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Psicologia e literatura - um olhar ensimesmado
Na minha lista de profissões mais nobres consta a de psicólogo e como dia vinte e sete de agosto é a data dedicada a aqueles que buscam entender a alma humana, este texto segue em homenagem...
Tive a pretensão de ser psicóloga, por sorte não fui aprovada no Vestibular, porque hoje tenho consciência que o meu mundo é o das Letras. No entanto, meu fascínio pelo mundo da psique permanece.
Em um mundo de superficialidades, de linguagem virtual, de poucos encontros de olhar e pele, de personals (friend, trainer, diet, stylist, iPod, organizer, gestante, horta), de vazios existenciais preenchidos por consumismo e exacerbado de vaidades, enfim neste nosso espaço insano, nenhuma profissão merece lugar mais glorioso que a de psicólogo.
Na URI há uma faixa no Prédio 10 em homenagem aos psicólogos que diz o seguinte: Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, acorda - Carl Gustav Jung .
A tentativa de olhar para dentro de si não é nada fácil, é dolorosa e necessária. O ser humano que se propõe a trilhar tal rumo, nunca mais será o mesmo. O sujeito que já vivenciou terapia deve ser outro, não pode ser o mesmo, ou não deveria ser o mesmo, se levou a sério as sessões, os encontros, as análises, seja lá o nome que queiram dar. Algo deveria ter mudado dentro dele e na maneira de ver o outro.
Talvez o mais fácil seja olhar para fora, sonhar. Acordar requer um esforço maior, enxergar marcas, cicatrizes e tentar suavizá-las, não as eliminar. Elaborar perdas, realizar escolhas e renúncias. Exercitar a vida não é tarefa simples...
Viver é complicado para quem foge de si mesmo, para quem viaja para esquecer que existe. Li o outro dia que viajar é um remédio para depressão. Discordo! Remédio para depressão é terapia com seriedade e desejo de mudança. Ser, a vida toda, o mesmo ser humano é entediante! Temos que nos refazer e renascer de vez em quando, pois faz parte do exercício de crescer...
Alguns viajam para não mais voltar e fica a pergunta do que lhes faltou na vida. Certamente a coragem de reescrever a própria história. E reescrever me faz lembrar literatura que também é uma forma de reinventar o universo.
Parabéns aos psicólogos e a todos que acreditam que olhar para dentro vale a pena. A literatura segue o mesmo trajeto, basta saber ler de verdade!
Publicado em 30 de agosto de 2007, Jornal Bom Dia, p. 6
Assustador como os pais estão, a cada dia, mais permissivos, compactuando com a irresponsabilidade e incentivando os seus filhos adolescentes ao mundo das drogas. Li na Revista Época o depoimento de Roberto Cohen (organizador de eventos no Rio de Janeiro sobre o costume de manter uma ambulância com UTI na entrada das festas de debutante) e fiquei impressionada: "Parece estranho, mas entre eles (os jovens) ser socorrido numa ambulância para tomar glicose dá status". Status? Desde quando? Coma alcoólica virou moda? Eu realmente devo pertencer a outro planeta!
Outro dia, me chamou atenção na coluna social do Rafael Gonçalves, aqui no Jornal Bom Dia, uma menção a uma festa de quinze anos em que estaria à disposição dos convidados um carro para conduzir os adolescentes as suas residências, o chamado: Fest Car. Achei genial pela praticidade e por poupar os pais do famoso passeio da madrugada... Conversando com o Rafa, perguntei por mais detalhes sobre as festas de quinze anos aqui da cidade e fiquei mais tranqüila em saber que o Fest Car não foi, de forma alguma, uma motivação à bebedeira. Muito pelo contrário, de acordo com o nosso promotor de eventos, as festas em Erechim têm sido muito cuidadas, inclusive com os banheiros sendo supervisionados para evitar o uso de drogas. Espero que a moda da ambulância por aqui não chegue!
No momento em que os pais contratam uma ambulância para a festa de quinze anos de sua filha dizem sim ao uso abusivo de drogas - só para lembrar álcool também é droga! Claro pode evitar mortes na festa, pois há atendimento no próprio local. Em Porto Alegre já aconteceu morte por overdose de ecstasy em que uma jovem foi abandonada por seus amigos em um posto de gasolina, por exemplo. Não teve nenhum atendimento médico, antes os tais amigos a tivessem deixado diante de um hospital. Na festa não havia ambulância, nem amigos verdadeiros...
Festa é saúde, é cara limpa, é saber se divertir sem artifícios! Repito que as atitudes dos pais dos adolescentes têm me assustado por demais. Fui educada de outra maneira, os pais tinham outras psicologias. Tudo bem: reconheço que estou envelhecendo e ficando mais nostálgica e tenho me controlado para não dizer a frase reveladora da idade: No meu tempo... Na verdade, gostaria que o meu tempo pudesse ser qualquer um do qual participo, mas devo admitir que este não é meu tempo.
Temo por minha filha que um dia será adolescente, espero que até lá o mundo retroceda em termos de respeito, disciplina e diversão. E podem me cobrar: na festa de quinze anos de minha filha não haverá ambulância e espero não me deparar com nenhum jovem drogado ou alcoolizado...
Publicado em 16 de agosto de 2007, Jornal Bom Dia, p. 6
A gastronomia é um ato cultural - concordo com a crítica gastronômica mexicana Lourdes Hernández Fuentes. Na verdade, gastronomia é arte e cultura. Na cozinha se cria, se inventa e reinventa o sabor de um povo.
