Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

25/7/07

Massagem Verde e Amarela

     Após uma semana da tragédia do acidente aéreo com o vôo nº 3054 da TAM no Aeroporto de Congonhas, que levou todos os brasileiros à comoção, expresso também meu pesar e solidariedade aos amigos e familiares das vítimas. E justamente porque de tragédias estamos fartos, é que prefiro escrever hoje sobre o desempenho dos nossos esportistas no Pan, para massagear um pouco nosso ego verde e amarelo.

    Estamos fazendo bonito no Pan, apesar da inexistência em nosso país de uma política de apoio a esportes. Há tão somente espaço para profissionais no futebol. Ainda bem que temos muitos brasileiros talentosos e valentes nas diferentes modalidades esportivas! É pela garra, pelo talento e não por patrocínio e incentivo governamental, que conquistamos medalhas de ouro na natação, no judô, no taekwondo, no handebol, na patinação artística, na ginástica artística, no vôlei de praia, no salto com vara, no esqui aquático, no pentatlo moderno, no tênis de mesa,…

     Fico imaginando se houvesse, nas escolas públicas, um empenho real na formação de atletas com professores qualificados e com espaços adequados para o desenvolvimento de habilidades para os mais diversos esportes, como: quadras, tatames, piscinas olímpicas, pistas de patinação, etc. Ganharíamos todas as medalhas e superaríamos todos os recordes!

     O Brasil é o terceiro país no Pan! Na liderança estão os Estados Unidos e na segunda vaga (que pode ser nossa) Cuba. Observem que os dois primeiros países investem em esporte, diferente do nosso país…

     Pertenço a uma família de inaptos a esporte, não fomos estimulados na infância, fomos educados para estudar. E meus irmãos e eu fomos obedientes: estudamos e muito. Não condeno meus pais, acho que eles fizeram muito, nos educaram bem, ao seu modo e em outros tempos. Mas, a verdade é que somos desengonçados e temos dificuldades motoras facilmente perceptíveis. Como mãe tento estimular o desenvolvimento intelectual e físico. Minha filha pratica judô na escola e parece gostar bastante, pois tratei de assistir a seu lado as provas do Judô no Pan e torcer por nossos judocas, mesmo sem entender as regras do esporte.

     Voltando a nossa questão inicial: a que se deve o excelente resultado brasileiro no Pan? Reitero: ao esforço e a disciplina dos nossos atletas. Este é o povo brasileiro: acostumado à superação, à luta pela dignidade, à prática do bom-humor, à competição diária,… Viva o povo brasileiro que com jeito leva a vida, melhor se não precisasse tanto apelar para o jeitinho, se o governo acreditasse mais nele e lhe concedesse condições de um real desenvolvimento intelectual e físico.

     Um dia após o acidente aéreo o Hino Brasileiro não soou na entrega das medalhas aos nossos atletas. A tragédia apagou a alegria, a vitória. Em lugar do Hino havia o silêncio. Pobres esportistas que tanto sonharam em ouvir a sua música…

     Com hino ou sem ele, com toda a glória que merecem, lá estão os representantes mais dignos de nosso país no podium, é isto que devemos lembrar e tratar de levantar nossa moral que anda tão cabisbaixa. E como sou bairrista, registro um aplauso especial aos gaúchos de ouro: Eduardo Deboni (erechinense), João Derly (porto-alegrense), Marcel Stürmer (lajeadense).

Publicado em 26 de julho de 2007, Jornal Bom Dia, p.6

criado por joselmanoal    10:44 — Arquivado em: Crônica

18/7/07

Reciclagem

     No Jornal Bom Dia a doação de órgãos e a reciclagem do lixo foram dois assuntos importantes tratados na edição de sábado, 14 de julho. Já era hora de implementar a coleta reciclável em nossa cidade. E não custa nada separar o lixo!

     Na URI, há algum tempo, foram colocadas lixeiras, a fim de separar organico de inorgânico.

