1/6/08
Aroma Hortelã
Na cozinha: uma mesa, Maria Eulália e o sobrinho. Há muito não se encontravam, um doloroso silêncio entre eles. Tinham muito e nada a dizer. Maria Eulália não conseguia mirar aquele homem sem que em seus olhos pairasse a figura do menino magricela. Francisco dirige um olhar manso para a tia que já não lhe parece a mesma da infância. Imaginava-a diferente, mais terna, mais alegre. Esses anos todos sem vê-la a teriam transformado? Mesclas de pensares: ela – o menino magricela; ele – a tia risonha.
Maria Eulália serve o chá e os biscoitos, enquanto o sobrinho remexe-se na cadeira, coça a testa. A mulher insiste: “toma o chá, Francisco!” Ele então pega o bule com cuidado e derrama o chá na xícara de porcelana, e o bafo quente invade a cozinha. Francisco aspira o aroma hortelã e seu rosto revela o reencontro com o sabor da infância. Ele apanha um biscoito, coloca inteiro na boca. Doce, minúsculo e farelento. Francisco mastiga devagar e Maria Eulália sorve o chá a grandes goles. Ela esvazia a segunda xícara.
A tia procura o bule sobre a mesa, estica o braço longo e branco para apanhá-lo ao lado do sobrinho. A mão de Maria Eulália toca de leve o braço de Francisco. Ele sente a suavidade do toque. Por que não me pediu para alcançar-lhe?
Que mulher! Será que sempre foi assim e eu nunca havia percebido? Bela e interessante com um quê de mistério…
A mulher envia-lhe um sorriso e Francisco não retribui. Pára alguns minutos a observar o decote no vestido da tia.
Para os quase cinqüenta, é, deve ter quase isto… está muito bem a minha tia Eulália. A mãe sempre a censurou por rir demais e alto. Acho que hoje minha mãe não a reconheceria. Assim tão séria e calada. Lembro que a família comentava algo sobre o Tio Lelo, mas, como eu era pequeno, ouvia as fofocas e não as entendia muito bem.
E a Tia já está viúva há quanto tempo mesmo? Deve fazer uns dez anos, é, acho que sim, uns dez anos, nossa, é um bocado de tempo!
“Ah! O chá? Está uma delícia, Tia! Sempre gostei de chá de hortelã. A senhora lembrou? Não lhe chamar de senhora? Sim, prometo que vou tentar. É hábito, não tenho a intenção de envelhecê-la, não! Pelo contrário, a senhora, ou melhor, tu estás muito bem, bem demais.”
Talvez bem melhor do que eu pudesse imaginar. Nunca se importou que a chamasse de senhora. Por que isto agora de tratar por tu? E eu tenho de parar de olhá-la deste jeito. Que absurdo, Francisco! Ela é a tua tia, cara! Pára com isto, te controla!
Maria Eulália olha e sorri para o sobrinho e Francisco corresponde. Uns minutos em silêncio e Francisco não encontra mais a Tia naquele olhar. Esquecem o parentesco. Na rua, automóveis e cães barulhentos. Ele confunde-se, já não lembra mais onde está.
Francisco, colher de chá na mão, olhos na tia, “tu ainda gostas de acordar cedo para ver o sol nascer, tomar chimarrão e caminhar pelas ruas vazias?” Maria Eulália demora uns segundos na contemplação da palidez das paredes: “não, Francisco, já não faço isto todas as manhãs… E tu e a Márcia, foi definitivo?” A prata dentre os dedos de Francisco: “É, o mundo dá tantas voltas, acho que nos enganamos durante muito tempo. Sim, tivemos um fim. É definitivo.”
A colher escorrega e tilinta no azulejo. Francisco busca a colher e levanta hipnotizado. A Tia sorri um riso de espera sabor hortelã.
Sobre a mesa o chá esfriando nas xícaras de porcelana e os farelos de biscoito pelo chão. No piso azulejado da cozinha, corpos pálidos, braços frenéticos e o desespero pelo encontro.
Conto publicado em Aroma Hortelã de Joselma Noal, Editora Movimento, Porto Alegre, 2008.
criado por joselmanoal
17:59 — Arquivado em: 
