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Segue, abaixo, a crítica de meu colega Severino Mirandola Júnior, Mestre em Letras e leitor exigente, que me honrou com estas belas palavras sobre o meu livro Aroma Hortelã. Minha eterna gratidão ao querido Seve!
Texto de Severino Mirandola Júnior*
Foi lançado um livro sintomático e sugestivo. Chama-se Aroma hortelã e trata-se de obra assinada por Joselma Noal, profícua cronista e desvelada contista, para a sorte dos leitores que ainda não sucumbiram à estupidez do mercado. Tal afirmação, antes de pleitear presunção, se ampara no fato de que Aroma hortelã não está reduzida a ingrediente do banquete de auto-ajuda, tampouco marcha nas hordas que levantam a bandeira do colapso do pensamento. É o tipo de literatura que dá sobrevida àquilo que merece ser lido, já que o conjunto estéril de obras pseudo-intelectuais oferecidas recentemente apenas redizem, mal, o que já foi dito, melhor, por outros. Um certo arrebatamento íntimo tomou conta da minha leitura ao perceber que uma professora se embrenhou na catinga literária, recusando-se, graças a Deus, a ousadias formais alcunhadas de, no melhor dos casos, estilo e, no pior, fórmula. Aroma hortelã é dramaticamente implacável, pulsante e provocadora. Quase cedo à tentação de querer guardá-la na gaveta das fábulas sem moral ou, ainda, dos teoremas que se dedicam a destruir de modo sistemático as morais pré-fabricadas. Resisto, faço arder um Cohiba, corona, pequeno, de aroma médio para combinar com a hortelã prometida, e o odor que emana das páginas é um misto agridoce de absoluta devoção à palavra e seus silêncios. Há embustes, armadilhas, imposturas e ardis. Há amor. E há morte. Eis tudo. Há literatura das grandes. Não é e não será um best-seller, porque Aroma hortelã detesta a repetição e os caminhos seguros. A obra lega o benefício da incerteza e todo o conjunto de possibilidades que isso assegura. O texto exige um leitor curioso, que não se contente com sínteses e nem padeça da ilusão de ter lido o essencial. E, para quem ensina Literatura, Língua Portuguesa e tantas outras coisas inúteis, a redenção: não há o jargão impenetrável, ilegível e, obviamente, tedioso que constitui excelentes leituras apenas para dissecações em obscuros laboratórios e seminários acadêmicos. Aroma hortelã é cru e nada tem que lhe atenue ou suavize a intensidade. Delicioso. E, já que carregar livros está na moda, cabe deixar Aroma hortelã bem visível, enquanto o expresso cor avelã esfria. Nada melhor do que emprestar à cultura um sentido que nos sirva para livrá-la de sua irritante inutilidade, coisa de derrotados, e desligá-la de seus elos coletivos e sociais, velharia de esquerdistas. E, por falar em expresso, sempre é bom lembrar que o grão arábico é fundamental. E deve ser moído na hora, para valorizar, inclusive, o aroma. Mas aí já é outro assunto. E outro aroma.
*Mestre em Estudos Literários, professor de Literatura Brasileira
Publicado em 16 de junho de 2008, segunda-feira em
http://blog.educacional.com.br/prof.smjunior
O pagamento de indenizações a presos e torturados no período de ditadura militar gera polêmica, conforme a reportagem Anistia S.A. na Revista Época, 16 de junho de 2008. Muitos criticam os valores estipulados, no entanto calcular o valor do dano e da lesão sofrida torna-se bastante difícil. Aqueles que perderam emprego, se permanecessem no mesmo trabalho, tendo em vista a ascensão profissional na mesma empresa, quanto poderiam receber, hoje? Além disto, em casos de assassinato de um familiar, concordo plenamente com quem afirma não existir preço compatível ao valor da vida! No entanto, justiça seja feita. E todos os que foram lesados no governo militar, seja por morte, agressões, perda de emprego, tortura, enfim, devem receber alguma desculpa do Estado, o que pode se dar, sim, em dinheiro.
Entre os que receberam indenizações estão jornalistas, escritores, intelectuais, camponeses, operários, engenheiros, pessoas das mais diversas áreas profissionais. Os valores não deveriam ser estabelecidos pelo nível da vida da pessoa na época, porque não podemos saber se estivesse vivo em que atuaria atualmente o operário; afinal poderia ter progredido e ser hoje um grande empreiteiro. Então, a dificuldade consiste no cálculo dos valores. No topo das indenizações constam as profissões consideradas nobres.
Dorina Pinto da Silva, agricultora, que perdeu o marido e o filho, torturados até a morte, recebeu cem mil reais, bem como Clarice Herzog (esposa do jornalista Vladimir Herzog). Já Ziraldo Alves Pinto (cartunista) receberá um milhão de reais. Os valores são discrepantes. Isto é que deve ser revisto!
