legal, mas também como um modo de afirmar sua posição à família. Já que entre as causas da não doação está o argumento de que o familiar não havia manifestado tal desejo em vida. Portanto, todos os que se dizem doadores: adquiram o diploma ou comuniquem sua decisão aos seus familiares!

          Outro motivo para a não doação está associado a um desentendimento quanto à morte cerebral. Por favor, não se trata de nenhuma forma de eutanásia!

Além disto, há a alegação de motivos religiosos. Aí mesmo é que eu não consigo entender!!! As pessoas de fé, de bem, deveriam ser as mais humanas e preocupadas com o próximo, portanto… Pensem em quantas vidas poderão ser salvas, quantas pessoas aguardam em uma fila de espera interminável por um transplante!

            A doação é um gesto de solidariedade e caberá a um familiar, responsável e humano, oportunizar a alguém uma nova chance de vida. Por favor: ouçam a opinião de seus familiares sobre doação e respeitem o seu desejo.

          Quem assistiu ao filme espanhol Todo sobre mi madre de Pedro Almodóvar, 1999, Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, certamente já refletiu sobre o tema da doação de órgãos. 

          A sociedade contemporânea consumista e voltada para o próprio umbigo precisa estar sempre sendo lembrada de que existem pessoas que precisam de ajuda, além do seu mundinho. A lição de solidariedade deve ser repetida. Acredito que talvez a repetição conduza à aprendizagem! Sobre doação de órgãos e tecidos ainda falta informar, conscientizar. Afinal, ensinar sujeitos egoístas a se tornarem solidários não é nada fácil…

          Para os doadores que desejem adquirir seu diploma: o cadastramento simbólico pode ser feito até sexta-feira, 29/05, das 8h30min às 18h30min no saguão do Foro Central de Porto Alegre (Rua Márcio Veras Vidor, 10, bairro Praia de Belas), basta apresentar um documento de identidade.

          Lembrem e espalhem esta ideia: Doar é legal!

criado por joselmanoal    18:06 — Arquivado em: Crônica

18/5/09

Erico, Quintana e o Rio Grande do Sul

 

 

           O Caderno de Cultura da Zero Hora de sábado (16/05/09), abordou com propriedade o tema. O texto de Luís Augusto Fischer é tão coerente e preciso, que até pensei em desistir de escrever este artigo, mas ponderei: sempre é bom enfatizar quando se trata de assuntos nobres como este. Portanto, seguem algumas razões pelas quais o acervo de Erico Verissimo e também o de Mario Quintana deveriam permanecer aqui, no Rio Grande do Sul.

            O Erico Veríssimo talvez seja nosso escritor mais representativo, narrou nossas histórias, nossas guerras, nossas lutas e deveria ficar entre nós. Não quero parecer bairrista e tenho ciência de que a decisão do destino do acervo cabe à família.

         A retirada do acervo de Erico da PUCRS, após a demissão das professoras responsáveis pela organização dos originais, cartas e demais documentos do escritor, foi uma atitude de solidariedade às idealizadoras do projeto, no entanto o material teria sido bem cuidado por outros profissionais da área literária que ali permaneciam!

            Me inquieta saber que talvez tais relíquias literárias, históricas, possam adquirir um novo lar no Rio de Janeiro. Atuei como bolsista de iniciação científica, em idos tempos, no Acervo do Reynaldo Moura e, para tanto, conheci de perto o acervo do Erico Veríssimo. Assisti, presenciei e contribui para o desenvolvimento do acervo de Erico, por isto tanto me incomoda seu possível translado.

           O Rio Grande do Sul já foi uma potência nacional, hoje, cada vez nos envergonha mais. Além de revelações de corrupção, cada dia atingindo um número maior de lideranças do estado, há dificuldades em todas as instâncias: educação, saúde, segurança, etc. E no âmbito da Cultura não é diferente! Que valor se dá ao patrimônio cultural em nosso estado? Esta atitude de enviar dois acervos, pois o de Mario Quintana também está em tratativas com o Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro, revela descaso. Agora a Secretaria Estadual da Cultura, depois que o circo pegou fogo, talvez disponibilize o MARGS ou Biblioteca Pública como espaços para os acervos.

