Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

3/8/09

Crianças-bomba e a barbárie religiosa

 

            Como professora de língua estrangeira, uma das ideias que mais defendo e repito aos alunos, é a de que para aprender um novo idioma, devemos estar livres de preconceito, a fim de respeitar à cultura do outro. Noto que alguns, ou melhor, a maioria dos alunos, em viagem de intercâmbio, por exemplo, não quer sequer provar uma comida diferente àquela a qual está acostumado. Então meu discurso se torna cada vez mais frequente e incisivo.

            Exercito o respeito à cultura alheia, não se trata apenas de discurso, mas confesso que me parece muito difícil, quando se tratam de atos de barbarismo e crueldade: crianças suicidas ou mulheres castigadas por vestirem calças. O choque cultural é violento!

            Na Zero Hora de quarta-feira, 29 de julho, duas notícias me deixaram atordoada: a jornalista Ludna Ahmed al-Hussein sentenciada a receber chibatadas por ter vestido calças, traje considerado indecente em seu país, Sudão; meninos com idade entre 9 e 18 anos foram resgatados pelas forças de segurança do Paquistão, crianças retiradas de suas famílias e forçadas a assistir vídeos sobre a opressão aos muçulmanos, eram doutrinadas e aceitavam como um ato heróico à condição de suicídio, à aceitação de transformar-se em meninos-bomba.

            O gesto de mostrar as pernas é considerado obsceno em algumas partes do mundo. Até concordo que não se precisa exagerar na mostra do corpo como no carnaval brasileiro, mas nem tanto o céu, nem tanto a terra – diz o sábio ditado popular.

            Claro a situação com as crianças é muito mais grave e trágica! A jornalista levará as chibatadas e sobreviverá. Não esquecerá a violência sofrida, porém viverá! Talvez até as chibatadas contribuam para a sua carreira…

             E os inúmeros meninos que desistem da vida, que se acham heróis explodindo bombas em seus corpos? O adulto que faz tal lavagem cerebral pode ser considerado um sujeito de uma maldade sem tamanho. Ou será alguém de fé ilimitada, de ingenuidade absoluta, de crença tão forte capaz, inclusive, de cegá-lo?

            Difícil viver em harmonia, saber dosar a fé, a crença. Sempre pensei que o problema do mundo fosse a falta de fé. Hoje penso que o problema do mundo, talvez, seja o excesso de fé! A fé ilimitada, a fé sem medidas, sem reflexão que pode levar crianças ao suicídio.

criado por joselmanoal    11:29 — Arquivado em: Crônica

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