Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

22/1/09

Difícil ser gênio no Brasil!

 

            A aprovação em primeiro lugar no Curso de Química de um menino de treze anos no vestibular na UFPR desencadeou uma polêmica sobre se o saber cognitivo deve ser o único a ser avaliado no ingresso à universidade. O conhecimento do garoto é indiscutível. O que alguns educadores questionam é se o grau de maturidade não poderá interferir ou prejudicar na vida acadêmica do superdotado.

            Guilherme Cardoso de Souza aprendeu a ler e a escrever sozinho aos dois anos de idade. Ao ingressar na escola poderia ter sido desestimulado a aprender, já que sabia muito mais que seus colegas e dominava o que estava sendo ensinado naquele momento. O abandono escolar é uma prática comum entre superdotados e Guilherme teve sorte da escola ter percebido as suas habilidades e ter permitido o seu avanço escolar. Guilherme cursou com sete anos o 1º e o 2º anos, com oito o 3º e o 4º anos e, aos nove, concluiu a 5ª, a 6ª e a 7ª séries. No ensino médio o talento lhe garantiu uma bolsa de estudos para uma escola particular. A família de Guilherme é de origem humilde. A mãe lamenta ter o acesso a Internet discada, o que impossibilita um maior tempo de pesquisa do garoto, que pode dedicar tempo a tal função somente aos domingos.

            Sobre a questão da maturidade, o mais importante para o aluno concluinte do ensino médio é conhecer suas potencialidades e definir para que direção vai focalizar seus estudos universitários. Muitos, diria que a maioria dos estudantes adolescentes, não sabe que profissão seguir. Esta certeza, esta convicção Guilherme tem. Sabe o que quer e pensa em ajudar os demais, quer tornar a química mais atrativa aos jovens, por isto já está empenhado em escrever um livro didático para ensino médio.

            As escolas brasileiras devem se preocupar em um sistema de identificação de alunos com grandes potencialidades e criar espaço, ou até mesmo escolas especializadas, para lidar com estes alunos. No RS, em algumas escolas públicas há um atendimento a alunos superdotados. Mas, ainda há muito a ser feito!

Já a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo formou 270 profissionais entre supervisores, assistentes técnico-pedagógicos, professores  e coordenadores para difundir o conhecimento sobre superdotação por toda a rede de ensino. A iniciativa gerou um aumento no número de diagnósticos de alunos superdotados de 79 registros no censo escolar de 2006, para 397 no de 2007. Foi publicado também um manual, lançado em dezembro passado para ser entregue a todas as 5,5 mil escolas estaduais paulistas: Um Olhar para as Altas Habilidades: Construindo Caminhos, publicado pela Editora Papirus.

Diante do índice de evasão escolar, a genialidade pode explicar alguns destes casos. Muitos gênios desistem da escola, visto que não se sentem motivados, desafiados a aprender. A escola deve resgatar e não abandonar estes alunos, afinal  podem usar o alto índice de inteligência de forma negativa. Segundo Maria Clara Sodré, doutora em educação de superdotados pela Universidade de Columbia (EUA), o criminoso Fernandinho Beira-Mar é exemplo claro de superdotado cuja potencialidade não foi aproveitada na escola (Diário Catarinense  09 de novembro de 2008). Convém lembrar que os gênios estão em qualquer classe social, difícil é detectá-los em solo brasileiro.          

            Ainda há muito a ser feito e ser discutido sobre o tema em nosso país. Com relação aos avanços, não imagino outra forma de manter o aluno gênio motivado em sala de aula, que não seja colocá-lo no espaço cognitivo adequado. Do contrário o indivíduo superdotado, a escola e a sociedade só tem a perder!

criado por joselmanoal    7:18 — Arquivado em: Crônica

15/1/09

Amor e Arte

 

            Assisti A Vida dos Outros (Alemanha, direção de Florian Henckel von Donnersmarck, Oscar de melhor filme estrangeiro em 2007) e me impressionou bastante a transformação do personagem ao deixar-se tocar pela arte. Incrível o quanto alguém pode mudar e tornar-se mais sensível, humano e justo ao observar o outro, ao colocar-se em seu lugar e ao sensibilizar-se com o objeto artístico.

            O filme reconta uma história real ocorrida nos anos 80, antes da queda do Muro de Berlim. Um sujeito tem por missão espionar um escritor, para verificar seu envolvimento político na Alemanha Oriental. Este agente do serviço secreto, ao observar o cotidiano do artista, vai se humanizando, vai se comovendo com a arte e passa a proteger o homem, a quem deveria condenar. A vida dos outros é uma obra original, prende o espectador na cadeira do início ao fim. É comovente!

            Tive a mesma sensação de mudança interior do personagem, ao ler O filho eterno de Cristóvão Tezza. O pai que não quer amar o filho Síndrome de Down e, com o passar do tempo, percebe que sua própria vida não tem nenhum sentido sem o menino.  Não se trata de um relato água com açúcar. O  escritor conta a sua vivência, estabelecendo um distanciamento, o que justifica a escolha por narrar em terceira pessoa. A obra fala da vida de verdade, sem enfeites e sem rodeios.

            Os dois exemplos (o filme e o livro) são fortes e nos fazem pensar. Devemos nos ater a realizar tarefas (ver filmes, ler livros) que nos tragam uma pitada de reflexão e/ou alegria. O que se encontra no amor e na arte.