     Parece que agora falta uma conscientização do povo erechinense. Imprescindível que a Secretaria do Meio Ambiente assuma a responsabilidade de informar as pessoas de como funcionará a coleta, através de palestras nas diferentes comunidades e bairros. Um trabalho em parceria com a Secretaria da Educação seria oportuno.

     Incentivar um trabalho nas escolas sobre conscientização ambiental, ensinar as crianças e os adolescentes, com certeza, contribuirá para as famílias adquirirem o hábito de separação do lixo. As pessoas devem entender a importância para o meio ambiente e para a geração de empregos no simples gesto de reciclar e não apenas fazê-lo para respeitar uma norma pública, afinal é muito mais do que isto. É através de uma pequena contribuição ao meio ambiente que se revela um cidadão de verdade.

     Lembro, em Porto Alegre, quando trabalhava como professora municipal, ao ser inaugurada uma escola, o primeiro tema a ser trabalhado por todos os professores das diferentes disciplinas foi justamente a separação do lixo, pois próximo aquele espaço escolar havia um lixão. Por incrível que pareça, o trabalho junto à comunidade escolar garantiu o fim da miscelânea de produtos orgânicos e inorgânicos jogados ali dentro da vila, ao lado das moradias de muitos de nossos alunos.

     Quanto à doação de órgãos deveria ser uma prática comum. Não entendo o porquê do temor e da não aceitação dos erechinenses. A matéria jornalística supracitada identificou como principais motivos para a não doação: desinformação e questões religiosas. Desconhecimento sobre o assunto? Então cabe informar a população!

     Penso nas pessoas em filas de espera por transplantes e não entendo a solidariedade daqueles que dizem não doar por questões religiosas. Incoerente, já que qualquer religião prega o amor ao próximo. A explicação está no egoísmo humano! Se em nossa família ou em nossas relações pessoais há alguém precisando de transplante, levantamos a bandeira da doação de órgãos. Do contrário, não nos diz respeito e os outros que se danem!

     Vale reciclar o nosso lixo e também os nossos conceitos e atitudes!

Publicado em 19 de julho de 2007, Jornal Bom Dia, p. 6

criado por joselmanoal    9:05 — Arquivado em: Crônica

12/7/07

Da valentia de sair do armário

     Em pleno século XXI como pode ainda existir preconceito sobre o homossexualismo? Como pode ainda ser considerado um problema até mesmo uma doença a opção sexual somente por ser menos comum, diferente? O ser sincero na exposição da homossexualidade é capaz de prejudicar o sujeito em suas atividades profissionais, além de fazê-lo passar por constrangimentos e fofocas de baixo nível em nosso país. Muitos homens se casam e vivem em uma relação heterossexual de fachada e, extremamente, infelizes. Deprimente ter uma vida sexual às escondidas, reprimir desejo, viver de mentira… As pessoas nasceram para a felicidade, não para a frustração e para os amores coibidos.

     O meio-campista Richarlyson, 24 anos, do São Paulo Futebol Clube tem sentido na pele o preconceito no meio esportivo. Após uma declaração sobre sua opção homossexual, em uma entrevista em rede de televisão, correm boatos de que seria prejudicado em sua vida como atleta. Como assim? Eu não entendi! Alguém joga melhor ou pior futebol por escolher este ou esta como parceiro/a na cama? Que estupidez! Há heteros e homossexuais em qualquer profissão e não é a escolha sexual que determina a competência profissional de ninguém!

     O que mais me impressionou ao ler uma matéria sobre o assunto denominada "Preconceito no vestuário" na revista Época (2 de julho de 2007, edição 476, p. 98-99) foi a tentativa de desmentir a revelação do jogador. O time exigiu silêncio sobre o assunto. O procurador de Richarlyson (que ameaçou processar o cartola palmeirense por mencionar o nome do cliente) disse conhecer a índole e o caráter de Richarlyson. Minha pergunta é: qual a relação entre a índole, o caráter e a sexualidade do indivíduo? Outra fala assustadoramente preconceituosa veio da boca da própria mãe do jogador ao afirmar à imprensa que o filho não tem esse problema. Problema, minha senhora, seria seu filho viver de mentira! A senhora, como mãe, deveria se orgulhar de seu filho por sua valentia para enfrentar o preconceito!

