Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

3/6/08

Carta póstuma

     Gostaria de ter tido coragem de te escrever antes. A carta, embora tardia, revela um pouco da mulher que tu desconhecias, apesar de com ela ter completado dezessete anos de vida em comum.
     Primeiro faço questão de dizer que não derramei uma só lágrima verdadeira em teu velório e em teu enterro. Tudo não passou de cinismo, do mais puro cinismo – arte que aprendi ao teu lado. Aproveitei a ocasião para conhecer algumas de tuas amantes, além das velhas conhecidas… Me fiz presente durante toda a fria noite de teu velório, vestia negro, embora em minha alma tudo fosse branco, já que viria a paz a minha vida, enfim. Não sei se tu estavas ali no velório e no enterro, pois não sei se acredito em vida após a morte, por isto faço este relato. Perdoa-me se me repito. Aliás, tu sempre me achaste repetitiva, portanto, farei jus a tua opinião.
     Te conheço mais do que tu conheceste a mim, com certeza! Sei cada passo teu fora de casa, cada telefonema, cada bebedeira, cada amante. Sei até mesmo das prostitutas, dos travestis e dos bacanais. Sei também que, as denominadas por ti como reuniões ou festas da empresa, não passavam de puras orgias.
     Agora quero revelar um pouco do que tu nunca chegaste a saber a meu respeito: enquanto tu ias aos tais encontros com as amantes, as por ti chamadas reuniões de trabalho, que pensas que eu fazia? Dormia? Não, querido, eu não dormia! Eu preparava a tua morte e aprendia a fazer sexo com outros homens mais másculos do que tu. Trabalhava como “massagista” em uma requintada casa noturna e aguardava a tua visita. Mas, infelizmente, nunca nos encontramos no meu ambiente profissional que, de certa forma, era também o teu. E sabes por quê? Porque não terias dinheiro para pagar o meu preço. A diferença entre nós dois é que, enquanto eu acumulava dinheiro em aplicações, tu só sabias gastar.
     Queres saber como tu morreste? Talvez tu não tenhas entendido muito bem, foi tudo tão rápido e quase indolor, não é? Sempre fui muito caridosa, não queria teu sofrimento, na verdade eu só queria a minha vida de volta, a minha paz – aquela que havia em mim antes de tu fazeres parte dos meus dias. Pois foi assim, cuidadosamente preparada por longos anos, que a tua morte ocorreu. Casualmente, dois meses após tu teres aumentado o valor do teu seguro de vida, tu morres. A quantia me interessou e achei que era o meu momento ideal. Não foi apenas pelo dinheiro, mas digamos que ele tenha sido o estímulo que eu precisava para colocar em ação o meu plano de liberdade. Bem, vou te contar logo, pois tu deves estar curioso para saber como tudo aconteceu… Muito simples: sabe a dose de uísque que tu tomavas todos os dias? Pois foi lá mesmo que coloquei o veneno. Recordas que eu mesma servi o teu uisquinho ao voltar da exaustiva reunião da empresa? Parece fácil, mas não foi fácil, não! Li muito, pesquisei para não deixar nenhum rastro, nenhum vestígio, por isto o enfarte, após a bebidinha… Tudo rápido e eficaz!
     Ninguém jamais irá desconfiar de mim: sempre fui esta esposa frágil, complacente, calma, um poço de tranqüilidade e candura. Ingênua, até! Todos pensam que eu nunca soube de tuas mentiras, quando na verdade aprendi a silenciar a dor. Vivi anos em um rotineiro exercício de cinismo. Aprendi! E hoje sou a maior cínica que eu mesma conheci! E olha que tu eras bom nisto, mas consegui te superar. Tu, como mestre do cinismo, podes te orgulhar de tua mais fiel seguidora.
                                                                    Eternamente tua,
                                                                                                      Suzana

Conto publicado em Aroma Hortelã de Joselma Noal, Porto Alegre, Editora Movimento, 2008.

