31/10/08
Prognóstico incorreto
Sexta-feira, 31/10, o maior sol em POA!
Meu texto A chuva e a feira foi por água abaixo (ditado adequado!).
Charles Kiefer tem pé quente, tudo indica bom tempo, apesar da crise.
Sexta-feira, 31/10, o maior sol em POA!
Meu texto A chuva e a feira foi por água abaixo (ditado adequado!).
Charles Kiefer tem pé quente, tudo indica bom tempo, apesar da crise.
Olá, Pessoal!
Estarei na Feira do Livro em Porto Alegre no sábado, 8/11, às 16h30min no Pavilhão de Autógrafos.
Apareçam!
Da primavera se espera muito sol e tento entender o porquê de tanta chuva. Como não sou meteorologista, posso divagar sem culpa.
A sineta tocará na sexta-feira, 31/10, anunciando a invasão dos livros na Praça da Alfândega. A chuva costuma acompanhar o momento literário na capital de nosso estado.
Os motivos, nada científicos, podem ser os mais diversos:
São Pedro, um sujeito leitor, lamenta não estar presente no evento, então suas compulsivas lágrimas chegam até nós. Não, este motivo pode ser considerado demasiado piegas! Vamos a outro:
escritores falecidos choram de inveja das estátuas de Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade sentados na Praça. Não, este motivo também é pouco consistente! Inclusive porque a inveja não afligiria nossos intelectuais, este sentimento não afetaria pessoas bem resolvidas emocionalmente.
Poderia, sim, ser um gesto dos tantos anônimos escritores que almejavam a carreira literária e não a conquistaram. A dor da frustração explicaria qualquer tormenta. Ou ainda:
alguém que sonhou em ser patrono da feira, alguém que não leu todos os livros que gostaria, alguém que nunca aprendeu a ler e escrever, alguém que merecia o prêmio fato literário, alguém que deveria estar na cadeira de autógrafos, alguém que morreu sem conquistar o autógrafo do escritor preferido, alguém que não teve coragem de enviar os originais para nenhuma editora, alguém que foi recusado pelo mercado editorial e desistiu, …
Mas também se pode chorar de alegria, orgulho e emoção. Portanto, Erico Verissimo se emociona com a família: filho e neta caminham com segurança pelo mundo da palavra. Sérgio Luís Fischer, o Prego, falecido o ano passado, também se comove ao ler a dedicatória de Duas Águas de autoria do irmão Luís Augusto Fischer. Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade admiram orgulhosos a si mesmos sentados na praça. Ex-patronos, escritores, leitores brindam, faceiros, dos céus com o sueco Stieg Larsson (seu livro tornou-se best seller após sua morte). Autores comemoram a reedição de suas obras.
Os motivos absurdos podem ser inúmeros, o que não podemos é, nós que amamos os livros, chorar se os números de exemplares vendidos permanecem menores que os de latas de cerveja do bar da Feira. Nada de contribuir para a tempestade! Que a literatura conquiste mais leitores, consumidores de cerveja ou não!
Que a gente chore, sim, mas de emoção, seja no Pavilhão de Autógrafos; na Lona ao encontrar um livro almejado de longa data (perdido em uma caixa nas ofertas do sebo); no meio da Praça ao encontrar a obra que é o presente exato para o amigo; ao ver e abraçar o escritor amado; ao rever pessoas queridas; ao espiar de longe o intelectual admirado e contentar-se em apenas vê-lo e observar-lhe os gestos; ao cumprimentar o patrono.
Que toque a sineta! Que venham os livros! E que, após a abertura da Feira do Livro de Porto Alegre, volte o sol!
O filho da doceira fartava-se com tantos açúcares. Passava o dia a lamber colheres e a raspar panelas. Jamais teria o doce beijo da mãe. A vida permaneceria amarga.
A crise econômica mundial assusta, a morte de Eloá comove, a liberação do filho do embaixador, sem carteira de habilitação e que admitiu ter ingerido bebida alcoólica, após batida de carro, indigna.
