Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

26/6/08

Fragrância para leitores exigentes

Segue, abaixo, a crítica de meu colega Severino Mirandola Júnior, Mestre em Letras e leitor exigente, que me honrou com estas belas palavras sobre o meu livro Aroma Hortelã. Minha eterna gratidão ao querido Seve!

Texto de Severino Mirandola Júnior*

     Foi lançado um livro sintomático e sugestivo. Chama-se Aroma hortelã e trata-se de obra assinada por Joselma Noal, profícua cronista e desvelada contista, para a sorte dos leitores que ainda não sucumbiram à estupidez do mercado. Tal afirmação, antes de pleitear presunção, se ampara no fato de que Aroma hortelã não está reduzida a ingrediente do banquete de auto-ajuda, tampouco marcha nas hordas que levantam a bandeira do colapso do pensamento. É o tipo de literatura que dá sobrevida àquilo que merece ser lido, já que o conjunto estéril de obras pseudo-intelectuais oferecidas recentemente apenas redizem, mal, o que já foi dito, melhor, por outros. Um certo arrebatamento íntimo tomou conta da minha leitura ao perceber que uma professora se embrenhou na catinga literária, recusando-se, graças a Deus, a ousadias formais alcunhadas de, no melhor dos casos, estilo e, no pior, fórmula. Aroma hortelã é dramaticamente implacável, pulsante e provocadora. Quase cedo à tentação de querer guardá-la na gaveta das fábulas sem moral ou, ainda, dos teoremas que se dedicam a destruir de modo sistemático as morais pré-fabricadas. Resisto, faço arder um Cohiba, corona, pequeno, de aroma médio para combinar com a hortelã prometida, e o odor que emana das páginas é um misto agridoce de absoluta devoção à palavra e seus silêncios. Há embustes, armadilhas, imposturas e ardis. Há amor. E há morte. Eis tudo. Há literatura das grandes. Não é e não será um best-seller, porque Aroma hortelã detesta a repetição e os caminhos seguros. A obra lega o benefício da incerteza e todo o conjunto de possibilidades que isso assegura. O texto exige um leitor curioso, que não se contente com sínteses e nem padeça da ilusão de ter lido o essencial. E, para quem ensina Literatura, Língua Portuguesa e tantas outras coisas inúteis, a redenção: não há o jargão impenetrável, ilegível e, obviamente, tedioso que constitui excelentes leituras apenas para dissecações em obscuros laboratórios e seminários acadêmicos. Aroma hortelã é cru e nada tem que lhe atenue ou suavize a intensidade. Delicioso. E, já que carregar livros está na moda, cabe deixar Aroma hortelã bem visível, enquanto o expresso cor avelã esfria. Nada melhor do que emprestar à cultura um sentido que nos sirva para livrá-la de sua irritante inutilidade, coisa de derrotados, e desligá-la de seus elos coletivos e sociais, velharia de esquerdistas. E, por falar em expresso, sempre é bom lembrar que o grão arábico é fundamental. E deve ser moído na hora, para valorizar, inclusive, o aroma. Mas aí já é outro assunto. E outro aroma.