     E falando em valentia, Frida Kahlo, pintora mexicana, completaria 100 anos em 6 de julho. Principalmente, no México, foram feitas várias comemorações pela data. Frida teve uma história de vida de muita dor e coragem, sofreu um acidente aos 18 anos, enfrentou 33 cirurgias. E na cama, deitada, sem poder mover-se, com um cavalete, uma tela, muitas tintas e um espelho no teto, Frida pintou a si mesma. Da tragédia nasceu uma artista excepcional! Símbolo do feminismo e da liberdade. Foi casada com Diego Rivera, também pintor. Suportou as infidelidades do marido, tendo também ela vários casos amorosos, com parceiros de ambos os sexos. Entre os amantes: Leon Trotski. Não conseguiu ser mãe, talvez sua maior tristeza. Frida envolveu-se politicamente de modo significativo… Após estas pinceladas, deixo a dica do filme Frida para quem quiser emocionar-se com uma história de vida e arte.    

     Meus aplausos para o esporte e para a arte, para Richarlyson e para Frida - duas corajosas figuras que souberam sair do armário!

Publicado em 12 de julho de 2007, Jornal Bom Dia, p.6

criado por joselmanoal    10:54 — Arquivado em: Crônica

4/7/07

Escolas Invadidas

     Escolas saqueadas viraram rotina em nosso estado, principalmente, na capital. A reportagem de Zero Hora (terça-feira, 3 de julho de 2007) revelou o vandalismo sofrido por escolas públicas.

     De um país repleto de políticos corruptos não se podia esperar outra coisa! A que ponto chegamos! Os alunos têm aulas canceladas devido aos arrombamentos. Da lista de roubos constam: merenda escolar, utensílios de cozinha, mimeógrafo (nossa, ainda existe tal objeto!) máquina de xerox, liquidificador, estufa, impressora. Houve até roubo de boletim!

    O depoimento de uma aluna de onze anos da Escola Estadual de Ensino Fundamental Alvarenga Peixoto -única escola na Ilha Grande dos Marinheiros - é um alerta para a sociedade: "Aqui devia ter guarda, cerca elétrica, pitbull. Tem mesmo é que botar a polícia para cuidar da escola".

     A fala da menina faz pensar sobre a segurança pública, sobre a cidadania, sobre a criticidade que a escola se propõe a construir. Parece que a garota aprendeu a emitir sua opinião, soube expressar o seu protesto. O triste está na forma como coloca sua insatisfação: a escola deve ser fechada, gradeada, um ambiente quase carcerário, com policiamento e pitbulls. Os moradores da capital vivem a cada dia mais trancafiados, enquanto os ladrões seguem por aí à solta. Agora, se considerada a sugestão da aluna, as escolas também deixam de ser um espaço aberto ao público para transformar-se em quase prisões.

     O problema da segurança pública no Rio Grande do Sul tem se agravado e me parece que as medidas tomadas ainda não foram suficientes. Não gosto de pensar em escolas com cães e policiais armados e acredito que ninguém aprecie a idéia, até mesmo quem a sugeriu… No entanto, que algo deve ser feito com urgência, isto é indiscutível!

     A voz da aluna parece ecoar como um apelo, um grito por melhoria de qualidade de vida, por segurança, por uma escola que seja um espaço de estudo e de alegria, com direito a comer merenda saudável e a jogar bola no recreio (outro menino lamentou na reportagem da ZH que a escola não empresta mais bola no intervalo aos alunos porque pode por ser roubada) e não um ambiente no qual se tenha que conviver com o medo de enfrentar roubos e saques. A escola deve permanecer como um local tão somente para formar sujeitos críticos e cidadãos!

Publicado em 5 de julho de 2007 nos jornais:  Zero Hora, p. 16 e Bom Dia, p. 6

 

criado por joselmanoal    20:41 — Arquivado em: Crônica
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