          E Mario Quintana? Não considero justo com nosso poeta, que tem até Casa de Cultura com o seu nome em Porto Alegre, tenha seus documentos transferidos para o Rio de Janeiro.

           Permaneço na defesa de que o melhor local para estabelecimento dos acervos seja o da universidade! Afinal nas universidades se realizam as maiores pesquisas, é lá que estão os especialistas na área literária que poderão dar visibilidade aos referidos autores.

          Tomara que o Rio Grande do Sul aprenda a lutar pelo seu patrimônio cultural!

         Tempos distantes os da Revolução Farroupilha em que se lutava por algo neste estado…

criado por joselmanoal    16:45 — Arquivado em: Crônica

13/5/09

Ritalina

      

           Li uma reportagem que me deixou estupefata: brasileiros, que para aumentar o ritmo e a qualidade de seu trabalho, fazem uso de medicação forte (tarja preta) como Ritalina, ou outras similares, indicada para pessoas com déficit de atenção.

            No mês de maio, que inicia homenageando os trabalhadores, cabe uma reflexão sobre as condições de trabalho do povo brasileiro. A exigência, a cobrança, a competitividade, o medo do desemprego, conduz as pessoas a esta loucura de automedicação para dar conta das tarefas diárias. Causa também espanto o fato deste remédio, que está sendo utilizado indevidamente, só poder ser vendido sob prescrição médica! As estratégias utilizadas para adquirir o remédio são as mais diversas: compra pela internet, pedido de prescrição a amigos médicos, a mentirinha na farmácia de haver esquecido a receita médica em casa, compra de cartelas por pessoas com déficit de atenção, etc. Há até quem pesquise sobre os sintomas de déficit de atenção e consulte um psiquiatra alegando sentir os sintomas pesquisados, vale de tudo para conseguir fazer uso da Ritalina!

            A carga horária de trabalho de 40 horas semanais é a de uma parcela da população de nosso país, muitos cumprem três turnos de atividade laboral somando, muitas vezes, 60 horas semanais. Sem contar jovens e adultos trabalhadores que estudam no horário noturno! Se considerarmos estudante como profissão, como o fazem os países desenvolvidos, este índice de carga horária de 60 horas semanais aumenta significativamente.  E muitos ainda insistem em chamar o povo brasileiro (desculpem o adjetivo) de vagabundo! O mais triste é que esta mesma população que paga inúmeros impostos, pedágios e taxas governamentais abusivas, mantêm no poder líderes que roubam descaradamente. O que falta ao povo brasileiro é, sim, aprender a votar e a protestar, mas isto já é assunto para outro texto…

             A pressão, a que são submetidos os trabalhadores brasileiros, leva a problemas de saúde ou ao uso de artifícios para driblar o cansaço, como medicamentos inadequados. Importante alertar que as drogas não estão sendo consumidas somente por adultos, há muitos adolescentes tomando Ritalina e que não apresentam déficit de atenção. A ideia que se propaga é de que os usuários da referida droga ficariam mais inteligentes, quando na verdade, o que ocorre com a utilização da droga é um melhor aproveitamento nas tarefas diárias, o ganho se dá no campo da concentração, velocidade e disposição.  Um dado alarmante é o número de integrantes em comunidades no Orkut cerca de 20 dedicadas à Ritalina somando um total de 5 mil participantes aproximadamente.

            Em um mundo que conhece a inteligência emocional, as pessoas não deveriam preocupar-se de modo tão exagerado, obsessivo com aumentar o saber cognitivo tão-somente, o saber relacionar-se com o outro, trabalhar em equipe, conhecer suas próprias habilidades, ter ética e dignidade é que deveriam ser exercícios diários. O consumo de drogas, tarja preta, não deveria ser concebido como forma de salvação pessoal, como garantia de excelência em seu desempenho profissional. Investir em si mesmo e em suas potencialidades continua sendo o melhor caminho.