*Mestre em Estudos Literários, professor de Literatura Brasileira 

Publicado em 16 de junho de 2008, segunda-feira em

http://blog.educacional.com.br/prof.smjunior

criado por joselmanoal    13:53 — Arquivado em: Sobre o livro Aroma Hortelã

25/6/08

Desculpas em reais

     O pagamento de indenizações a presos e torturados no período de ditadura militar gera polêmica, conforme a reportagem Anistia S.A. na Revista Época, 16 de junho de 2008. Muitos criticam os valores estipulados, no entanto calcular o valor do dano e da lesão sofrida torna-se bastante difícil. Aqueles que perderam emprego, se permanecessem no mesmo trabalho, tendo em vista a ascensão profissional na mesma empresa, quanto poderiam receber, hoje? Além disto, em casos de assassinato de um familiar, concordo plenamente com quem afirma não existir preço compatível ao valor da vida! No entanto, justiça seja feita. E todos os que foram lesados no governo militar, seja por morte, agressões, perda de emprego, tortura, enfim, devem receber alguma desculpa do Estado, o que pode se dar, sim, em dinheiro.
     Entre os que receberam indenizações estão jornalistas, escritores, intelectuais, camponeses, operários, engenheiros, pessoas das mais diversas áreas profissionais. Os valores não deveriam ser estabelecidos pelo nível da vida da pessoa na época, porque não podemos saber se estivesse vivo em que atuaria atualmente o operário; afinal poderia ter progredido e ser hoje um grande empreiteiro. Então, a dificuldade consiste no cálculo dos valores. No topo das indenizações constam as profissões consideradas nobres.
     Dorina Pinto da Silva, agricultora, que perdeu o marido e o filho, torturados até a morte, recebeu cem mil reais, bem como Clarice Herzog (esposa do jornalista Vladimir Herzog). Já Ziraldo Alves Pinto (cartunista) receberá um milhão de reais. Os valores são discrepantes. Isto é que deve ser revisto!
     Os passos em nosso país são muito lentos, portanto, há muito ainda a calcular e muitas contas a serem refeitas, buscando a justiça. Trata-se de uma forma de resgate, de reparação ao mal sofrido a esta gente. Pessoas valentes e idealistas que lutavam por um Brasil melhor e acreditavam na utopia. Foram maltratadas e torturadas por gente que abusava do poder, que se julgava superior aos demais por usar farda e possuir diferentes armas. Os militares que comandavam e os que executavam torturas, em nosso país, mereciam condenações, punições sérias. Infelizmente sabemos que alguns permanecem no poder. Isto é o mais grave de todos os danos que pode sofrer um país, permitir a permanência no poder dos responsáveis por tantas mortes, torturas, demissões, danos físicos e morais, que levam a perda de dignidade do indivíduo. Indigno é permitir que estas pessoas concorram a qualquer cargo político. E o mais vergonhoso é que muitos são eleitos.
     Mais do que o pagamento de indenização aos lesados pela ditadura militar no Brasil, é importante que sejam resgatadas as histórias dos indenizados, daqueles que sonhavam com um outro Brasil. E que nunca mais tenhamos um período de ditadura em nosso país!

Publicado em 26 de junho de 2008, Jornal Bom Dia, p. 6

criado por joselmanoal    10:18 — Arquivado em: Crônica

20/6/08

Quebra-cabeça

     Em um momento de lucidez, rasgou a foto com a figura masculina. Na insanidade do dia seguinte, procurou pequenos papéis e formou o homem. Estavam, agora, ele: reconstruído; ela: esfacelada.

criado por joselmanoal    14:57 — Arquivado em: Conto minimalista

19/6/08

O CARÁTER RITUALÍSTICO DE AROMA HORTELÃ

Recebi uma surpresa, hoje pela manhã, ao abrir o jornal Bom Dia e deparar-me com a crítica da minha colega Vera Sass sobre o meu livro de contos. Me senti muito honrada com as palavras dirigidas à minha produção literária.

Minha eterna gratidão à Vera pela primeira crítica literária publicada em jornal!

Se quiserem ler, o texto segue abaixo.

Texto de Vera Beatriz Sass*

     Dentro da renovação literária que vem ocorrendo ultimamente, não se tem mais a idéia de que o conto apenas conta uma história. O conto moderno não é circular, com começo, meio e fim, mas tem estrutura aberta. E nesse sentido ele é um fragmento da realidade, vinculado a um processo criativo que dá a idéia ao texto, seguido pela seleção do material lingüístico adequado, do planejamento, da execução e da revisão do texto produzido.

     Vários jogos literários conhecidos colaboram atualmente para o melhor desempenho do contista. Sabe-se, por exemplo, que o autor deve produzir um texto elíptico, não dizer demais e torná-lo sutil, com o final apenas sugerido. É melhor fazer as personagens agirem e deixar que o próprio leitor tire as suas conclusões, não o subestimando.

     O conto em sua contemporaneidade procura apresentar um olhar de relance ou de viés sobre determinado fato. E tudo isso, Joselma Noal faz.

     Daí a importância da coletânea de contos constante do seu livro intitulado “Aroma Hortelã”, cujo lançamento aconteceu no último dia 30 de maio nas dependências da URI-Campus de Erechim. Numa publicação da Editora Movimento de Porto Alegre, a obra conta com a recomendação de Luis Antonio de Assis Brasil, considerado um dos maiores escritores brasileiros da atualidade, além de ministrar uma renomada Oficina de Criação Literária na PUC/RS..