Os passos em nosso país são muito lentos, portanto, há muito ainda a calcular e muitas contas a serem refeitas, buscando a justiça. Trata-se de uma forma de resgate, de reparação ao mal sofrido a esta gente. Pessoas valentes e idealistas que lutavam por um Brasil melhor e acreditavam na utopia. Foram maltratadas e torturadas por gente que abusava do poder, que se julgava superior aos demais por usar farda e possuir diferentes armas. Os militares que comandavam e os que executavam torturas, em nosso país, mereciam condenações, punições sérias. Infelizmente sabemos que alguns permanecem no poder. Isto é o mais grave de todos os danos que pode sofrer um país, permitir a permanência no poder dos responsáveis por tantas mortes, torturas, demissões, danos físicos e morais, que levam a perda de dignidade do indivíduo. Indigno é permitir que estas pessoas concorram a qualquer cargo político. E o mais vergonhoso é que muitos são eleitos.
Mais do que o pagamento de indenização aos lesados pela ditadura militar no Brasil, é importante que sejam resgatadas as histórias dos indenizados, daqueles que sonhavam com um outro Brasil. E que nunca mais tenhamos um período de ditadura em nosso país!
Publicado em 26 de junho de 2008, Jornal Bom Dia, p. 6
Recebi uma surpresa, hoje pela manhã, ao abrir o jornal Bom Dia e deparar-me com a crítica da minha colega Vera Sass sobre o meu livro de contos. Me senti muito honrada com as palavras dirigidas à minha produção literária.
Minha eterna gratidão à Vera pela primeira crítica literária publicada em jornal!
Se quiserem ler, o texto segue abaixo.
Texto de Vera Beatriz Sass*
Dentro da renovação literária que vem ocorrendo ultimamente, não se tem mais a idéia de que o conto apenas conta uma história. O conto moderno não é circular, com começo, meio e fim, mas tem estrutura aberta. E nesse sentido ele é um fragmento da realidade, vinculado a um processo criativo que dá a idéia ao texto, seguido pela seleção do material lingüístico adequado, do planejamento, da execução e da revisão do texto produzido.
Vários jogos literários conhecidos colaboram atualmente para o melhor desempenho do contista. Sabe-se, por exemplo, que o autor deve produzir um texto elíptico, não dizer demais e torná-lo sutil, com o final apenas sugerido. É melhor fazer as personagens agirem e deixar que o próprio leitor tire as suas conclusões, não o subestimando.
O conto em sua contemporaneidade procura apresentar um olhar de relance ou de viés sobre determinado fato. E tudo isso, Joselma Noal faz.
Daí a importância da coletânea de contos constante do seu livro intitulado “Aroma Hortelã”, cujo lançamento aconteceu no último dia 30 de maio nas dependências da URI-Campus de Erechim. Numa publicação da Editora Movimento de Porto Alegre, a obra conta com a recomendação de Luis Antonio de Assis Brasil, considerado um dos maiores escritores brasileiros da atualidade, além de ministrar uma renomada Oficina de Criação Literária na PUC/RS..
As variações originais dos contos de Joselma Noal caracterizam-se como absolutamente contemporâneas, expressam um estilo preocupado com o seu conteúdo e o seu valor estético. Ao adentrar-se em sua obra dois elementos altamente simbólicos chamam a atenção. Seu universo ficcional gira em torno de cenas que reportam a um mundo onde relógio marca o ciclo da vida das personagens e a hora do chá tem uma função ritualística.
Juan Chevalier, autor do Diccionário de los símbolos (1986), enfatiza que a cerimônia do chá tem todas as aparências de um rito de comunhão, sua principal característica é a sobriedade, o chá é o símbolo da essência, que faz parte do self (do si-mesmo).
Em diversos contos, a presença do chá é uma constante, pois ele está a simbolizar a essência das personagens. No conto AROMA HORTELÃ, a contista revela que “Francisco aspira o aroma hortelã e seu rosto revela o reencontro com o sabor da infância”. É quando, nós leitores, nos sentimos participantes do aconchego deste ritual e comungamos com os sentimentos das personagens numa passagem que expressa que “a tia sorri um riso de espera sabor hortelã”.
Por sua vez, o conto ABRACO inicia: “Na cozinha a água fervendo para fazer o chá traz até o ambiente o perfume de Olga”. Percebe-se então, o aroma do chá interligado a essência da personagem, ou seja, ao seu perfume.
Mas apesar dos momentos de comunhão, nota-se também a presença de um “eu” que se dilui num processo catártico e desabafa no conto O FRUTO: “Eu ainda sinto o peso do silêncio, da palavra guardada, engolida, sufocada. Preciso gritar”.