 

 

criado por joselmanoal    16:27 — Arquivado em: Crônica

29/4/09

Sobre o trabalho

 

            Felizes os que trabalham e conseguem estabelecer uma relação profunda e apaixonada pelo seu fazer. Felizes os que ultrapassam a relação modesta de emprego como sustento econômico e ponto final! Uma pequena parcela da sociedade vê sentido em seu trabalho como algo capaz de transformar a sociedade, a grande maioria se preocupa, apenas no controle de seu saldo bancário. Poucos profissionais atuam pensando no outro! O egoísmo, a visão estreita da atuação profissional, o olhar contemporâneo, voltado tão-somente para o próprio umbigo, pode explicar o caos social.

          Os artistas (não me refiro aqui aos sujeitos globais, midiáticos que estampam as edições da revista Caras), mas a aqueles que estão batalhando para publicar livro, para realizar exposição, para encontrar patrocínio para peça teatral, enfim os desconhecidos talentos que por aí vagam e são muitos, têm outra concepção de seu fazer. Até porque viver de arte, em nosso país, é coisa para valentes lutadores, para verdadeiros gladiadores a lutar contra a sociedade moderna que supervaloriza o aparente e reserva pouco espaço ao profundo. A arte pode transformar o rumo de vida das pessoas, como bem mostra o filme Contratempo!

          No dia 1º de maio, cabe uma reflexão sobre o trabalho que pode e tem que ser o sustento econômico, porém não só! O sujeito tem que valorizar sua função, ver sentido em seu emprego. Do contrário, a frustração tomará conta da vida do profissional. Qualquer profissão é digna, cabe a aquele que a exerce ter esta clareza.

          Se todos executassem sua função pensando em equipe, entendendo a sua atuação profissional como um fazer social e, portanto, valorizando seu emprego, a vida seria muito diferente. O cerne da problemática está justo no desempenho profissional do empregado, que na busca desenfreada pelo poder, perde mais tempo investigando o trabalho alheio e encontrando imperfeições no trabalho do outro, do que se preocupando em executar suas tarefas de modo exemplar.  

          A ética nunca esteve tão em pauta como hoje, porque cada vez mais o cidadão age em benefício próprio e, se tiver que tirar o tapete de alguém, o faz sem questionar. A luta travada dentro de escritórios, empresas, organizações é absurda, todos querem governar, estar no topo, não necessariamente pensando no bem comum, e sim no seu bolso. O problema maior surge, para as lideranças, no momento de descer do pedestal.

          Outro aspecto agravante,  imposto pela sociedade, é o das diferentes categorias, status, níveis de profissões, inclusive em âmbito de ensino superior. Explico melhor: dentro das universidades, alguns cursos são considerados nobres e outros são tidos como menores. Há alunos que se sentem superiores aos de cursos de Licenciatura, por exemplo. Acadêmicos das faculdades de Licenciatura, por favor, ouçam a voz de uma professora: podem orgulhar-se de sua profissão futura, capaz de transformar, e muito, a nossa sociedade! Revistam-se de auto-estima, ela é primordial para a satisfação profissional.

          Parabéns, trabalhador! Espero que o seu emprego, além do sustento econômico, possa lhe trazer alegria e que você enxergue a importância de seu trabalho com um bem social!

 

criado por joselmanoal    15:17 — Arquivado em: Crônica

22/4/09

O prazer de ler

 

            Abril é o mês do livro! Dia 18 é o Dia Nacional do Livro Infantil, data do aniversário de Monteiro Lobato. Um autor que teve como preocupação mostrar o Brasil às crianças, recontou nossas lendas, criou os inesquecíveis personagens do Sítio do Picapau Amarelo e narrou aventuras em um espaço de nosso país. Trouxe o Brasil aos pequenos brasileiros que antes só ouviam histórias de príncipes e rouxinóis em um país muito distante… Um ilustre cidadão que merece a homenagem!

            Dia 23 é o Dia Mundial do Livro. Dia de São Jorge, dia das rosas, data da morte do espanhol Miguel de Cervantes, o maior escritor de todos os tempos e lugares. Trouxe ao mundo as figuras de Dom Quixote e Sancho Pança e com eles uma reflexão plenamente atual sobre a vida. Em princípios de maio de 2002, uma impressionante comissão de críticos literários de várias partes do mundo escolheu o livro Don Quijote de La Mancha, como a melhor obra de ficção de todos os tempos.

            Então no mês do livro, minha homenagem a este objeto mágico, capaz de transportamos a diferentes épocas e espaços. Pena que nem todos apreciem esta viagem, nem  todos conhecem o prazer, o deleite da leitura.

