Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

21/6/07

AGÁ DOIS Ó

     Para alguns pode ser novidade que o hábito de tomar banho todos os dias não chegou aos brasileiros com os portugueses, herdamos esta preocupação com a higiene dos índios. Com eles aprendemos a nadar nos rios e a gostar de água. Os europeus não têm a mesma relação com a água, o banho não faz parte da rotina, a princípio até temiam os rios, diferente dos índigenas tão íntimos da natureza.

     O Cascão é o símbolo da sujeira no mundo infantil e usado como anti-modelo por uma geração de pais. As crianças simpatizam com o personagem e percebem a importância de adquirir bons hábitos de higiene, afinal ninguém quer ser fedorento como o Cascão. Na pré-adolescência ocorre um momento de rebeldia que afeta, até mesmo, os mais cheirosos. De repente, toma conta do garoto um certo prazer na matação do banho. Muitos ligam o chuveiro e ficam, à distância, contemplando os pingos solitários, tentando burlar uma das regras familiares. Claro que sempre há um pai ou uma mãe que se dá conta da malandragem e passa a invadir o banheiro ou a gritar à porta. Faz parte da vida!

     Não lembro de ter passado por esta fase anti-banho! Recordo, sim, do meu mano que se esquivava, se fazia de esquecido, durante todo o dia, da tarefa de tomar banho. À noite, quando meus pais percebiam a falta de memória do meu irmão, o conduziam ao chuveiro, na marra mesmo! Foi só uma fase, logo passou. E meu mano voltou a ser um menino bem perfumado, vaidoso, quase um metrossexual.

     Com o frio de Erechim entendo o desejo em fugir da ducha… Porém é algo tão importante, tão enraizado em nossas origens que se torna difícil não realizar este compromisso de higiene. O banho, para mim, é um ritual de energia. Adoro chuveiro a gás, banho bem quente e assumo o péssimo costume, ciente dos malefícios para a pele. Banho para mim não é somente obrigação de higiene, é um momento de relax, de pensar na vida, de fazer o ralo engolir os problemas do dia. Adoro sabonetes: líquidos, cremosos, esfoliantes, calmantes, energizantes, hidratantes, afrodisíacos, etc.

     Em Erechim, no verão de 2005, vivemos um aborrecido momento com a seca, com a escassez de água, passamos a viver de banhos cronometrados e tristes. O banho deixou de ser ritual e se transformou em apenas higiene.

     A situação ambiental, em um futuro próximo, é a de que a água será artigo de luxo. E, com certeza, vamos lamentar a ausência de nossos prolongados banhos. Fica a recordação de um tempo em que se podia brincar de mangueira na rua, sem culpa ou dor na consciência. Felizes os que viveram esta época… Que contemos as novas gerações para que se propaguem nossas ternas histórias de brincadeiras com agá dois ó.

     Publicado em 21 de junho de 2007, Jornal Bom Dia, p. 8

criado por joselmanoal    13:34 — Arquivado em: Crônica

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