Este grito se estende até a inconformação com um mundo de aparências que transparece no conto A ESPERA DE NATÁLIA: “Debruçada a janela, Natália percebe que domingo é falsidade. Tudo parece perfeito, feliz, perfeitamente feliz. Aparências, as malditas aparências! Querem afirmar com aquele sorriso nos lábios uma dose de felicidade que nunca existiu dentro deles.”
Mas ao grito de dor e inconformação somam-se momentos poéticos que revelam a sensibilidade da contista com relação à condição humana, quando diz no conto O BALÉ E A CONFEITARIA: “Marina abandona a condição de lagarta. Surge uma borboleta que logo aprenderá a voar”.
Observa-se que ao optar por um texto elíptico que diz o essencial, Joselma Noal apresenta uma grande dose de criatividade. As qualidades de seu estilo literário expressam a harmonia, a concisão que foge com maestria aos lugares-comuns e às frases-feitas.
Os diálogos são incisivos e rápidos e as descrições breves, mas nítidas. A contista extrapola a condição de observadora e destila seus contos com enredos que poderiam render novelas, mas que saltam concentrados, acabados, sem uma palavra fora do lugar.
Nota-se um caráter ritualístico, uma sabedoria de mostrar sem julgar e o contagio da celebração, porque sua literatura é vida em estado latente. O núcleo original de conflitos, ao suscitar uma colagem de situações do cotidiano, ergue as linhas narrativas para alem da banalidade, e exalta a condição humana que compreende o amor, o corpo, a perda e o desejo.
A partir destes elementos percebe-se que a contista tem a aguda consciência de que a questão existencial permeia a própria literatura, e por meio das sutilezas de sua construção verbal, abre janelas, a fim de que possamos também ver a escuridão da alma humana.
E tudo isso nos inquieta e nos provoca através de situações e reações, num torvelinho de emoções que se chocam, e tornam reconhecíveis os obtusos caminhos de cada um.
*Doutora em Letras pela PUC/RS
Professora do Curso de Letras da URI-Campus de Erechim
Publicado em 19 de junho de 2008, no Jornal Bom Dia, p.2
Os ladrões estão se sofisticando ou são os mesmos invadindo novos espaços? Esta pergunta é suscitada, em razão de dois acontecimentos recentes.
O roubo de telas de Picasso, Di Cavalcanti e Lasar Segall na Estação Pinacoteca no centro de São Paulo, na semana passada, 12 de junho, me deixou intrigada.
Agora acabo de finalizar a leitura da Zero Hora (quarta-feira, 18 de junho, p. 30) com outro assombro. Em Arroio do Meio, interior do RS, foram colocadas grades em portas e janelas para aumentar a proteção da igreja. Houve um tempo em que nos sentíamos protegidos em igrejas sem uma única grade. A igreja matriz Nossa Senhora do Perpétuo Socorro foi invadida em maio, arrombaram o sacrário e levaram dois cibórios de ouro com hóstias consagradas.
No caso da Pinacoteca, os assaltantes planejaram, muito bem, como levariam as telas, visitaram o espaço dois dias antes, conforme imagens filmadas no local.
Já na igreja, parece uma ação de vandalismo e rebeldia, feita, provavelmente, por uma meia dúzia de garotos insanos. Nada tão profissional, mas que não deixa de ser, também, perturbador!
Em qualquer um dos dois casos ocorre uma novidade, sei que não se trata de um primeiro caso, nem de assalto em museus, nem de igrejas. A questão que assusta é, justamente, a repetição da falta de cuidado com o patrimônio cultural e religioso. A novidade é tornar-se comum a invasão a museus e igrejas. E nós nos acostumarmos com mais um ato desrespeitoso contra a sociedade.
O descaso com o bem público, o desrespeito à fé do outro. De que serviriam hóstias consagradas fora de uma igreja? É para perturbar, para irritar, para agredir. Não roubaram hóstias para brincar de missa! Digo isto por que meus irmãos e eu brincávamos de missa na infância. Minha irmã sempre era o padre e nossa hóstia era de bolacha Maria mesmo. Uma ocasião, perguntei às freiras, na escola onde eu estudava, se era pecado a tal brincadeira. Fiquei bem aliviada com a resposta de que não se tratava de nenhum pecado. O pior era ter de escutar os sermões da minha irmã...
Mas voltando a questão: passamos a não dar a devida importância aos roubos, eles passaram a fazer parte do nosso cotidiano. A preocupação passou a ser tão-somente com o próprio umbigo. O egoísmo dá o tom à sociedade contemporânea. E se o roubo não ocorreu no museu que gente visita e na paróquia que a gente freqüenta. Azar!
Sem dúvida o que falta ao tranqüilo brasileiro é a indignação!
Publicado em 19 de junho de 2008, Jornal Bom Dia