criado por joselmanoal    14:29 — Arquivado em: Conto

1/6/08

Aroma Hortelã

     Na cozinha: uma mesa, Maria Eulália e o sobrinho. Há muito não se encontravam, um doloroso silêncio entre eles. Tinham muito e nada a dizer. Maria Eulália não conseguia mirar aquele homem sem que em seus olhos pairasse a figura do menino magricela. Francisco dirige um olhar manso para a tia que já não lhe parece a mesma da infância. Imaginava-a diferente, mais terna, mais alegre. Esses anos todos sem vê-la a teriam transformado? Mesclas de pensares: ela – o menino magricela; ele – a tia risonha.
    Maria Eulália serve o chá e os biscoitos, enquanto o sobrinho remexe-se na cadeira, coça a testa. A mulher insiste: “toma o chá, Francisco!” Ele então pega o bule com cuidado e derrama o chá na xícara de porcelana, e o bafo quente invade a cozinha. Francisco aspira o aroma hortelã e seu rosto revela o reencontro com o sabor da infância. Ele apanha um biscoito, coloca inteiro na boca. Doce, minúsculo e farelento. Francisco mastiga devagar e Maria Eulália sorve o chá a grandes goles. Ela esvazia a segunda xícara.
A tia procura o bule sobre a mesa, estica o braço longo e branco para apanhá-lo ao lado do sobrinho. A mão de Maria Eulália toca de leve o braço de Francisco. Ele sente a suavidade do toque. Por que não me pediu para alcançar-lhe?
      Que mulher! Será que sempre foi assim e eu nunca havia percebido? Bela e interessante com um quê de mistério…
     A mulher envia-lhe um sorriso e Francisco não retribui. Pára alguns minutos a observar o decote no vestido da tia.
Para os quase cinqüenta, é, deve ter quase isto… está muito bem a minha tia Eulália. A mãe sempre a censurou por rir demais e alto. Acho que hoje minha mãe não a reconheceria. Assim tão séria e calada. Lembro que a família comentava algo sobre o Tio Lelo, mas, como eu era pequeno, ouvia as fofocas e não as entendia muito bem.
     E a Tia já está viúva há quanto tempo mesmo? Deve fazer uns dez anos, é, acho que sim, uns dez anos, nossa, é um bocado de tempo!
“Ah! O chá? Está uma delícia, Tia! Sempre gostei de chá de hortelã. A senhora lembrou? Não lhe chamar de senhora? Sim, prometo que vou tentar. É hábito, não tenho a intenção de envelhecê-la, não! Pelo contrário, a senhora, ou melhor, tu estás muito bem, bem demais.”
     Talvez bem melhor do que eu pudesse imaginar. Nunca se importou que a chamasse de senhora. Por que isto agora de tratar por tu? E eu tenho de parar de olhá-la deste jeito. Que absurdo, Francisco! Ela é a tua tia, cara! Pára com isto, te controla!
     Maria Eulália olha e sorri para o sobrinho e Francisco corresponde. Uns minutos em silêncio e Francisco não encontra mais a Tia naquele olhar. Esquecem o parentesco. Na rua, automóveis e cães barulhentos. Ele confunde-se, já não lembra mais onde está.
    Francisco, colher de chá na mão, olhos na tia, “tu ainda gostas de acordar cedo para ver o sol nascer, tomar chimarrão e caminhar pelas ruas vazias?” Maria Eulália demora uns segundos na contemplação da palidez das paredes: “não, Francisco, já não faço isto todas as manhãs… E tu e a Márcia, foi definitivo?” A prata dentre os dedos de Francisco: “É, o mundo dá tantas voltas, acho que nos enganamos durante muito tempo. Sim, tivemos um fim. É definitivo.”
     A colher escorrega e tilinta no azulejo. Francisco busca a colher e levanta hipnotizado. A Tia sorri um riso de espera sabor hortelã.

     Sobre a mesa o chá esfriando nas xícaras de porcelana e os farelos de biscoito pelo chão. No piso azulejado da cozinha, corpos pálidos, braços frenéticos e o desespero pelo encontro.

Conto publicado em Aroma Hortelã de Joselma Noal, Editora Movimento, Porto Alegre, 2008.