           Como deve ser infeliz a vida de um analfabeto! Hanna Schmiltz, papel interpretado    por   Kate     Winslet    (Oscar de Melhor Atriz)   no  filme  O Leitor (EUA/Alemanha, 2008, direção de Stephen Daldry), baseado no livro homônimo de Bernhard Schlink, retrata a vergonha descomunal, de quem não sabe decifrar o mundo das letras. Mas, revela, também, o deslumbramento da personagem ao percorrer a fascinante viagem da literatura, não mais através de um leitor, mas com os seus próprios olhos, na solitária cela de uma prisão.

            A arte pode recuperar o ser humano! Os livros ajudam a enxergar a sociedade e a compreender a vida de um modo menos singelo, menos comum, menos ingênuo, mais crítico, mais inteligente. Me refiro às obras sérias, não a livros de auto-ajuda com receitas prontas de bem viver, fórmulas de sucesso emocional e/ou financeiro, que, em sua maioria, não passam de verdadeiros engodos para aprisionar ainda mais o sujeito em sua estreita visão de mundo.

           Todos podem se transformar em sujeitos leitores, basta encontrar o seu livro! Impossível que com tantos textos interessantes e de estilos tão variados não haja um que lhe agrade, um em que haja identificação. O problema é a preguiça do século XXI. A televisão pode ocupar um espaço na vida das pessoas, porém, jamais a imagem dada, pode ser comparada àquela produzida pela imaginação. A literatura valoriza o leitor, a televisão, por vezes, o despreza.

           Acredite: ao virar a página ou ao tocar o mouse (porque o livro pode ser virtual), você poderá viver momentos de emoção e de encantamento. Se nada disto acontecer, escolha outro texto. O livro deve conter páginas encantadas, se não for assim, não serve!

           Busquem seus livros e se encantem!

criado por joselmanoal    20:13 — Arquivado em: Crônica

16/4/09

Por uma escola sem muros

 

 

            Após a assistir Entre os muros da escola (Palma de Ouro no Festival de Cannes 2008) pude constatar que a relação alunos x escola não é problemática e distante, apenas no Brasil. Na França, a insolência dos alunos parece um pouco menor do que a dos alunos brasileiros, mas a incompreensão dos discentes diante do aprender é a mesma. Desconhecem o porquê devem ser ensinados e aprendidos determinados conteúdos.

            O filme é muito lento, monótono e repetitivo, por isto muitos abandonam a sala do cinema antes do término da sessão. Como o filme todo se passa entre os muros da escola, se pode compreender que a monotonia e a repetição, presentes na tela, talvez sejam as mesmas de uma sala de aula verdadeira.

            Há uma cena em que um professor frustrado entra, aos gritos, na sala dos professores, um sinal de desespero que, muitas vezes, presenciamos em contexto escolar. Afinal, após horas de preparação de aula, aceitar o fracasso do planejamento não é fácil!

          Na tela, em um momento de reunião escolar, as mães representantes questionam a posição do corpo docente e do diretor em priorizar novas formas de punição aos alunos, em lugar de premiar os bons estudantes.     Encontramos, nesta cena do filme, o mesmo desacerto, a mesma interrogação que os educadores vivem nas escolas brasileiras. O que fazer para melhorar a disciplina, a atitude e o interesse dos alunos? Alguns docentes se desesperam na preparação de suas aulas e não encontram maneira de  motivar os alunos ao aprender. Agora há esta cobrança de que o professor tem que motivar, tem que ser amigo do aluno. A função do professor é ensinar, se quiser ser amigo do aluno também, ótimo! Motivação, o sujeito deve carregar consigo, se quer ser alguém na vida.  Ninguém motiva ninguém! Se o aluno não quer aprender, não há mestre que consiga ensiná-lo. Aos pais cabe a tarefa de educar, na escola, os professores só enfatizam as lições aprendidas em casa sobre valores morais.

          Houve um tempo em que a voz do professor era respeitada e que os pais não questionavam tal autoridade, além disto nesta época também a escola defendia o seu corpo docente. Não tenho saudades de palmatória, nem de joelhos no milho, mas sem dúvida o mundo era outro. Não havia dislexia,  hiperatividade, bulimia, anorexia! Em que momento os educadores perderam a autoridade, a credibilidade e o respeito?