     As variações originais dos contos de Joselma Noal caracterizam-se como absolutamente contemporâneas, expressam um estilo preocupado com o seu conteúdo e o seu valor estético. Ao adentrar-se em sua obra dois elementos altamente simbólicos chamam a atenção. Seu universo ficcional gira em torno de cenas que reportam a um mundo onde relógio marca o ciclo da vida das personagens e a hora do chá tem uma função ritualística.

     Juan Chevalier, autor do Diccionário de los símbolos (1986), enfatiza que a cerimônia do chá tem todas as aparências de um rito de comunhão, sua principal característica é a sobriedade, o chá é o símbolo da essência, que faz parte do self (do si-mesmo).

     Em diversos contos, a presença do chá é uma constante, pois ele está a simbolizar a essência das personagens. No conto AROMA HORTELÃ, a contista revela que “Francisco aspira o aroma hortelã e seu rosto revela o reencontro com o sabor da infância”. É quando, nós leitores, nos sentimos participantes do aconchego deste ritual e comungamos com os sentimentos das personagens numa passagem que expressa que “a tia sorri um riso de espera sabor hortelã”.

     Por sua vez, o conto ABRACO inicia: “Na cozinha a água fervendo para fazer o chá traz até o ambiente o perfume de Olga”. Percebe-se então, o aroma do chá interligado a essência da personagem, ou seja, ao seu perfume.

     Mas apesar dos momentos de comunhão, nota-se também a presença de um “eu” que se dilui num processo catártico e desabafa no conto O FRUTO: “Eu ainda sinto o peso do silêncio, da palavra guardada, engolida, sufocada. Preciso gritar”.

     Este grito se estende até a inconformação com um mundo de aparências que transparece no conto A ESPERA DE NATÁLIA: “Debruçada a janela, Natália percebe que domingo é falsidade. Tudo parece perfeito, feliz, perfeitamente feliz. Aparências, as malditas aparências! Querem afirmar com aquele sorriso nos lábios uma dose de felicidade que nunca existiu dentro deles.”

     Mas ao grito de dor e inconformação somam-se momentos poéticos que revelam a sensibilidade da contista com relação à condição humana, quando diz no conto O BALÉ E A CONFEITARIA: “Marina abandona a condição de lagarta. Surge uma borboleta que logo aprenderá a voar”.

     Observa-se que ao optar por um texto elíptico que diz o essencial, Joselma Noal apresenta uma grande dose de criatividade. As qualidades de seu estilo literário expressam a harmonia, a concisão que foge com maestria aos lugares-comuns e às frases-feitas.

     Os diálogos são incisivos e rápidos e as descrições breves, mas nítidas. A contista extrapola a condição de observadora e destila seus contos com enredos que poderiam render novelas, mas que saltam concentrados, acabados, sem uma palavra fora do lugar.

     Nota-se um caráter ritualístico, uma sabedoria de mostrar sem julgar e o contagio da celebração, porque sua literatura é vida em estado latente. O núcleo original de conflitos, ao suscitar uma colagem de situações do cotidiano, ergue as linhas narrativas para alem da banalidade, e exalta a condição humana que compreende o amor, o corpo, a perda e o desejo.

     A partir destes elementos percebe-se que a contista tem a aguda consciência de que a questão existencial permeia a própria literatura, e por meio das sutilezas de sua construção verbal, abre janelas, a fim de que possamos também ver a escuridão da alma humana.

     E tudo isso nos inquieta e nos provoca através de situações e reações, num torvelinho de emoções que se chocam, e tornam reconhecíveis os obtusos caminhos de cada um.

*Doutora em Letras pela PUC/RS
Professora do Curso de Letras da URI-Campus de Erechim

