15/10/08
A lucidez de Saramago e de Meirelles
Meirelles, diretor de cinema, conseguiu traduzir, com mérito, a complexa e profunda reflexão sobre o ser humano apresentada em Ensaio sobre a Cegueira do escritor português Saramago, à arte cinematográfica. Tarefa respeitável!
As pessoas, contaminadas pela cegueira branca, vivem a degradação e a miséria. Há cenas chocantes: a sujeira do ambiente, a podridão dos homens, o desespero na luta pela sobrevivência. As pessoas vivem na cidade como animais selvagens – encontramos esta dura realidade nas páginas e na tela!
Li, com assombro, que algumas entidades dedicadas a deficientes visuais julgaram o filme preconceituoso. Desculpem a franqueza e rispidez, caros leitores, mas podem ser considerados analfabetos funcionais, porque não compreenderam a que se refere Saramago e o que transpôs Meirelles à tela com a dita cegueira branca.
Todos os dias, nos cegamos um pouquinho, para sobreviver. A obra exacerba, agiganta os sentimentos. A inveja, o ódio, o desejo carnal, a fome, tudo é monstruoso.
O filme não é divertido, é forte como o livro! Quem procura o cinema para entretenimento, assista uma boa comédia. Tenho certeza que Meirelles não o fará rir, não tem o riso como propósito – assim como a obra de Saramago! A ironia, característica do nobel português, propicia o rir de si mesmo. Estamos diante da literatura de verdade, portanto, faz pensar, refletir e temer. A arte, às vezes, dói!
As personagens não possuem nomes, são tratadas por profissões, atributos, características, o que revela o caráter de universalidade da obra. Não se trata da cegueira da Maria ou do João, não se trata de uma história pessoal. Vai muito além, revela a condição humana em sua mais profunda essência. E desvelar o humano significa deparar-se com o grotesco.
O isolamento dos cegos na quarentena obriga a união do grupo, primordial na luta pela sobrevivência. Neste momento surgem lideranças. O deparar-se com a maldade de líderes de outro grupo leva à degradação. A submissão de uns, a ascensão de outros. Os papéis sociais: o poderoso corrupto e o frágil submisso. Claro, depois há a rebeldia. Em um gesto de coragem, a mulher mata o líder perverso. Não é uma decisão individual, é uma atitude tomada em nome do grupo, para proteção de todos. A mulher do médico mata em nome da coletividade. E ela quem mais sofre, pois sendo a única a enxergar, vê os horrores e não somente os imagina.
A típica comparação entre o que é melhor o livro ou filme, não deveria jamais ser feita, afinal são diferentes objetos artísticos. Em minha opinião, ambos Ensaios sobre a cegueira são geniais.
Espero que muitos leiam o livro, assistam ao filme e aprendam a enxergar a realidade com uma visão mais crítica e inteligente.
Publicado em 16 de outubro de 2008, Jornal Bom Dia, p.13
criado por joselmanoal
8:50 — Arquivado em: 

Comentário por Teresa — 15 15UTC outubro 15UTC 2008 @ 16:22
Querida, sempre venho aqui, nem sempre escrevo algo, mas volta e meia você terá de me aturar, hehe!
Li o livro, gostei do filme e o trabalho foi sensacional. É muito difÃcil um filme ser fiel a obra, todo santo diretor quer pender para o lado que mais lhe interessa e não raro pro comercial. O Meirelles foi realmente fiel, em um filme que tinha muitas saÃdas para divagar. Quanto ao boicote eu também escrevi sobre isso e é lamentável, principalmente porque parte da própria classe, que se sente ainda mais ameaçada pela situação de 70 % de desemprego nos EUA. Convenhamos que o filme não tem como piorar muito as coisas não é?
Adorei como sempre, adios!
Comentário por Joao Luis Amaral — 16 16UTC outubro 16UTC 2008 @ 20:27
Desculpe, Jo! Mas, se me permite, vou (ousar) discordar (em parte) do seu texto.
Parte 1: estou em férias, casa em obras, saà para nao atrapalhar o bom andamento dos pedreiros. Fui ao cinema e assisti ao Ensaio sobre a Cegueira, acompanhado dum enorme saco de pipoca.
Parte 2: OK, é um ensaio, tem o seu lado ‘poético’, sua mensagem muitas vezes subliminar, seu extremo proposital. Não li o livro, mas esperava algo mais, para ser honesto.
Parte 3: Esperava algo mais até por ser publicitário e, como tal, ter estudado um pouco de arte alguns anos atrás (nada que me faça um expert, bem longe disso, mas tenho uma visão mais ampla do que as pessoas ‘normais’). Busco entender o que o autor quer dizer nas entrelinhas…
Parte 4: Foram duas horas de um filme forte, com cenas chocantes e duras, um baita puxão de orelhas na sociedade… mas acho que faltou um quê de REALIDADE, ou seja, a capacidade fabulosa de adaptação que o ser humano tem, uma maioria esmagadora de pessoas de bem, que procuram se ajudar.
Parte 5: quem sou eu para julgar os escritos de Saramago, um escritor abençoado… no entanto, o final ficou meio perdido, sem eira nem beira. Passaram por todo aquele sofrimento e nada ficou? Nenhuma releitura da sociedade moderna pós contágio?
Parte 6: obviamente, por nao ter lido o livro, algo deve ter se perdido na tradução da palavra escrita para a cinematográfica mas, confesso, pelo filme, jamais leria o livro (quando, normalmente, acontece o contrário, não é?).
Desculpe ter discordado, mas é que precisava te dar o meu testemunho e meu ponto de vista.
Um abraço,
Joao Luis Amaral
Comentário por Adh2bs — 16 16UTC outubro 16UTC 2008 @ 20:59
Oiê!
Estou lendo um livro escrito por José Saramago - Jangada de Pedra - dificÃlimo de ler. Já li “A caverna” e “vidas de Santos”. Gosto demais do autor. Estou curiosÃssimo para ver o filme porque: 1- gosto do Meireles 2- duvido que alguém consiga colocar Saramago na telona (mas, pelo jeito, terei que me render) 3- a junção de dois cabeças deve dar uma obra “da hora”. Para finalizar, que acha da minha estante? Saramago, Pessoa, Cervantes; Graciliano, Machado, Joselma… Só pra citar alguns…
Grande beijo,
Adh
Comentário por Renata — 17 17UTC outubro 17UTC 2008 @ 12:29
Olá.
Sábias palavras…
Gostei muiiito da sua crônica. Continue assim.
Visite meu blog ta,bém.
Abraços
Comentário por Guilherme Mossini Mendel — 17 17UTC outubro 17UTC 2008 @ 15:42
Oi, profe!
Tudo bem?
Ainda não tive a oportunidade (ou melhor, o tempo necessário) para ler esse livro. Mas, tenho um pouco de medo de lê-lo. Tenho medo de começar a ler tal obra e sofrer de um ataque cardÃaco, de tão “massa” que deve ser…
huahuahuahuahua
Não queria assistir ao filme antes de ler o livro…
No entanto, acredito que isso é certamente inevitável…
…e explica por que motivos as pessoas estão lendo menos depois do surgimento da televisão.
=D
Até mais, profe!
Tudo de bom!
P.S.: Adorei a crônica! Também achei muito viagem o que os cegos falaram depois que saiu o filme. Foi (e não foi) inesperado… / O Saramago deve ter pensado: “Esse tipo de comentário já justifica a obra…”
huahuahuahuahuahuahuahua