29/10/08
A chuva e a Feira
Da primavera se espera muito sol e tento entender o porquê de tanta chuva. Como não sou meteorologista, posso divagar sem culpa.
A sineta tocará na sexta-feira, 31/10, anunciando a invasão dos livros na Praça da Alfândega. A chuva costuma acompanhar o momento literário na capital de nosso estado.
Os motivos, nada científicos, podem ser os mais diversos:
São Pedro, um sujeito leitor, lamenta não estar presente no evento, então suas compulsivas lágrimas chegam até nós. Não, este motivo pode ser considerado demasiado piegas! Vamos a outro:
escritores falecidos choram de inveja das estátuas de Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade sentados na Praça. Não, este motivo também é pouco consistente! Inclusive porque a inveja não afligiria nossos intelectuais, este sentimento não afetaria pessoas bem resolvidas emocionalmente.
Poderia, sim, ser um gesto dos tantos anônimos escritores que almejavam a carreira literária e não a conquistaram. A dor da frustração explicaria qualquer tormenta. Ou ainda:
alguém que sonhou em ser patrono da feira, alguém que não leu todos os livros que gostaria, alguém que nunca aprendeu a ler e escrever, alguém que merecia o prêmio fato literário, alguém que deveria estar na cadeira de autógrafos, alguém que morreu sem conquistar o autógrafo do escritor preferido, alguém que não teve coragem de enviar os originais para nenhuma editora, alguém que foi recusado pelo mercado editorial e desistiu, …
Mas também se pode chorar de alegria, orgulho e emoção. Portanto, Erico Verissimo se emociona com a família: filho e neta caminham com segurança pelo mundo da palavra. Sérgio Luís Fischer, o Prego, falecido o ano passado, também se comove ao ler a dedicatória de Duas Águas de autoria do irmão Luís Augusto Fischer. Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade admiram orgulhosos a si mesmos sentados na praça. Ex-patronos, escritores, leitores brindam, faceiros, dos céus com o sueco Stieg Larsson (seu livro tornou-se best seller após sua morte). Autores comemoram a reedição de suas obras.
Os motivos absurdos podem ser inúmeros, o que não podemos é, nós que amamos os livros, chorar se os números de exemplares vendidos permanecem menores que os de latas de cerveja do bar da Feira. Nada de contribuir para a tempestade! Que a literatura conquiste mais leitores, consumidores de cerveja ou não!
Que a gente chore, sim, mas de emoção, seja no Pavilhão de Autógrafos; na Lona ao encontrar um livro almejado de longa data (perdido em uma caixa nas ofertas do sebo); no meio da Praça ao encontrar a obra que é o presente exato para o amigo; ao ver e abraçar o escritor amado; ao rever pessoas queridas; ao espiar de longe o intelectual admirado e contentar-se em apenas vê-lo e observar-lhe os gestos; ao cumprimentar o patrono.
Que toque a sineta! Que venham os livros! E que, após a abertura da Feira do Livro de Porto Alegre, volte o sol!
criado por joselmanoal
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