Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

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Terra Blog

Arquivo de: Agosto 2008, 13

13.08.08

A beleza da verdade

categorias: Crônica


     Entre os fatos que me causam maior aborrecimento e ira, está, sem dúvida alguma, a mentira. Que desagradável o convívio com esta falsidade a nos tratar como estúpidos! O fato de ser enganado, transforma qualquer cordeiro em lobo (prova maior está nas relações amorosas, quando há provas de traição do companheiro!). O engano ao mundo, na abertura dos Jogos Olímpicos na China sobre a cantora mirim, trata a todos como imbecis diante dos espertos chineses. A verdadeira voz foi escondida por não estar de acordo com os padrões de beleza estipulados, para dar vez a menina bonitinha que dublou e encantou o mundo. Um espetáculo construído na base da mentirinha! Que absurdo!!!!
     Dediquei uma crônica a Edith Piaf, que de bela nada tinha, mas que jamais deveria ser escondida do palco por esta razão. Artistas são belos por natureza. A voz de Piaf a transformou em pássaro, adjetivo que talvez não possa ser aplicado a mais ninguém a não ser a ela mesma; brilhante em sua feiúra e deselegância corporal, sabia ser elegante, como nenhuma outra mulher no palco, em sua harmonia e singularidade vocal.
     A menina chinesa, Yang Peiyi, da voz revelada e do rosto escondido, não é feia, é gordinha e tem os dentes um pouco tortos, nada assustador, nenhuma aberração que não pudesse encantar o mundo como a outra, Lin Miaoke, que dublou e ouviu aplausos indignamente. Que exemplo foi dado a estas meninas? A falsa: de que na vida ser bonitinha é o que vale! A verdadeira: que não basta ter talento, tem que ser bonitinha!
     Esta padronização da beleza me deixa roxa de raiva! Evoluímos em tantos aspectos e com esta atitude comprovamos que não passamos de um bando de imbecis. Achei que a China fosse mais evoluída e não doutrinada por estes valores impostos pela sociedade capitalista. Na minha ignorância imaginei que os comunistas tivessem uma outra visão da arte, não aliada a um padrão de beleza estipulado. Triste engano!
     A beleza, em minha concepção, está muito mais no estado de espírito, na profundidade e no conteúdo, do que em um rosto perfeito. Conheço muitas pessoas belas feias e outras feias belas! Não pensem que enlouqueci, me permitam uma explicação da confusa teoria:
    Às vezes, ao assistir entrevistas com pessoas consideradas belas (atores, modelos, etc) muitas se transformam em feias, devido à arrogância, à antipatia, à falta de conteúdo e de pronfundidade ou como bem descreve minha mãe: são vazias. Já, em outros casos alguém que considerava feio, me surpreende em sua fala, por sua maneira de olhar o mundo, de interpretar os fatos da vida, enfim, mudo de opinião, e passo a vislumbrar uma beleza, até então desconhecida. Por isto é tão arriscado fazer pré-julgamentos, a beleza é algo mais profundo.
     Ao olhar as fotos das chinesas, diante de meu assombro com o fato de excluir uma criança talentosa das luzes e dos aplausos merecidos e oportunizar o momento de glória a uma farsante mirim, considero Yang Peiyi muito mais bonita que Lin Miaoke. Afinal nada é mais belo do que a verdade!
     Espero que este acontecimento sirva de reflexão e que a gente use da mentirinha só para o bem, como no caso de concursos em que se faz uso de pseudônimos. Aliás, estão abertas as inscrições para o I Concurso de Contos Gladstone Osório Mársico, até o dia 1º de setembro, aberto a todos interessados. Uma promoção da Prefeitura Municipal de Erechim, com a colaboração do Departamento de Lingüística, Letras e Artes da URI/ Campus de Erechim. Participem!

Publicado em 14 de agosto de 2008, Jornal Bom Dia, p. 10

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