Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

24/9/08

Dos inúteis elogios póstumos

     Inicio o texto de hoje com uma cena comum (um tanto mórbida), mas verdadeira. As lamúrias, ouvidas em velórios e enterros, a respeito das qualidades do falecido, que, nem sempre, eram assim tão grandiosas. Há casos em que a lamentação é sincera e os elogios são condizentes, no entanto aplausos e abraços devem ser dados em vida. Por que não nos permitimos faltar em velórios, enterros, missas de sétimo dia, e, muitas vezes, nos ausentamos em batizados, casamentos e aniversários? E falo em casamento também como um renascimento, embora nem todos tenham a sorte de um convívio harmonioso. Infelizmente, alguns aprender a morrer um pouco a cada dia no casamento, mas isto já é assunto para outro texto…
     Temos que aprender a celebrar a vida!
     Outro dia, conversando com amigos, percebemos a importância dada a estes rituais de despedida, compartilhamos a mesma incompreensão diante da morte, a mesma inconformidade diante da perda. E por isto, devemos desfrutar nossos dias, aproveitar a companhia das pessoas, que nos são queridas, e não desperdiçar tanto tempo com atividades burocráticas e desagradáveis. Não levar trabalho para casa aos domingos, pode ser um bom começo! Se o estresse está se transformando em um monstro capaz de devorá-lo, é hora de pedir férias e não de esperar pelo afastamento do trabalho por motivos de saúde. Não espere adoecer para dar valor a sua saúde!
     Devemos enxergar e verbalizar as qualidades das pessoas vivas e não esperar a sua morte para anunciá-las publicamente. Nada mais incoerente que homenagem póstuma! Que em batizados, casamentos e aniversários a gente saiba elogiar os anfitriões, em alto e bom som, nada de esperar outra ocasião para dizer o que merece ser dito naquele momento!
     Ao sair de Porto Alegre e vir morar em Erechim, acompanho mais as atividades culturais das quais deixo de participar devido à distância, do que quando vivia na capital e poderia comparecer a vários espetáculos e eventos. Alguns quilômetros me fizeram valorizar também, ainda mais, os encontros com os familiares e com os amigos. A distância aprimora o nosso olhar e motiva a nossa lamentação.
     Como lamento não conduz a lugar algum, o melhor é buscar alternativas de lazer, por aqui mesmo, ou deslocar-se para participar de algum evento cultural significativo e encontrar os amigos e os familiares.
E se o elogio é o que move o ser humano, a crítica também o faz, se fundamentada, claro, e não atirada como pedra pontiaguda com o intuito de agredir. Por favor, não esperem que eu morra para me fazer elogios e críticas!

     Muito obrigada a todos que prestigiam este espaço!

Publicado em 25 de setembro de 2008, Jornal Bom Dia, p.10

criado por joselmanoal    14:08 — Arquivado em: Crônica

2 Comentários »

  1. Comentário por Joao Luis Amaral — 25 25UTC setembro 25UTC 2008 @ 17:32

    A palavra-chave é EQUILÍBRIO para tudo o que se QUER e tudo o que se TEM que fazer. Na vida pessoal, QUEREMOS ter mais tempo, mas TEMOS que trabalhar (exemplo besta, eu sei, mas é o mais ‘direto’). Há dias em que não conseguimos nos desligar dos afazeres mas, passada a tempestade, há que se dar mais atenção ao cônjuge, aos filhos, aos amigos, aos animaizinhos, aos hobbies, para re-EQUILIBRAR (olha ele aqui de novo!) boas as energias.
    Quanto às homenagens póstumas, infelizmente é uma grande verdade e, confesso, uma vez tomei um ‘puxão de orelhas’ dos meus pais, pois quando perdi meu avô, recusei-me a entrar no velório, simplesmente porque queria guardar comigo apenas os bons momentos que passamos juntos, pescando, rindo, reclamando do futebol… Tomei a bronca (devia ter uns 18/19 anos), mas não arredei pé. E, quer saber?, nao me arrependo…
    (gosto muito dos seus textos e suas análises, sempre tocando em pontos sensíveis da vida… parabéns!).
    Um abraço,
    Joao Luis Amaral

  2. Comentário por Adh2bs — 26 26UTC setembro 26UTC 2008 @ 12:17

    Bons dias!
    Pois é, na minha família festas e velórios sempre foram meio… Animados. Não chegamos as rais da cultura japonesa que faz uma festa de despedida para os falecidos; mas geralmente os velórios (ao menos na sua parte “pública” - digamos assim) são recorrrentes no tom de despedida com a lembrança das qualidades do falecido. Uma espécie de blindagem positiva que inconscientemente a gente faz para acompanhar a alma até o seu novo destino. Quanto a exaltação e críticas em vida, concordo contigo; que se façam já, porque depois que a gente estiver em outra, não vai adiantar nada…
    Grande abraço, ótimo final de semana!
    Adh

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