criado por joselmanoal    17:59 — Arquivado em: Conto

7/11/06

A VOLTA

      É bom estar de volta! – a mulher de tailleur cinza, sapatos de salto lilás – suspira no aeroporto. Natália, malas e sorrisos. Voltara antes do tempo, ninguém a espera. Para a Comendador Caminha, por favor! – a voz autoritária para o motorista do táxi. Faz questão de dizer ao homem que chegara neste momento de Paris. Descontração e alegria nos gestos. Nos olhos, as verdades… Onde andará Vinícius? Não telefonara para ninguém durante esses dois meses. Não avisara ao ex-marido de sua viagem, afinal adora surpreender Vinícius… Ah, vivo tão bem sozinha! – ela consigo mesma, olhando-se no pequeno espelho que comprar em Paris. Remexe na bolsa, pega o batom lilás e com um pincel contorna os lábios com cuidado. Olha-se novamente no espelho, sorri, agora sim está ótimo! Deve apresentar-se bem em seu edifício, cara de recém chegada de Paris. Natália ajeita o cabelo com a ponta dos dedos, gosta de ser crespa. Guarda o espelho. Em seu edifício, paga o motorista com dólares, agradece em francês, coloca a mão sobre os lábios, sorri e retoma o muito obrigada. O táxi se afasta assim que diz não precisar de ajudas com as malas. O porteiro aproxima-se, ela cumprimenta-o com um aperto de mão, ele leva as malas pergunta pela viagem. Natália começa a sua ladainha de elogios : Paria? Uma cidade fascinante, perfeita, magnífica! Agradece ao porteiro, outros dólares. O homem sai sorrindo. Natália entra em seu apartamento. Tudo idêntico à noite anterior a sua viagem. Revê Augusto. Esteve com ela, exatamente há dois meses atrás, veio despedir-se. A mulher caminha pelo corredor, vê o grande espelho, quanta indelicadeza, Natália! A voz invade o apartamento. Ela lembra Augusto naquela noite… E nem sequer lhe enviara um postal. Que grosseria, Natália! Novamente, a boa alta.
     Resolve fazer algo. Escolhe um disco, prepara um uísque e ao pegar o copo enxerga o rosto do pai no cristal. Ele estivera doente, fora visitá-lo. Natália após esta visita a Santa Rosa, voltara com a certeza de que a família não passa de uma miragem. O pai não! O copo já sobre a mesa. Não suporta contemplar a face do pai.
      Ri, deitada no sofá. Natália tira os sapatos, joga para o alto. Os sapatos ficam ali no chão afastados – como ela e o pai. Os sapatos, pares de sapatos. Os olhos no copo. O pai sempre detestou vê-la bebendo uísque. Mas ela adolescente, já com o copo na mão, não parecia importar-se com as palavras do pai. No quarto, a adolescente chorava, o uísque ao lado.
Quem sabe telefona para Santa Rosa? Fala com a mãe, pergunta por ele. Não quer saber do pai, mas algo em si precisa. Entre um gole e outro, atirada no sofá a mulher pensa, para quem telefonará? Ao lado do sofá, a mesa de canto, telefone e agenda quase vazia. Olha a mala. Levanta-se com rapidez, abre a mala, puxa roupas. Senta-se no sofá. A mala ao lado. Panos enrolam-se: sedas, linhos, viscoses, lingeries. Um perfume francês! E comprou na França, quem diria? Uma interiorana foi a Paris! Que luxo! Natália contempla o perfume com um sorriso imenso. Vinícius usa Azzarro. O perfume de Augusto, ela não sabe. A mãe usa colônias extravagantes. O pai odeia perfume. Natália e seu Poison. Vê-se em Santa Rosa, menina encharcada das colônias baratas da mãe. O pai olhava feio, xingava. A menina morena corria parra o quarto ou ria alto em desrespeito, dependia de suas manhãs, do modo como acordava. Um dia riu alto demais e o pai puxou a cinta. Ela gritou, cuspiu no chão. Hoje é ela e o Poison, um apartamento na Comendador Caminha, uísque e gargalhadas solitárias preenchem os vazios. Natália levanta, aumenta o som. Precisa de música alta.
      Sentada no chão, cabeça encostada no sofá – assim está Natália. No sofá de cetim, gotas: a água salgada e o uísque. O copo imaginado vazio pinga no sofá e no rosto da mulher a luta por um sorriso. Natália puxa um cinzeiro, acende um cigarro. Olha o telefone, suspira.