A Revista Época (6 de agosto de 2007) apresenta uma matéria sobre os chefs latinos na Europa e nos Estados Unidos. Os temperos, as frutas e as carnes da América Latina ainda são considerados territórios inexplorados. As culinárias latinas, especialmente a mexicana, a peruana e a brasileira, assumem o comando nas maiores cozinhas de restaurantes internacionais surpreendendo o mundo com pimentas, cactos, ervas e frutas.
A gastronomia tem adquirido um espaço importante em nosso país. Em nosso estado já encontramos cursos superiores dedicados à formação de gastrônomos. Já se foi o tempo em que aprender a cozinhar era um aprendizado simples, agora exige sofisticação e técnica. Aqui me refiro não à cozinha elementar, mas à elaboração de novos pratos, novas receitas.
Aprendi a gostar da cozinha com a minha avó e a minha mãe. Costumava ficar observando a função das duas e, ainda hoje, não sei bem se minha presença ali ajudava ou atrapalhava, de qualquer forma, eu nunca fui expulsa e ainda ganhava umas panelas para lamber. E nada mais divertido do que raspar uma colher de pau na panela para encontrar a sobra de um creme quente é uma delícia inexplicável e nem precisa explicar, todos já devem ter vivenciado tal experiência.
Lembro que, desde pequena, me agradava olhar a agilidade de minha mãe no corte da cebola, a força da musculatura de minha avó no manuseio do rolo para puxar a massa. Talvez não tenha aprendido um décimo na minha observação, mas aprecio estar na cozinha, não para lavar louça ou limpar chão (estas funções não me parecem nada atrativas) e sim para cozinhar!
Na literatura, a culinária ganhou destaque em Proust, ao mencionar a famosa memória dos sabores da infância... Se a arte eterniza o ser humano, posso concluir que a gastronomia também o faz! Quantas vezes vocês já não falou, ou ouviu falar, das saudades de um alimento preparado por alguém distante... A receita pode ser dada nos mínimos detalhes, porém há pratos inigualáveis: como o ravioli de minha avó materna e o nhoque de minha avó paterna.
Para comilões cinéfilos indico: Chocolate, Simplesmente Martha, Como Água para Chocolate, Tempero da Vida - filmes belos e criativos. Aliás, já os havia indicado em uma outra crônica denominada: Boloterapia (publicada neste espaço em 23 de março de 2006), se quiserem ler ou reler o texto está no blog.
Uma vida plena de gastronomia, de arte, de cultura e de amor a todos os pais neste domingo. Um abraço especial a meu pai - Leonildo - a quem eu poderia definir como um sabor de chocolate com pimenta. Doce, original, forte, picante: este é o meu pai!
Publicado em 9 de agosto de 2007, Jornal Bom Dia, p. 6
O Governo do Estado e a Secretaria da Educação estão a, cada dia, mais equivocados! A última medida chamada enturmação irá para minha lista de maiores disparates históricos que, aliás, tem aumentado significativamente de uns tempos pra cá... O que significa a enturmação? Simples: trata-se de unir turmas com poucos alunos no Ensino Médio (menos de trinta e cinco) para formar grupos com até cinqüenta estudantes. No próximo semestre a medida será aplicada também no Ensino Fundamental. Que barbaridade! Serve pra quê isto? Para reduzir custos, diminuir folha de pagamento e o mais grave: tornar o processo ensino-aprendizagem, que já era um desafio, uma missão quase impossível.
Como professora das disciplinas de Metodologia de Ensino, Prática de Ensino e Estágio Supervisionado devo tomar mais cuidado com as propostas educacionais que apresento e proponho em sala, pois contamos com uma realidade nada condizente com o sonho de educadores sérios e comprometidos. Em língua estrangeira, por exemplo, em que a carga horária é reduzida, já era difícil desenvolver um trabalho decente (não ideal, apenas decente!), agora com cinqüenta alunos em sala, até que cada um diga Buenos Días, a aula já acabou! O método comunicativo para ensino de línguas que busca o desenvolvimento do ouvir, falar, ler e escrever não poderá ser aplicado. A oralidade será feita em coro, jamais um professor conhecerá a voz de cada um de seus alunos. Como formar um cidadão crítico, se não há na escola espaço para que cada aluno emita sua opinião?
Todas as leituras teóricas indicadas por mim nas disciplinas preparatórias para o exercício da docência devem ser repensadas... Novos livros e artigos deverão surgir apresentando propostas didático-metodológicas para esta nova realidade de turmas com cinqüenta alunos. Se o número de alunos afeta o ensino-aprendizagem, o que diremos sobre a problemática enfrentada na questão disciplinar que já era grave? Agora com cinqüenta alunos em sala vira monstro!
Espero que o Sindicato, sempre atuante, não permita esta vergonha, este contra-senso, este engodo na educação do nosso estado em que o fingimento do ensinar e aprender tomou conta de nossas salas de aula. Desejo que a precarização do ensino não se institua ou que pelo menos a gente, mais uma vez, não se cale diante da hipocrisia, como costumamos fazer.
Infelizmente nossas façanhas não devem servir de modelo a toda terra! Pobres gaúchos...
Publicado nos jornais: Zero Hora em 7 de agosto de 2007
Bom Dia, em 2 de agosto de 2007, p.6
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