Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

4/2/08

A banalização da fé

     Ando com muita pena de Jesus! O seu santo nome em vão está circulando na Internet que é uma barbaridade! Estas rodas de orações, mensagens com fotos de Cristo, crucifixos, lágrimas, santos e anjinhos não me comovem mais, porque ultrapassaram o limite do bom senso.       

     Algumas apelam para o financeiro: o anjo da abastança ou da fortuna, o milagre em cinco minutos, às vinte e duas horas você receberá uma notícia, etc. Tudo de maravilhoso poderá acontecer em sua vida, basta encaminhar a mensagem ao maior número possível de pessoas em cinco minutos. Que é isto? Deve funcionar bem com o povo brasileiro, sempre precisando de uma grana extra, o cidadão vai enviando e-mail como adoidado, contando com o milagre, até que perde o emprego, por uso indevido do computador da empresa.

     Acredito em Deus, aprecio orações originais e mensagens otimistas, no entanto como estão circulando na Internet, é um abuso! A Nossa Senhora já me visitou inúmeras vezes, os anjos também, meus amigos já rezaram terços e terços por mim. Tá legal, gente, ótimo, mas chega, basta! Me desculpem aqueles que me enviaram estas correntes, porque eu, além de não repassar estas mensagens, as apago imediatamente da minha caixa eletrônica.

     Tudo que é exagerado, não é saudável! Estas mensagens religiosas soam como fanatismo, falta de senso crítico, não como ato de fé. Não preciso mandar mil correios eletrônicos para demonstrar minha fé em Deus, minha índole e caráter. Prefiro ser honesta em meu trabalho, solidária como as pessoas que me cercam, educada com todos que de mim se aproximam, amorosa com a minha família; estar sempre disposta a ouvir histórias tristes ou alegres de amigos e familiares; viajar correndo, aonde quer que seja, para ajudar aos que amo; enfim adoto outros gestos para dizer: sou do bem, na minha opinião mais corretos do que, simplesmente, encaminhar e-mails!

     Estou cansada de mesquinhez e mentiras. Gente que se disfarça de santinho, envia milhões de e-mails pregando cristianismo e solidariedade e no dia-a-dia não passa de um egoísta mesquinho à espera de um milagre divino.

     Que as correntes das mensagens eletrônicas sejam para uma mudança de atitude, para um repensar a vida e não o desejo de realização de milagres a partir de um encaminhamento de e-mails. E melhor do que esperar por milagres, é fazer com que ele aconteça, todos os dias, através do trabalho e do esforço diário. Ter fé é importante, mas para mover montanhas tem que suar um pouquinho também!

Publicado em 14 de fevereiro de 2008, Jornal Bom Dia, p. 6

criado por joselmanoal    20:26 — Arquivado em: Crônica

O carnaval deve exibir só a beleza?

     O Carnaval é conhecido como cultura popular, é como tal deve informar, nem que seja de modo superficial, a população que o prestigia. A polêmica em torno do carro alegórico da Escola de Samba do Rio de Janeiro – Viradouro, com a representação do horror do Holocausto, me parece exagerada. Houve falta de entendimento por parte da Federação Israelita do Rio de Janeiro.
     O povo brasileiro é criticado por falta de memória dos fatos históricos e políticos. A corrupção é esquecida e o poder está sempre na mão dos mesmos políticos porque não recordamos os nomes dos responsáveis pelos atos de corrupção do passado. Votamos sempre nos mesmos. O Carnaval seria um bom momento para recordar e, para alguns até conhecer, um pouco da história do próprio país e do mundo.
Claro, Hitler não deveria aparecer na Marquês da Sapucaí como herói, de modo algum, mas como o responsável por milhares de mortes e era assim que o Carnavalesco Paulo Barros o imaginou. O carro atuaria como protesto, como um alerta contra qualquer manifestação de violência.
     A festa popular deveria ser marcada também pela crítica e não só pela beleza da nudez feminina. Se o Brasil é conhecido pelo Carnaval, que tal criar aí um espaço de cultura real, de reflexão, de ironia? Sem censura! Censura, acho que já vivemos demais neste país em outros tempos.
Não só alegria e folia, mas contestação e consciência deveriam aparecer na maior festa popular brasileira. Se o Carnaval é arte, esta se constrói através do belo e do horrendo. Arte é para emocionar, e muitas vezes, choca, aterroriza.
     O tema da Viradouro já declara a que veio: É de arrepiar! Seria oportuno tratar do tema da morte de milhares de judeus. Em meio a plumas, brilhos poderiam estar também a barbárie, o genocídio. Por que não?
     Lamentável a decisão de retirada do carro alegórico! Confirma a idéia de que o Carnaval deve ser exuberante e não crítico. Considero importantes os dois, um não excluiria o outro, poderiam sambar lado a lado e contribuir para a informação, a memória e a conscientização popular.
     O Brasil precisa tanto da alegria do samba, como da informação histórica!

Publicado em 28 de fevereiro de 2008, p. 6, Jornal Bom Dia

criado por joselmanoal    20:23 — Arquivado em: Crônica
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