Publicado em Contos de Oficina 8, p. 67-69

criado por joselmanoal    13:17 — Arquivado em: Conto

BÁRBARA

     Sempre me achei divina. Divina é um belo nome. Tão significativo! Eu sou Bárbara , não Divina. Estou em frente ao aquário, deliciando-me com o silêncio na casa e em mim. Magnífico silêncio. Um deus! Minha irmã detesta. Nunca fomos próximas. Vivemos raros eclipses. Esse aquário belíssimo? Sim, ganhei de minha irmã em um destes malditos e barulhentos natais em família. Dezembro e suas mentiras. Mentiras todos temos, inclusive os meses. Por que não?
     Meu filho é um maluco faceiro. Sua gargalhada me sufoca. Maltrata. São os insuportáveis, alucinantes sons. Eu busco o silêncio por todos os cantos e poros. Preciso sobreviver.
     Presente de bom gosto o aquário, não? Minha irmã é assim mesmo: toda bom gosto. Um tanto escandalosa, talvez demais. Decotes, unhas vermelhas, saltos altos e gargalhadas. Se nos vemos seguido? Ah, não! Nos vemos muito pouco e assim é ótimo. Muito bem casada Veruska – observa que até o nome é de bom gosto – um empresário gentilíssimo. Confesso que nunca entendi. Há coisas que morremos sem compreender. E aí está justamente o fascínio da vida. E eu viverei mesmo sem Arthur e Lúcio. Em Lúcio uma tentativa de reviver. Fracassei. Casada? Sim, fui casada, muitos anos. Agora sou viúva. Casamento: vinte e sete anos entre encanto e dor.
     A dor. Revejo aquele entardecer, seis horas da tarde, eu chegava do trabalho. Verão, ainda havia sol. Quando subia as escadas, ouvi o telefone tocar. Abri a porta às pressas para atender, socorrer, sei lá, telefone é tanta coisa desde nascimento a enterro. Quem sabe Arthur do serviço? – pensava em meu marido ao abrir a porta. Era sempre a primeira a chegar em casa. Agarrei o telefone como um filho recém-nascido. Conheci a voz de Arthur. Ele chegara antes do horário. Não sei porque não consegui largar o telefone. Maldita extensão! Hipnotizada ouvia a voz feminina, sorvendo a ira, mordendo o lábio. Degustando a falsidade. Pensava em um engano. Há tantos! Por que hoje não poderia ser mais um? Arthur, Rei Arthur. É deve ser um engano. Quem sabe linha cruzada? – insistia meu lado cínico. Mas a voz era dele. Sim, era Arthur. Sem dúvida, Arthur e outra mulher, me enxerguei aos dezesseis anos deslumbrada com aquela voz. A mesma voz, as mesmas palavras. Até o apelido! Parecia criado para mim. Sim, o mesmo apelido. Mordia o lábio com força. Não suportei ouvir a despedida, baixei o telefone, fechei a porta com cuidado e saí para caminhar. Acho que nunca caminhei tanto sem perceber…
      Odeio chorar. Mas àquela noite chorei. Não sei se por mim, por ele, pornôs. Sempre fui forte. Bárbara, bem diz meu nome. Nunca descerrei os lábios. Decidi aquela noite, a boca machucada por tantas mordidas, que jamais diria uma palavra. Optei pelo silêncio.
     Hoje tudo é igual o abandono me persegue. Lúcio não passa de um Arthur revestido. Vivo a mesma noite. Lúcio e outra mulher. Como Arthur. Demônios de voz mansa e palavras repetidas.
     Eu estou em silêncio, em frente ao aquário, os lábios próximos, cerrados. A gargalhada arde. Sim, eu vivo. Degustando falsidades. Mordo o lábio. Gargalhadas? Toas sufocadas. Olho os peixes. Atiro a água do aquário pelo chão, um pouco bebo. Pego os peixes com todo o cuidado e os esmago um a um. No carpete cinza, água e peixes com olhos arregalados. O aquário contra a parede. Me aproximo do aquário, agora apenas caçoa de vidro que enfio um a um na boca. Pego o telefone, disco vários números. Não procuro ninguém, busco o silêncio. Na boca, sangue e saliva misturam-se. Moro no décimo andar. Atiro o telefone e vejo-o cair. Um sorriso em sangue e saliva e pela primeira vez o prazer dos gritos e gargalhadas.

Publicado em Contos de Oficina 8, p. 71-72

criado por joselmanoal    13:12 — Arquivado em: Conto

Insônia

     Madrugada. Natália caminha pelo corredor. Um zumbi. Não consegue dormir. Já tentara televisão, música, livro. Não admitia os porquês da insônia. Depois do desquite, muitos homens, até mesmo o ex-marido… E agora Augusto. Suspira. Caminha até o quarto. A cama. As ausências. Que faria Augusto neste momento? Gostaria de acordá-lo. Sugerir um encontro. A noite com os drinques. Cristais. Mãos, bocas, pernas. Corpos, suores. Vidas. Olha para o relógio: quatro horas. Um telefone ao seu lado. E por que… Não! Loucura! O homem imaginaria absurdos. Afinal se conhecem há (Natália calcula) dez horas. Precipitação. Volta a caminhar. Sabe que precisa ouvir a voz daquele homem… Amanhã, quem sabe, outro horário. Tenta fingir. Sem resultados. Choro. Não entende. Não se entende. A coragem faltou ao encontro. Compareceram o medo, a ansiedade e o receio. O apartamento, um monstro. As paredes a esmagam. Dor no corpo. Torna a deitar-se. Fecha os olhos. O sono não vem. Levanta. Puxa o telefone dói gancho. Imagina o que não pode ver. O pijama, os chinelos, os olhos, aboca, os gestos – tudo. No telefone seria apenas uma voz. Ruído, a voz não escuta. A espera. Natália começa a roer as unhas. Ouve uma mulher. Deve ser engano. Natália confirma o número. O telefone no gancho. Ela prepara um uísque. Não quer pensar. Não quer ouvir. Não quer ler. Natália agora rói unhas, bebe uísque. Reveste-se de mentiras, sorrisos. È mulher, tem dinheiro. Apartamento e homens. Sem compromisso, melhor, pode sair com vários. Natália bebe,fuma, rói unhas. Chora.

Publicado em Contos de Oficina 8, p. 73

criado por joselmanoal    13:10 — Arquivado em: Conto
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