Publicado em 19 de junho de 2008, no Jornal Bom Dia, p.2

criado por joselmanoal    14:06 — Arquivado em: Sobre o livro Aroma Hortelã

18/6/08

Telas e cibórios

     Os ladrões estão se sofisticando ou são os mesmos invadindo novos espaços? Esta pergunta é suscitada, em razão de dois acontecimentos recentes.
     O roubo de telas de Picasso, Di Cavalcanti e Lasar Segall na Estação Pinacoteca no centro de São Paulo, na semana passada, 12 de junho, me deixou intrigada.
     Agora acabo de finalizar a leitura da Zero Hora (quarta-feira, 18 de junho, p. 30) com outro assombro. Em Arroio do Meio, interior do RS, foram colocadas grades em portas e janelas para aumentar a proteção da igreja. Houve um tempo em que nos sentíamos protegidos em igrejas sem uma única grade. A igreja matriz Nossa Senhora do Perpétuo Socorro foi invadida em maio, arrombaram o sacrário e levaram dois cibórios de ouro com hóstias consagradas.
     No caso da Pinacoteca, os assaltantes planejaram, muito bem, como levariam as telas, visitaram o espaço dois dias antes, conforme imagens filmadas no local.
     Já na igreja, parece uma ação de vandalismo e rebeldia, feita, provavelmente, por uma meia dúzia de garotos insanos. Nada tão profissional, mas que não deixa de ser, também, perturbador!
     Em qualquer um dos dois casos ocorre uma novidade, sei que não se trata de um primeiro caso, nem de assalto em museus, nem de igrejas. A questão que assusta é, justamente, a repetição da falta de cuidado com o patrimônio cultural e religioso. A novidade é tornar-se comum a invasão a museus e igrejas. E nós nos acostumarmos com mais um ato desrespeitoso contra a sociedade.
     O descaso com o bem público, o desrespeito à fé do outro. De que serviriam hóstias consagradas fora de uma igreja? É para perturbar, para irritar, para agredir. Não roubaram hóstias para brincar de missa! Digo isto por que meus irmãos e eu brincávamos de missa na infância. Minha irmã sempre era o padre e nossa hóstia era de bolacha Maria mesmo. Uma ocasião, perguntei às freiras, na escola onde eu estudava, se era pecado a tal brincadeira. Fiquei bem aliviada com a resposta de que não se tratava de nenhum pecado. O pior era ter de escutar os sermões da minha irmã…
     Mas voltando a questão: passamos a não dar a devida importância aos roubos, eles passaram a fazer parte do nosso cotidiano. A preocupação passou a ser tão-somente com o próprio umbigo. O egoísmo dá o tom à sociedade contemporânea. E se o roubo não ocorreu no museu que gente visita e na paróquia que a gente freqüenta. Azar!
     Sem dúvida o que falta ao tranqüilo brasileiro é a indignação!

Publicado em 19 de junho de 2008, Jornal Bom Dia

criado por joselmanoal    16:19 — Arquivado em: Crônica

14/6/08

O poder da palavra

Ela gritou um Merda!, bateu a porta e saiu. E ele ficou, sentado no sofá da sala, com a certeza de que ela jamais regressaria. Era uma mulher de poucas e definitivas palavras.

criado por joselmanoal    9:37 — Arquivado em: Conto minimalista

11/6/08

Aroma Hortelã, meu livro de contos, está à disposição na Livraria Cultura e nas seguintes livrarias em Porto Alegre:

Palavraria Livraria Café
Rua Vasco da Gama, 165 - Bom Fim

Companhia dos Livros
Oswaldo Aranha

criado por joselmanoal    18:40 — Arquivado em: Sobre o livro Aroma Hortelã

Sissi e o funk

     Apesar da crise do estado ser o tema do momento, vamos falar de amor já que hoje é o Dia dos Namorados! Pode não passar de uma data comercial, embora seja mesmo a véspera do Dia de Santo Antônio (pobre santo às vezes esquecido) e pode ser considerado este o momento ideal para uma discussão oportuna sobre as relações amorosas do século XXI.
     Pertenço ao século passado, onde os meninos ainda pediam em namoro durante a dança de rosto colado, ao som de músicas românticas. Os garotos tiravam a gente para dançar. E este era o verbo empregado tirar, que significava convidar para a dança. Quando começavam as lentas, nós, as garotas, ficávamos nervosas e à espera. Enquanto os meninos, do outro lado do salão, nos observavam para escolher a moça a quem dedicar uma voltinha no salão. Machista? Não sei, mas era lindo!
     Acabo de presentear minha sogrinha com a trilogia Sissi em dvd. E na festa de aniversário, no último fim de semana, quando entreguei o presente foi um alvoroço: a mulherada toda pedindo emprestados os dvds. O fato é conclusivo: falta romantismo ao mundo de hoje! E quem assistiu Sissi sabe bem do que estou falando.
     Vocês do século passado como eu, freqüentaram alguma festa de quinze anos, nos últimos meses? Nem queiram ir, é deprimente! Podem participar da festa, mas fiquem longe da pista de dança. Só funk com letras vulgares, acompanhado de coreografias igualmente vulgares. É triste, dói na alma de qualquer romântico!
     Bem, os tempos são outros, mas o amor permanece, prova está no comércio neste período do ano. Mas melhor que presentear em datas pré-estabelecidas, é presentear e ser presenteado em uma data unicamente do casal, o dia em que se conheceram, que começaram a namorar, a data de noivado ou casamento, enfim algo especial.
     Tenho certeza que estas meninas que rebolam no créu, gostariam muito de ser tratadas com doçura, ainda que na pista se mostrem de outro modo. Os meninos ficam tontos, sentem-se atemorizados pela exposição feminina. Tudo bem, garotas, sei que os tempos são outros, mas um pouquinho de mistério e sedução, não faz mal a ninguém.
Hoje há ficantes, namorados pertencem a uma outra categoria. Espero que neste dia dos namorados, 12 de junho, muitos ficantes mereçam ascender ao posto de namorados, porque a vida é muito outra, quando se encontra o amor.
     Há uma idealização sobre o amor, uma confusão sobre a calmaria da vida a dois, que não significa rotina, mas harmonia mesmo! Rotina é um saco. Por isto o casamento funciona, justo quando se mistura com alguma aventura, que pode ser pequena, mas deve revelar mudança. Troca de casa, de carro, de móveis, de restaurante, enfim fica por conta da criatividade… Brinco sempre com meus amigos, que vivem um segundo casamento, dizendo que eu estou sempre buscando alguma inovação, já que meu marido permanece comigo há duas décadas. O que explica a mudança de tom de cabelo, corte, etc, pelo menos para dar a ilusão que ele tem uma nova mulher.
     O amor pode ser antigo, mas sempre tem que ser renovado. Amor não pode cheirar a mofo jamais! Aprenda a renovar o seu amor, e se estiver opaco, aprenda a poli-lo como se fosse ouro!

Publicado em 12 de junho de 2008, Jornal Bom Dia, p. 6

criado por joselmanoal    15:32 — Arquivado em: Crônica

4/6/08

Palco e papel

     É incrível a sintonia dos atores com o palco! O Adriano Massaro e a Michele Rodrigues Tomazoni, que encenaram o esquete do lançamento do meu livro de contos, na última sexta-feira à noite, são exemplos vivos da transformação de gente comum em artistas. Conheci ambos como alunos e, em sala de aula, eram ótimos, mas no palco são surpreendentes. Naquele espaço surgem os outros, as personagens, e isto é arte, sem dúvida! Claro, não posso desconsiderar o mérito também do Severino Mirandola Júnior responsável pela adaptação. A idéia do saxofone surgiu após a escrita do esquete e a última versão do livro entregue à editora, por isto não aparece o nome de Alexandre Pompermayer nos agradecimentos da obra. Mas aproveito para agradecer agora pela harmonia musical no espetáculo.
     A arte se apresenta em diferentes modalidades, portanto, o teatro não é igual à literatura e nem deve ser! Isto significa que ter assistido o esquete não significa ter lido Aroma Hortelã, porque ler é um outro processo, o texto literário apresenta outras características. O que pode ser explícito no palco, no livro pode ser suavizado pela doçura e pela beleza das palavras escolhidas.
     Quando a propaganda é excessiva, às vezes as pessoas criam expectativas muito altas com relação ao objeto analisado. Me refiro à análise feita pelos componentes da mesa redonda no lançamento de meu livro. Espero que após tanto comercial, os leitores não se decepcionem! A verdade é que os professores realmente prepararam as suas falas de um modo muito inteligente e cuidado.
     Acho que apesar de todo o nervosismo, não borrei nenhum autógrafo e com ajuda dos alunos não escrevi nenhum nome de modo incorreto, já que, no momento da compra do exemplar, anotavam em um papel o nome a quem deveria ser autografado o livro. No momento de minha fala esqueci de dizer o nome dos alunos que me ajudaram, desde envelopar convites, até recepcionar, vender livros, etc, aproveito a coluna então para fazê-lo: Camila Oliveira, Edina Mecca, Eliane Tomazelli, Emily Arcego, Fernanda Inhaia, Fernanda Wepik, Givanildo Godinho, Guilherme Mossini Mendel, Mayara de Oliveira, Patrícia Nazzari.
     Quero agradecer novamente a todos que se fizeram presentes, em uma noite tão fria, para compartilhar um momento importante em minha vida. Aqueles que não puderam comparecer ao lançamento e desejam ler Aroma Hortelã, podem adquirir o livro com a própria autora ou nas livrarias: Fapes Shop (URI), Universitá, Espaço Cultural, Bankath, Livros e Cia em Erechim.