           Voltando ao filme, na tela parece tudo muito real, nos sentimos mesmo dentro da sala de aula, o que provoca um certo baixo astral na saída do cinema. Será esta a mesma tristeza sentida por professores e alunos ao término das aulas?

          Tomara que a escola retire seus muros e enxergue um pouco melhor o universo caótico que contamina a juventude do século XXI. Sem dúvida, é na família que está a raiz, a base da educação, a escola só deve reforçar os valores aprendidos em casa. Portanto, pais assumam o seu papel com seriedade, para que os professores também possam exercer sua função dignamente!

 

Publicado no Jornal Zero Hora, 18/04/2009, p. 17

criado por joselmanoal    15:33 — Arquivado em: Crônica

9/4/09

Escolas distantes

 

 

            Não saberia ao certo estipular desde quando, mas já faz algum tempo, que os valores de nossa sociedade, são apenas os monetários, os numéricos. Os valores morais muitos desconhecem ou esqueceram, convêm apresentar ou relembrar valores em tempos de Páscoa. 

            A violência na escola, tão discutida hoje, tem sua raiz na falta de valores. Em uma produção oral, exercício de sala de aula, os alunos deveriam falar em idioma estrangeiro sobre sua infância, me comovi ao ouvir histórias reais de crianças que caminhavam 5 km para frequentar a escola e que sempre viram na educação um meio para uma vida melhor. Não buscaram outro rumo que não este aprendido em casa. Jamais desrespeitaram seus mestres, chegavam cansados e sedentos por aprender. A curiosidade intelectual os conduzia pelo caminho.

            As facilidades do mundo moderno talvez tragam uma comodidade que conduz e fortalece a falta de valores. O ser humano precisa sofrer para aprender a dar valor – frase muito repetida por quem passou trabalho e amadureceu.  Crianças hoje não caminham tanto para ir à escola, ótimo que exista mais escolas e ônibus escolares! O problema é que os estudantes já não entendem a razão da existência da escola, qual a sua utilidade em sua vida prática. Não a vem com um caminho para melhoria de vida. O espaço escolar não é compreendido como algo primordial em suas vidas, como era para estes meus alunos andarilhos. A escola atual não passa de um espaço de convivência social. De uma convivência nada pacífica, mas desarmônica, confusa e caótica!

            Em que momento os educadores perderam a autoridade, a credibilidade e o respeito?  Houve um tempo em que a voz do professor era respeitada, os pais não questionavam tal autoridade e a escola defendia o seu corpo docente. Não havia alunos disléxicos, nem hiperativos. Ninguém tinha bulimia ou anorexia. Agora professor tem que motivar, tem que ser amigo do aluno. A função do professor é ensinar, se quiser ser amigo do aluno também, ótimo! E motivação o sujeito deve carregar consigo se quer ser alguém na vida.  Aos pais cabe a tarefa de educar, a escola só enfatiza as lições aprendidas em casa sobre valores morais: respeito, solidariedade, etc.

            O ser humano, infelizmente, tende a chorar sobre o leite derramado! Espero que as crianças e os adolescentes não precisem deixar de estudar, ter uma vida indigna, estar à beira do abismo para perceber o quanto a vida poderia ter sido outra, se eles tivessem estudado e encontrado no ambiente escolar o seu caminho. Tomara que ainda haja alguma esperança para a escola que também sofre com falta de valores que precisam ser injetados urgentemente na sociedade moderna! Não há remédio, não há tratamento quimioterápico para falta de educação, respeito e cidadania!

          Portanto, cabe aos pais recuperar o seu papel na formação de seus filhos e aos professores, o lugar de autoridade que lhes é de direito. 

 

 

       

criado por joselmanoal    11:27 — Arquivado em: Crônica

1/4/09

Até mais!

 

 

            A palavra despedida tem um tom de tristeza e nostalgia que não gostaria de registrar aqui, por isto o título informal e alegre.

