26/11/08
Direito à dignidade
Li a notícia há uns quinze dias e não me sai da cabeça. Quando algo me impressiona deste modo, é o momento de compartilhar com vocês.
A decisão de recusa do transplante de coração por Hannah Jones, inglesa, 13 anos, faz repensar a vida. A declaração da garota: quero morrer com dignidade, foi respeitada pelos pais e consentida pelo Reino Unido, através de uma conselheira determinada pela Justiça, que considerou pertinentes os argumentos de Hannah. Caso contrário, poderiam forçá-la ao tratamento.
Tento me colocar no papel de Hannah, porém não consigo parar de pensar na mãe da garota. A maternidade nos torna solidárias. A mãe é ex-enfermeira da UTI e acompanhou a debilidade física da filha desde bebê: só aprendeu a caminhar ao três anos, um ano depois foi diagnosticada a leucemia mielóide aguda. A quimioterapia gerou o problema cardíaco. A infância foi vivida mais em hospitais do que em casa. A mãe acompanhou e, certamente, sofreu cada dor ao lado da filha, o que faz com que entenda o desejo da menina em não aceitar o transplante. Deve ser doloroso para a família respeitar a decisão de Hannah. O respeito está entrelaçado ao amor. Se os pais entendem e respeitam a menina, é porque a amam sobretudo, embora esta pareça uma conclusão incoerente.
O desejo de ir para casa acompanha pacientes de qualquer hospital, por melhor que seja o tratamento recebido, por mais equipado que seja o quarto, nunca é como estar em casa. As palavras da adolescente inglesa foram contundentes: Não quero um coração novo. Quero ir para casa. Após tanto tempo em hospitais, ela quer a sua casa. Tem consciência da gravidade da doença e do pouco tempo de vida que lhe resta: Tento não pensar na morte, mas sei que o meu tempo é limitado. Vivo cada dia. É difícil não sentir que a vida é injusta. Mas estou determinada a fazer o melhor.
Lembrei de Ramón Sampedro, cuja história foi narrada no filme Mar Adentro. Um espanhol que ficou tetraplégico aos 26 anos e lutou por cinco anos na Justiça pelo direito de morrer. Vale a pena assistir o filme! Embora seja doloroso pensar que não se trata de ficção. O personagem interpretado por Javier Barden (em uma atuação brilhante, como sempre) existiu. Sempre se fala sobre direito à vida, porém o direito à morte também deve ser respeitado. Não falo aqui de suicídio, a situação é muito diferente!
Hannah Jones, mais do que ninguém, sabe o que é viver. E que a gente aprenda a lição: nada de se queixar da vida!
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A tragédia causada pela enchente em Santa Catarina, também é outro motivo para repensar a vida. Fico orgulhosa com a solidariedade do povo gaúcho que tem contribuído, de modo significativo, com doações aos vizinhos catarinenses. Que sirva de modelo a toda terra!
Publicado em 27 de novembro de 2008, em Zero Hora, p. 27 e no Jornal Bom Dia
criado por joselmanoal
10:00 — Arquivado em: 

Comentário por Patricia — 26 26UTC novembro 26UTC 2008 @ 15:57
vou até assistir Mar Adentro. Sempre escolho filmes baseados na vida real. Fantasias não precisam ser pagas. gostei da sua crônica, pretendo ler outras. Um Abraço
Comentário por Guilherme Mossini Mendel — 27 27UTC novembro 27UTC 2008 @ 16:32
Pah, profe! Sensacional! Esses dois casos são muito “inalienáveis” para que a mÃdia manipule. E uma das coisas mais importantes do caso da menina é o fato do fato (hehehe) inevitavelmente questionar o que é o verdadeiro amor e quais são os limites do respeito.
Eu estava, coincidentemente, pensando em aspectos similares ontem na volta da aula. E… acredito que existam quatro conceitos abstratos diretamente ligados e que se confundem muitas vezes: amor-paz-respeito-equilÃbrio. Amor e Paz, em suas formas mais puras… para mim… são quase a mesma coisa. O Respeito é apresentado naturalmente por quem defende a Paz, o Amor e o EquilÃbrio. E o EquilÃbrio precisa ser entendido e aceitado para que se compreende os mecanismos do mundo.
NOTA: Escrevo isso enquanto ouço um CD sensacional que não conhecia: “Glauco Mattoso - Melopéia: Sonetos Musicados”. Recomendo! Isso é o cúmulo da arte interessante!!!
Comentário por aldo schier rio negrinho sc. — 28 28UTC novembro 28UTC 2008 @ 9:09
Querida !
Tenho comigo que a morte não é um fim, por isto vêz ou outra nos surpreendemos como o ser humano encara com certa naturalidade, minha querida avózinha que deixou esta vida aos 92 anos, disse suas últimas palavras para minha mãe”DEIXE EU IR PARA PODER DESCANÇAR”.Abração…
Comentário por Marcos — 7 07UTC dezembro 07UTC 2008 @ 19:44
JÔ, concordo plenamente com seu ponto de vista sobre o caso de Hannah Jones,sinceridade nem mesmo sabia dessa situação(preciso me atualizar), enfim porém é preciso salientar que o respeito, a compreensão, o carinho estão entrelaçados ao verdadeiro amor, a situação de Hones é um claro exemplo, mas imagino que é terrivel esperar a morte mesmo para aqueles que se conformaram ou ate mesmo encaram de forma bacana, no fundo o sentimento de querer viver é vivo, concerteza.
UM GRANDE abraço
Marcos do Simple