30/4/08
Brincando de trabalhar
Assisti a uma palestra com a Lya Luft, na ocasião em que eu era acadêmica do Curso de Letras. Ao falar sobre seu trabalho, recordo a escritora, avó coruja, a relatar a definição do neto (então criança) para o trabalho como brinquedo dos adultos. Assim era o trabalho, e deve continuar sendo, para a Lya Luft. E assim deveria ser para todos!
Sabe-se que é caso raro trabalhar com arte em nosso país e conseguir sustentar-se com esta atividade. Exatamente pela dificuldade, os artistas tornam-se sujeitos persistentes e valorizam os seus brinquedos, os seus ofícios como poucos.
Enquanto algumas profissões são consideradas nobres, outras são desprezadas pela sociedade. Para a maioria da população, o status social conta mais que a satisfação pessoal ou o próprio salário. Raros são os profissionais que procuram um trabalho por afinidade, por gosto, como escolheram um brinquedo na infância.
A relação estabelecida entre trabalho e brinquedo mostra o grau de satisfação profissional das pessoas que cercavam, naquela ocasião, o neto de Lya Luft. Sorte do menino! Conheço muita gente para quem trabalho é uma forma de sustento e se acabou. Brinquedo? De forma alguma! Nada encontram de divertido, de instigante, de transformador em sua atividade profissional.
Deve ser bem complicado desempenhar uma função sem uma única dose de brincadeira, de diversão, de alegria. Hoje nos admiramos, em grandes cidades, ao encontrar algum profissional de bem com a vida. E a cada dia aumenta o número de farmácias e de consumidores de antidepressivos do tipo faixa preta. O índice de estressados é grandioso. A falta de compatibilidade entre trabalho e brinquedo afeta os adultos. Deve-se iniciar por um questionamento muito simples, o de refletir sobre a função social de sua profissão e valorizar aquilo que se faz. Se você não sabe para que serve a sua tarefa, não há mesmo razão alguma para executá-la.
Sou professora em um país que ainda não atribui à educação o lugar de destaque merecido. Mas jamais me senti pequena na escolha de minha profissão que consta na lista de desprezadas socialmente. Muito contrário, não sofro de baixa-estima, tenho orgulho de meu trabalho, o considero grandioso. Me divirto muito em sala de aula, lá encontrei meu palco, meu espaço, meu brinquedo que levo muito a sério.
O Mario Pirata, poeta, gosta de ser apresentado como brincadeiro! Talvez o que falte no mundo sejam pessoas como ele, que encarem o trabalho desta forma bem-humorada e alegre, tão comum dos artistas. Falta perceber a arte em outras funções para que ganhem um novo grau de importância em nossas vidas.
Feliz Dia do Trabalho!
Publicado em 1º de maio de 2008, Jornal Bom Dia, p. 6
criado por joselmanoal
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Comentário por Adriano de Paula Dias & Alexandre de Souza — 1 01UTC maio 01UTC 2008 @ 17:51
Olá! Adoramos seu blog! Visitaremos mais vezes, certamente. Quanto ao texto, seria excelente se todos nós conseguÃssemos conciliar dever com prazer. Infelizmente, poucos conseguem. Existem algumas brincadeiras que não gostamos, mas brincamos para não perdermos os amigos! Execelente texto! Um grande abraço.
Comentário por William Calixto — 1 01UTC maio 01UTC 2008 @ 17:59
Gostei de seu texto. Na verdade de todos os outros também. Gosto muito de ler e espero um dia poder escrever bem, assim como você. Assim como você, sou professor, só que de matemática. Procuro me divertir lecionando, principalmente para esquecer os problemas, salariais, pessoais, etc. Feliz dia do trabalho!
Ah! Se tiver algum interesse por matemática, visite profcalixto.blog.terra.com.br.
Um abraço!
Comentário por Joao Luis Amaral — 2 02UTC maio 02UTC 2008 @ 12:00
Olá,
Muito legal seu texto. E, se me permite, vou além.
Não só os artistas sofrem com os “pré-conceitos” sobre suas profissões. Em qualquer campo há os que se divertem, mesmo que em mercados estressantes. Veja meu caso, por exemplo: há 12 anos no mercado financeiro, não passo um dia sem fazer piada, sem arrancar uma risada dos colegas, sem “levar a sério a diversão”. Por outro lado, a maioria dos executivos deste meio se encaixam no perfil “quero grana e que se dane o resto”. Cada um escolhe o que é melhor para si, porém você está muito certa em dizer que há OU uma inversão de valores (excesso de atenção para coisas banais) OU depressão por fazerem o que não gostam, não suportam.
O que não entendo é: por que não dar uma guinada na vida, explorar o que temos de melhor e, claro, se puder ganhar uma grana com esse dom, tanto melhor.
Grande abraço.
Joao Luis Amaral