            Espero durante este período (de fevereiro de 2006 a março de 2009), ter agradado os leitores do Jornal Bom Dia. Embora sem receber um único centavo por este trabalho (porque escrever é trabalho!), sempre cumpri, com responsabilidade, a tarefa de preencher a sua vida com reflexões, tentando entremear beleza e inconformidade, escrevendo sobre temas amenos ou polêmicos

     Muitos discordaram, outros elogiaram e tomara que algo tenha ficado destes encontros através da página do jornal. A leitura desta coluna certamente lhes trouxe uma impressão a meu respeito, espero que tenha sido positiva!

     Não iria escrever esta crônica, simplesmente abandonaria o espaço, mas uma amiga me sugeriu que escrevesse, pois deveria explicar minha ausência no jornal, em consideração aos leitores. Achei a ideia boa, afinal, vocês merecem meu respeito.

     Em nosso país, a arte não é valorizada como deveria! Vejo alguns alunos, que reclamam do preço dos livros, desfilando sapatos e bolsas de grife. Que pouco valor se dá à alma e que supervalorização ao corpo, à aparência, à futilidade? O trabalho intelectual não é visto com a nobreza que merece!

       Então aí vão as razões pelas quais esta coluna poderá deixar de existir:

       O não pagamento por um trabalho que exige disciplina e cuidado. Me nego a escrever qualquer textinho e enviá-lo ao jornal! Após a escrita, reviso, reescrevo, dependendo do assunto escolhido, me obrigo a pesquisar. Enfim, redigir uma crônica decente, de qualidade, demanda tempo.

      A falta de tempo é uma problemática da sociedade atual e certamente também me atinge.  Estou escrevendo uma narrativa longa, gênero literário que me exige um número maior de horas em frente ao computador.

      A valorização pelo trabalho passa pela questão econômica, financeira. Um profissional não trabalha sem remuneração e o que eu faço é trabalho, não acham? Ou, por acaso, algum dos leitores trabalha só por amor? Bem, aí se trata de trabalho voluntário em uma instituição assistencial, louvável, nobre e muito diferente da escrita de uma coluna em um jornal.

      Diante da impossibilidade de pagamento, por parte do Jornal Bom Dia, deixo registrada a minha busca por patrocínio. Se alguém tiver interesse em patrocinar esta coluna, podem ter a certeza da continuidade da leitura de minhas crônicas no jornal. Do contrário, continuarei escrevendo no blog.

      Muito obrigada: ao Jornal Bom Dia pelo espaço e a vocês pela leitura!

      Até mais!

criado por joselmanoal    9:25 — Arquivado em: Crônica

24/3/09

Educação sem rumo

 

            Desde que ouvi a notícia, o assunto me perturba, então é hora de falar a respeito: a história da professora em Caxias do Sul e da fita adesiva na boca do aluno de cinco anos me parece mal contada.

            Houve um tempo em que a voz do professor era respeitada e que os pais não questionavam tal autoridade, além disto nesta época também a escola defendia o seu corpo docente. Não tenho saudades de palmatória, nem de joelhos no milho, mas sem dúvida o mundo era outro. Não havia alunos disléxicos, nem hiperativos. Ninguém tinha bulimia, anorexia… Agora professor tem que motivar, tem que ser amigo do aluno. A função do professor é ensinar, se quiser ser amigo do aluno também, ótimo! E motivação, o sujeito deve carregar consigo, se quer ser alguém na vida.  Aos pais cabe a tarefa de educar, a escola só enfatiza as lições aprendidas em casa sobre respeito,  bons modos, etc.

            Hoje a escola deve engolir de tudo, socos, pontapés e palavrões, a violência ocorre todos os dias dentro do espaço escolar. Esta semana, em Porto Alegre, na Escola Estadual Bahia, uma aluna agrediu a professora, ocasionando-lhe um traumatismo craniano. A notícia não provocou tanta comoção quanto a do menininho com a fita nos lábios.

                Voltando ao fato ocorrido em Caxias do Sul, o advogado de defesa da professora afirma que a tal fita adesiva foi colocada pela própria criança, em um momento em que  a professora não estava em sala e esta apenas a teria retirado, o que pode ter machucado, por mais cuidado que esta tenha tido. Por que se acredita mais em uma criança de cinco anos, que pode muito bem ter fantasiado ou até mesmo mentido, do que em uma professora?