Optei por escrever sobre a indignação, então aí vai:
Li, com muita atenção, a matéria jornalística na Zero Hora de 16 de outubro, cujo título lhes apresento: Filho de embaixador bebe e bate carro, mas é liberado e fui tomada pelo sentimento de indignação. Sentimento este que deve ter atingido a todos leitores de tal página. Os que não o fizeram naquela oportunidade, terão a oportunidade de se indignar, então, neste momento.
O incidente ocorreu em Brasília, onde tudo pode acontecer. Além de alcoolizado, o estudante de Medicina de 19 anos, bateu com o automóvel de placa da embaixada do Paraguai, no carro de uma professora. Através da reportagem descobri que diplomatas e seus familiares estão imunes à Lei Seca e nem sequer pagam pelos danos cometidos em outro veículo, se não quiserem fazê-lo. Uma descoberta vergonhosa! Às vezes me pergunto se não serão mais felizes os ignorantes, os analfabetos. Quanto mais conheço o nosso país, maior inconformidade e maior assombro me acometem.
Terão tais privilégios os diplomatas em outros países?
Outra informação obtida na notícia é a de que, a partir de janeiro de 2009, os automóveis diplomáticos deverão ser registrados no Renavam e pagarão por multas cometidas. Pelo menos isto!
Em nosso país um cidadão comum, sem carteira de habilitação e alcoolizado, poderia até ser preso. Já um filhinho de papai diplomata é ausentado de qualquer responsabilidade. É o fim do mundo! Só poderia ter acontecido mesmo em Brasília.
A função de um pai, de qualquer profissão, qual deveria ser? A de educar o seu garoto, ensiná-lo a assumir responsabilidades. No entanto, a atitude do diplomata foi a de buscar o filho e deixar tudo como está. Pior vergonha não é a do filho, afinal ele foi educado para não ter culpa, não ser responsabilizado por seus atos. Maior vergonha deveria ser a do pai, cidadão de diferenciado poder econômico e cultural, que acoberta atitudes incorretas de seu rebento. Aqui não se trata de proteção paternal, presente em qualquer relação familiar equilibrada e fraterna. Trata-se, sim, de criar e fortalecer um irresponsável, prepotente e infantil.
E aos cidadãos responsáveis resta a indignação e o poder de gritá-la a outros brasileiros.
Publicado em 23 de outubro de 2008, Jornal Bom Dia, p.10
O boêmio conheceu Clara na madrugada. Despertou com o lume da mulher ao seu lado. Apaixonou-se pelo amanhecer.
Meirelles, diretor de cinema, conseguiu traduzir, com mérito, a complexa e profunda reflexão sobre o ser humano apresentada em Ensaio sobre a Cegueira do escritor português Saramago, à arte cinematográfica. Tarefa respeitável!
As pessoas, contaminadas pela cegueira branca, vivem a degradação e a miséria. Há cenas chocantes: a sujeira do ambiente, a podridão dos homens, o desespero na luta pela sobrevivência. As pessoas vivem na cidade como animais selvagens – encontramos esta dura realidade nas páginas e na tela!
Li, com assombro, que algumas entidades dedicadas a deficientes visuais julgaram o filme preconceituoso. Desculpem a franqueza e rispidez, caros leitores, mas podem ser considerados analfabetos funcionais, porque não compreenderam a que se refere Saramago e o que transpôs Meirelles à tela com a dita cegueira branca.
Todos os dias, nos cegamos um pouquinho, para sobreviver. A obra exacerba, agiganta os sentimentos. A inveja, o ódio, o desejo carnal, a fome, tudo é monstruoso.
O filme não é divertido, é forte como o livro! Quem procura o cinema para entretenimento, assista uma boa comédia. Tenho certeza que Meirelles não o fará rir, não tem o riso como propósito – assim como a obra de Saramago! A ironia, característica do nobel português, propicia o rir de si mesmo. Estamos diante da literatura de verdade, portanto, faz pensar, refletir e temer. A arte, às vezes, dói!
As personagens não possuem nomes, são tratadas por profissões, atributos, características, o que revela o caráter de universalidade da obra. Não se trata da cegueira da Maria ou do João, não se trata de uma história pessoal. Vai muito além, revela a condição humana em sua mais profunda essência. E desvelar o humano significa deparar-se com o grotesco.
