Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

10/9/08

Anencefalia e Burrices

     A discussão polêmica sobre a interrupção da gravidez em caso de anencefalia toma conta do Supremo Tribunal Federal.
     Acredito que à mãe deve ser concedido o direito de decisão, se quer gerar um bebê sem cérebro ou se prefere não vivenciar tamanha dor de carregar no ventre um filho que não tem condições de sobrevivência.
     Os argumentos favoráveis a manter a gravidez, até o final da gestação, me parecem absurdos e cruéis para os pais. O documentário Uma história Severina retrata a dor de uma mãe que só pôde interromper a gravidez aos sete meses de gestação, após muita briga com a lenta Justiça brasileira. Severina sentiu as dores do parto induzido, ciente de que o seu bebê não sobreviveria. Viveu uma história de sofrimento inexplicável de gerar para enterrar. A certeza da mãe, de que o bebê sairia do seu ventre para o caixão, deve causar uma dor gigantesca, monstruosa, assim como o temor de conhecer um filho sem cérebro.
     Dizem-se cristãos os que são contrários ao aborto em caso de anencefalia? Aqueles que crêem em Deus e em sua palavra deveriam manifestar-se como contrários ao sofrimento relatado anteriormente. Deveriam ler o Evangelho com maior atenção, aprofundar seus estudos sobre a pregação de Jesus Cristo e rever sua posição sobre este tema polêmico.
……………………………………………………………………………………………………………….
     A Feira do Livro de Erechim já iniciou e segue com inúmeras atividades até o domingo 14/09. Haverá uma sessão de autógrafos na sexta-feira, amanhã à noite, 12/09, estarei lá na companhia de colegas escritores. Participe, prestigie os autores locais! Este momento da Feira é a ocasião propícia para formar novos leitores em nossa cidade. Espero que os ditados: Santo de casa não faz milagre ou Em casa de ferreiro, espeto de pau não se confirmem nos próximos dias.
     O tema da pouca valorização da arte em Erechim me preocupa e questiono se esta atitude ocorre por desprezo ou por desconhecimento da população. Reconheço que há pouca oferta cultural na cidade, mas a pouca que há, não é valorizada como deveria. Falta conscientização sobre o valor da arte ao povo erechinense! Não me refiro aqui a espetáculos inacessíveis por alto custo, mas a programações gratuitas de qualidade que são oferecidas durante a Feira e, também, ao longo do ano. O SESC sempre apresenta diferentes espetáculos: música, teatro, cinema, etc e poucos em nossa cidade participam. Desculpem a agressividade, porém neste caso não se trata de anencefalia! É muito pior, é o caso de má utilização cerebral, de gente que prefere programas do estilo de Big Brother à leitura de um livro. Burrice!

Publicado em 11 de setembro de 2008, Jornal Bom Dia, p. 10

criado por joselmanoal    22:50 — Arquivado em: Crônica

2 Comentários »

  1. Comentário por Lilly Soares — 10 10UTC setembro 10UTC 2008 @ 23:33

    Parabéns pela coragem de dizer e defender uma verdade incômoda. Mas a verdade deve ser dita. Sou cristã, não defendo o aborto, em si, mas concordo que é um sofrimento absurdo, impor que uma mãe, mantenha uma gravidez, de um filho que não irá sobreviver. E o sofrimento desta mãe? E o da Severina? Sim, os cristãos deveriam reler não só o evangelho, mas usar um pouco mais a capacidade de raciocínio, de que adianta praticar à risca os ensinamentos e se esquecer do essencial? A compaixão, a compreensão e, o entendimento da dor alheia?

  2. Comentário por Joao Luis Amaral — 12 12UTC setembro 12UTC 2008 @ 18:40

    Quem sou eu para dizer o que é certo ou errado quando se trata de Deus (ou seja lá o nome que derem…). Acho apenas, diante da minha pequenez neste universo todo, que os homens lêem e interpretam Seus ensinamentos como melhor lhes convêm. Quantos não são os que ‘brincam’ com a fé dos outros, em troca de alguns tostões…
    Jamais apostaria uma moeda velha que Ele quisesse o sofrimento incalculável de uma mãe, um pai, uma família. Há que se ter bom senso, critério, sempre. E esse assunto de anencefalia vai além da dor suportável para um lar, especialmente para quem gere a criança.
    Noutra ponta, mas tão importante quanto, o que são esses Jogos Paraolímpicos, hein? Uma aula de vida, de superação, de força? Um puxão de orelhas enorme naqueles considerados ‘normais’? Um baita balde de água fria, daqueles que nos faz pensar na quantidade de problemas que ACHAMOS que temos??
    Belo texto, como sempre!!!
    Grande abraço,
    Joao Luis Amaral

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