            Em que momento os educadores perderam a autoridade, a credibilidade e o respeito? Quando eu era criança jamais meus pais permitiriam que eu dissesse qualquer ai contra os meus professores, no que eles estavam cobertos de razão. Se um professor me colocasse uma fita adesiva, por estar conversando e atrapalhando o andamento da aula (o que, sinceramente, não acredito que tenha ocorrido em Caxias do Sul) provavelmente não haveria qualquer queixa contra a escola e o professor, eu levaria, isto sim, um castigo ou uma boa chinelada para aprender a me comportar direito na escola. Palmas para os pais de minha geração!

            E qual a posição da direção da escola em Caxias do Sul sobre o fato? A escola se exime de qualquer culpa! A única que deve ser punida é a professora que não poderá atuar nas escolas municipais da cidade, além de ter de passar por todo esta escândalo e humilhação. Que barbaridade!

            Me pergunto que tipo de punição sofrem os alunos que agridem seus professores todos os dias. E não me refiro somente à violência física. Cuidado, pois esta realidade brutal não atinge só a rede pública; na rede privada, também, os alunos de alto poder aquisitivo e, em sua maioria,  sem nenhum pingo de educação (reitero: educação é tarefa dos pais) também desacatam seus professores ao gritarem que pagam seus salários. Aluno cliente é intolerável!

            Questiono, preocupada, para onde caminha a humanidade com a educação a cada dia mais sem rumo…

 

Publicado em Palavra de Professor no Jornal Extra Classe - jornal do SINPRO/RS, ano 14, número 133, maio de 2009, p. 3

criado por joselmanoal    11:13 — Arquivado em: Crônica

18/3/09

Calar ou abrir um bocão?

 

     Clodovil sempre foi um sujeito polêmico. Escrevo, não por admiração profunda ou por imenso pesar por sua morte, lamento sua partida, mas sem comoção exacerbada. Escrevo, sim, porque levanto bandeira para gestos solidários!

     O estilista, apresentador, deputado, já havia manifestado o desejo de doação de órgãos, o que infelizmente não poderá ser feito, pois após a morte cerebral, sofreu uma parada cardíaca.  Mas seu gesto não termina por aí, a advogada responsável pelo testamento afirmou a decisão de Clodovil Hernandes pela doação de bens a instituições de caridade e o desejo de transformar um imóvel em Ubatuba (SP) em uma instituição para meninas órfãs.                                                                                             

     Talvez esta vontade de ajudar meninas órfãs provenha do fato de ele haver sido filho adotivo. Este olhar solidário, que nem todos possuem, pode ter uma explicação na história de vida de cada um. A maneira que o estilista encontrou de agradecer a quem lhe aceitou por filho é, justamente, tentando acolher muitas crianças a espera de pais, situação vivida por ele também um dia.

     Gosto de quem fala o que pensa, mesmo que cometa excessos e isto Clodovil sabia fazer bem. Nem sempre é bom falar muito, acredito que o tenha prejudicado na relação com as emissoras e na própria vida pessoal. No Congresso também teve seus momentos de ira descontrolada, porém não levava desaforo pra casa, o que considero uma qualidade.  Não era um tolo qualquer, saiu (ou foi saído?) do partido pelo qual se elegeu porque votava de acordo com as suas ideias e não como o partido estipulava.

     Há ações trabalhistas de Clodovil contra determinadas emissoras de televisão. Era o tipo de pessoa que não se cala diante de injustiça ou do que julga incorreto. Ia atrás de seus direitos. Atitude, aliás, que todos nós deveríamos tomar e muitas vezes não o fazemos para evitar incômodos. Preferimos não lutar porque dá trabalho, mais simples é calar. E nós nos calamos!

     Clodovil era uma pessoa irreverente, rebelde por excelência, o que o torna digno, sim, de admiração. Num mundo repleto de Maria-vai-com-as-outras, alguém que pisa aonde quer, faz a diferença. E este pisou no Congresso com maior votação do país, homossexual assumido, venceu preconceitos com seu estilo ambíguo: ora elegante, ora descortês. Só agora que finalizo o texto me dou conta que eu o admirava bastante

criado por joselmanoal    15:21 — Arquivado em: Crônica
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