Em outras cidades brasileiras, Aroma Hortelã estará na Livraria Cultura!

Publicado em 5 de junho de 2008, Jornal Bom Dia, p.6

criado por joselmanoal    9:27 — Arquivado em: Crônica

3/6/08

Carta póstuma

     Gostaria de ter tido coragem de te escrever antes. A carta, embora tardia, revela um pouco da mulher que tu desconhecias, apesar de com ela ter completado dezessete anos de vida em comum.
     Primeiro faço questão de dizer que não derramei uma só lágrima verdadeira em teu velório e em teu enterro. Tudo não passou de cinismo, do mais puro cinismo – arte que aprendi ao teu lado. Aproveitei a ocasião para conhecer algumas de tuas amantes, além das velhas conhecidas… Me fiz presente durante toda a fria noite de teu velório, vestia negro, embora em minha alma tudo fosse branco, já que viria a paz a minha vida, enfim. Não sei se tu estavas ali no velório e no enterro, pois não sei se acredito em vida após a morte, por isto faço este relato. Perdoa-me se me repito. Aliás, tu sempre me achaste repetitiva, portanto, farei jus a tua opinião.
     Te conheço mais do que tu conheceste a mim, com certeza! Sei cada passo teu fora de casa, cada telefonema, cada bebedeira, cada amante. Sei até mesmo das prostitutas, dos travestis e dos bacanais. Sei também que, as denominadas por ti como reuniões ou festas da empresa, não passavam de puras orgias.
     Agora quero revelar um pouco do que tu nunca chegaste a saber a meu respeito: enquanto tu ias aos tais encontros com as amantes, as por ti chamadas reuniões de trabalho, que pensas que eu fazia? Dormia? Não, querido, eu não dormia! Eu preparava a tua morte e aprendia a fazer sexo com outros homens mais másculos do que tu. Trabalhava como “massagista” em uma requintada casa noturna e aguardava a tua visita. Mas, infelizmente, nunca nos encontramos no meu ambiente profissional que, de certa forma, era também o teu. E sabes por quê? Porque não terias dinheiro para pagar o meu preço. A diferença entre nós dois é que, enquanto eu acumulava dinheiro em aplicações, tu só sabias gastar.
     Queres saber como tu morreste? Talvez tu não tenhas entendido muito bem, foi tudo tão rápido e quase indolor, não é? Sempre fui muito caridosa, não queria teu sofrimento, na verdade eu só queria a minha vida de volta, a minha paz – aquela que havia em mim antes de tu fazeres parte dos meus dias. Pois foi assim, cuidadosamente preparada por longos anos, que a tua morte ocorreu. Casualmente, dois meses após tu teres aumentado o valor do teu seguro de vida, tu morres. A quantia me interessou e achei que era o meu momento ideal. Não foi apenas pelo dinheiro, mas digamos que ele tenha sido o estímulo que eu precisava para colocar em ação o meu plano de liberdade. Bem, vou te contar logo, pois tu deves estar curioso para saber como tudo aconteceu… Muito simples: sabe a dose de uísque que tu tomavas todos os dias? Pois foi lá mesmo que coloquei o veneno. Recordas que eu mesma servi o teu uisquinho ao voltar da exaustiva reunião da empresa? Parece fácil, mas não foi fácil, não! Li muito, pesquisei para não deixar nenhum rastro, nenhum vestígio, por isto o enfarte, após a bebidinha… Tudo rápido e eficaz!
     Ninguém jamais irá desconfiar de mim: sempre fui esta esposa frágil, complacente, calma, um poço de tranqüilidade e candura. Ingênua, até! Todos pensam que eu nunca soube de tuas mentiras, quando na verdade aprendi a silenciar a dor. Vivi anos em um rotineiro exercício de cinismo. Aprendi! E hoje sou a maior cínica que eu mesma conheci! E olha que tu eras bom nisto, mas consegui te superar. Tu, como mestre do cinismo, podes te orgulhar de tua mais fiel seguidora.
                                                                    Eternamente tua,
                                                                                                      Suzana

Conto publicado em Aroma Hortelã de Joselma Noal, Porto Alegre, Editora Movimento, 2008.

criado por joselmanoal    14:29 — Arquivado em: Conto
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