            A ideia de espiar um artista, como no filme alemão, é muito diferente de espiar na televisão um bando de babacas disputando um milhão de reais . Por isto não percam tempo assistindo Big Brother! É um programa absolutamente vazio, não faz pensar, não nos torna sujeitos melhores e não nos diverte ou alegra. Acreditam: amor e arte é o caminho! O amor também está entre os amigos, em lugar de ficar em frente à telinha, vendo um monte de gente moldada pela forma da Globo, você pode juntar os amigos para o famoso PL (pão com linguiça), assistir um filme, namorar, enfim há muitas opções melhores no que dar audiência a esta palhaçada!

            Voltando à transformação, o ser humano pode transformar-se no amor e na arte. E saber amar também é uma arte, que nem todos dominam e, poucos sabem manejar com propriedade e eficácia.  

            Há até quem julga amar demais, quando na verdade estão precisando mesmo é amar mais a  si mesmas. É o caso das participantes do MADA – Mulheres que amam demais anônimas – que fazem loucuras por amor. O nome está sendo utilizado de modo incorreto, não se trata de amor, mas de obsessão e falta de autoestima.

Reafirme seu amor próprio, não contribua para a bestificação humana, não dê audiência ao Big Brother! Permita-se a emoção, através da arte e do amor, garanta a sua dose de reflexão e alegria para tornar-se uma pessoa melhor e mais feliz.

criado por joselmanoal    9:10 — Arquivado em: Crônica

7/1/09

Igualdade

 

            Comecei o ano pensando muito na questão feminina, depois de ler a respeito da escolha de Madonna por Jesus Luz, 20 anos, brasileiro, modelo, estudante de teatro, filho de protestantes, até outro dia desconhecido de muitos e que agora desponta como celebridade, circulando pelo mundo fashion ao lado da maior estrela pop dos últimos tempos.

            Lembrei de Elvis Presley que também escolhia suas companhias, como hoje faz Madonna No século passado, formava-se uma longa fila repleta de beldades femininas, havia também muitos desmaios e gritarias, características do incompreendido mundo feminino, valia de tudo para ficar com o roqueiro! Agora é a vez da Madonna enfileirar o homeredo sem camisa, beijar e escolher seu par e isto significa algo!

          Intensificando o debate: quando um homem procura uma prostituta, a todos lhes parece muito natural! Claro, não se for o Ronaldo Fenômeno com travestis! Agora, quando se trata de uma mulher que busca um profissional do sexo, aí todos criticam e consideram vulgaridade, baixaria. Será que é assim mesmo?

            Voltando às escolhas de Elvis e Madonna. Elvis escolher uma companhia tudo bem, já a Madonna não deve! Eu acho a Madonna o máximo! Assim como admiro profundamente, no mundo brasileiro, a Leila Diniz e a Maysa. Mulheres que escandalizaram por lutar por direitos iguais!

            Aliás, falando em Maysa, que minissérie fantástica está produzindo a Globo! Dirigida por Jayme Monjardim, filho da artista, só poderia ser mesmo a mais pura e bela emoção. Assisto a um capítulo e já fico esperando o outro com ansiedade. A atriz que desempenha o papel da cantora (gaúcha por sinal) está fazendo uma atuação brilhante. O elenco está impecável, o vai e vem temporal também me agrada e os entremeios de boa música são a mais pura poesia. Grande Manoel Carlos!

            Retornando a questão da igualdade, não estou, de modo algum, defendendo a prostituição, embora seja o mais antigo dos ofícios. Estou, sim, questionando o que é permitido a um homem e não uma mulher. Sexo sempre foi considerado necessidade masculina. E a mulher, por acaso, vive bem sem sexo?

A Madonna tem cinquenta anos e escolheu um rapaz de vinte. Muitos a consideram promíscua, porém se algum homem aparece com uma namorada trinta anos mais moça, será elogiado por seus amigos. Ninguém o criticará por isto!

            Homens são diferentes das mulheres em alguns aspectos, mas devem ter os mesmos direitos e deveres. Ainda hoje há muita discrepância entre salários e funções para homens e mulheres. A famosa dupla jornada de trabalho: a administração do lar permanece como atribuição da mulher.

            Precisamos educar nossos filhos dentro de um sistema igualitário. Cabe aos pais formar cidadãos desprovidos de preconceitos, livres para pensar e amar.

            Como bem cantou Maysa em Resposta: Ninguém pode calar em mim/ Essa chama que não vai passar/ È mais forte que eu/ E não quero dela me afastar/ Eu não posso explicar como foi/ E como ela veio/ É só digo o que penso/ Só faço o que gosto/ E aquilo que creio/ Se alguém não quiser entender/ E falar, pois que fale/ Eu não vou me importar com a  maldade de quem nada sabe/ E se alguém interessa saber/ Sou bem feliz assim/ Muito mais do que quem já falou ou vai falar de mim.

 

 

Obs.: Tentei adequar este texto a nova norma ortográfica, mas confesso,  queridos leitores, que sentirei muitas saudades do trema…

 

Publicado em 8 de janeiro de 2009, Jornal Bom Dia, p. 9

criado por joselmanoal    15:05 — Arquivado em: Crônica
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