O isolamento dos cegos na quarentena obriga a união do grupo, primordial na luta pela sobrevivência. Neste momento surgem lideranças. O deparar-se com a maldade de líderes de outro grupo leva à degradação. A submissão de uns, a ascensão de outros. Os papéis sociais: o poderoso corrupto e o frágil submisso. Claro, depois há a rebeldia. Em um gesto de coragem, a mulher mata o líder perverso. Não é uma decisão individual, é uma atitude tomada em nome do grupo, para proteção de todos. A mulher do médico mata em nome da coletividade. E ela quem mais sofre, pois sendo a única a enxergar, vê os horrores e não somente os imagina.
A típica comparação entre o que é melhor o livro ou filme, não deveria jamais ser feita, afinal são diferentes objetos artísticos. Em minha opinião, ambos Ensaios sobre a cegueira são geniais.
Espero que muitos leiam o livro, assistam ao filme e aprendam a enxergar a realidade com uma visão mais crítica e inteligente.
Publicado em 16 de outubro de 2008, Jornal Bom Dia, p.13
Como respeito os meus leitores, inclusive os do sexo masculino, hoje os dispenso da leitura, pois, certamente, este texto é dirigido às mulheres. Meninos, repito: não precisam ler esta crônica e, se o fizerem, sintam-se a vontade para julgá-la babaca! Não me ofenderei! Como dizia uma professora dos tempos de Mestrado: toda mulher, por mais intelectualizada que seja, deve permitir-se a comoção ao ver o filme Uma linda mulher, portanto…
A princípio me pareceu caro, no entanto depois de assistir, pagaria o dobro para me emocionar com o espetáculo Disney on ice – Princesas. A patinação, o figurino, as músicas, os contos de fadas. Tudo absolutamente perfeito! Claro poderia ser menos comercial: algodão doce ou pipoca, acompanhado de coroa de princesa com orelhas de Minnie, por treze reais é um verdadeiro e incontestável absurdo, mas os adultos, meio hipnotizados com a beleza do espetáculo e com os olhos brilhantes das crianças, pagam sem questionar.
Assumo que adoro princesas! Cursei disciplina de Literatura Infantil no Mestrado, analisei contos de fadas, percebi suas representações. Sei que, tanto o sapato perdido da Cinderela, como a picada no fuso da roca de Bela Adormecida, pode representar a perda da virgindade. Reconheço também que as histórias mostram figuras femininas, em sua maioria, submissas e que traçam suas vidas em torno da espera pelo príncipe. No entanto, nada disto impede que eu continue amando estas histórias. Confesso minha maior babaquice: chorei no espetáculo de patinação no gelo com as canções da Bela e a Fera e da Bela Adormecida e cantei junto baixinho, foram memorizadas de tanto olhar os desenhos com minha filha.
O meu desenho favorito é a Bela e a Fera, descobri isto durante o espetáculo. O amor da Bela por Fera, não é algo físico, afinal ele tem uma aparência horrenda, porém a sua transformação em alguém gentil e sensível a apaixonam. Na vida real, também, muitos se fantasiam de monstros e, depois, se transformam em príncipes. Basta dar tempo aos meninos para ocorrer a radical mudança, realizada pelo sentimento nobre. Portanto, meninas, tenham paciência com as suas feras!
Tudo bem, as mulheres não vivem mais em função da espera do príncipe encantado e nem almejam o foram felizes para sempre. A mulherada hoje se vira: estuda, trabalha, casa, educa os filhos, faz ginástica, etc. Ascendemos profissionalmente e permanecemos eternamente adolescentes emotivas diante dos contos de fadas.
Não nos identificamos com aquelas princesas, nunca moramos, e nem moraremos, em castelos, não conhecemos nossas fadas madrinhas e jamais beijaremos um sapo! E por será, então, que nos encantamos tanto? Porque queremos fugir da realidade, queremos viver um momento de fantasia.
Ao final do espetáculo, uma avó comentava que se sentia mais leve, ao presenciar o show de patinação, havia conseguido esquecer, por algumas horas, de nosso mundo violento.
A varinha de condão alcançou a todos os presentes, saímos todos maravilhados com os contos de fadas!
Publicado em 9 de outubro de 2008, Jornal Bom Dia, p. 11