Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

28/6/07

MARAVILHAS

     Enquanto a gente vota as novas maravilhas do mundo, e na lista de concorrentes consta o nosso Cristo Redendor (não esqueçam de votar: www.votecristo.com.br), o presidente Bush manda sua tropa de soldados ao Iraque para destruir vidas e maravilhas históricas e arquitetônicas. Que barbarismo! Por isto na disputa pelas maravilhas, claro que torço pelo Cristo, mas meu desejo é ainda maior para que ganhe qualquer monumento, exceto a Estátua da Liberdade que representa a escravidão do mundo, em prol da liberdade econômica dos Estados Unidos.

     Os bens culturais devem ser preservados e respeitados, bem como a vida dos seres humanos. Guerra é uma estupidez que faz a gente refletir sobre a função do cérebro humano. Que poder de raciocínio e de inteligência é este do qual se envaidecem os homens?

     A guerra do Iraque completou quatro anos em março. Mais de 9.000 iraquianos morreram vítimas da violência durante os cinco primeiros meses deste ano, segundo um relatório da organização humanitária iraquiana Iraque Sem Violência (ISV) divulgado em 12/06/2007 em Bagdá. Sem contar o número de militares americanos mortos… Sem dúvida: uma carnificina! Bush não tem o apoio de toda a população, inclusive pesquisas já apontaram à baixa em seu índice de popularidade no país, devido à guerra. Menos mal que nem todos os norte-americanos aplaudem a crueldade, a prepotência e a insensatez do presidente.

     Na ocasião do enforcamento de Saddam Hussein, escrevi um texto (quem quiser ler ou reler A corda e o pacote) reprovando o assassinato do ditador, que eu sei estava longe de ser bonzinho, porém vocês devem concordar que de cordeirinho Bush também não tem nada…

     Nesta história de lobos maus, aquele que sobrevive não respeita a vida e o patrimônio cultural da humanidade, que não pertence somente ao Iraque e, sim, ao mundo! Entre as destruições no Museu Arqueológico de Bagdá, muitas peças de valor histórico inestimável. Na semana passada, um ataque ao templo de Al Askari, um dos locais mais sagrados do mundo para os muçulmanos xiitas, na cidade iraquiana de Samarra, colocou o país imediatamente em estado de alerta nacional. Bagdá hoje é uma cidade triste, com monumentos importantes destruídos, além do cheiro da morte pairando no ar… Recebi um e-mail com fotos da capital iraquiana antes da guerra e agora: comovente, chocante, desesperador!

     Infelizmente a vida não é feita só de maravilhas. Ainda bem que nós temos o Cristo Redentor de braços abertos a abençoar o povo brasileiro. Pena que nem todos parecem vê-lo na cidade maravilhosa e nas outras tantas cidades brasileiras…

 

Parabéns a todos os que fazem parte do periódico que conta as histórias de nossa região. O Jornal Bom Dia completa dois anos de trabalho sério e competente no jornalismo de Erechim. Aplausos para todos que contribuem com o Jornal e, principalmente, para você,leitor!

Publicado em 28 de junho de 2007, Jornal Bom Dia, p. 6

criado por joselmanoal    13:26 — Arquivado em: Crônica

21/6/07

AGÁ DOIS Ó

     Para alguns pode ser novidade que o hábito de tomar banho todos os dias não chegou aos brasileiros com os portugueses, herdamos esta preocupação com a higiene dos índios. Com eles aprendemos a nadar nos rios e a gostar de água. Os europeus não têm a mesma relação com a água, o banho não faz parte da rotina, a princípio até temiam os rios, diferente dos índigenas tão íntimos da natureza.

     O Cascão é o símbolo da sujeira no mundo infantil e usado como anti-modelo por uma geração de pais. As crianças simpatizam com o personagem e percebem a importância de adquirir bons hábitos de higiene, afinal ninguém quer ser fedorento como o Cascão. Na pré-adolescência ocorre um momento de rebeldia que afeta, até mesmo, os mais cheirosos. De repente, toma conta do garoto um certo prazer na matação do banho. Muitos ligam o chuveiro e ficam, à distância, contemplando os pingos solitários, tentando burlar uma das regras familiares. Claro que sempre há um pai ou uma mãe que se dá conta da malandragem e passa a invadir o banheiro ou a gritar à porta. Faz parte da vida!

     Não lembro de ter passado por esta fase anti-banho! Recordo, sim, do meu mano que se esquivava, se fazia de esquecido, durante todo o dia, da tarefa de tomar banho. À noite, quando meus pais percebiam a falta de memória do meu irmão, o conduziam ao chuveiro, na marra mesmo! Foi só uma fase, logo passou. E meu mano voltou a ser um menino bem perfumado, vaidoso, quase um metrossexual.

     Com o frio de Erechim entendo o desejo em fugir da ducha… Porém é algo tão importante, tão enraizado em nossas origens que se torna difícil não realizar este compromisso de higiene. O banho, para mim, é um ritual de energia. Adoro chuveiro a gás, banho bem quente e assumo o péssimo costume, ciente dos malefícios para a pele. Banho para mim não é somente obrigação de higiene, é um momento de relax, de pensar na vida, de fazer o ralo engolir os problemas do dia. Adoro sabonetes: líquidos, cremosos, esfoliantes, calmantes, energizantes, hidratantes, afrodisíacos, etc.

     Em Erechim, no verão de 2005, vivemos um aborrecido momento com a seca, com a escassez de água, passamos a viver de banhos cronometrados e tristes. O banho deixou de ser ritual e se transformou em apenas higiene.

     A situação ambiental, em um futuro próximo, é a de que a água será artigo de luxo. E, com certeza, vamos lamentar a ausência de nossos prolongados banhos. Fica a recordação de um tempo em que se podia brincar de mangueira na rua, sem culpa ou dor na consciência. Felizes os que viveram esta época… Que contemos as novas gerações para que se propaguem nossas ternas histórias de brincadeiras com agá dois ó.

     Publicado em 21 de junho de 2007, Jornal Bom Dia, p. 8

criado por joselmanoal    13:34 — Arquivado em: Crônica

14/6/07

Intelecto sem pigmento

     O sistema de cotas para negros implantado em universidades brasileiras é uma prova concreta de preconceito. O acontecimento com os irmãos gêmeos na semana passada na qual um deles foi considerado negro e ingressou na universidade e o outro não, tendo este que entrar com recurso na Justiça por se dizer negro e merecedor da cota como o irmão, renovou o debate sobre o assunto.

    As vagas das universidades públicas deveriam ser destinadas aos candidatos de escolas estaduais e municipais. Defendo cotas para pessoas de baixa renda, independente de raça! Sabemos que ocorre o inverso: muitos dos que estudam em uma universidade federal são os que poderiam pagar uma universidade privada. Já os alunos das universidades privadas com dificuldades financeiras têm de se acotovelar na corrida por bolsas, estágios e monitorias para conquistar o diploma. Devido à competitividade e ao nível de exigência nos exames vestibulares das universidades públicas, são aprovados candidatos com maior conhecimento e bagagem cultural, em sua maioria, provenientes de uma classe social de poder aquisitivo mais alto. Segundo os dados do INEP 83% dos alunos das federais estudaram em escolas públicas, porém em cursos mais disputados como Medicina e Direito este percentual cai e aí está o cerne do problema!

    A idéa do ENEM é boa, mas nem todos a conhecem e sabem como funciona. Muitas Instituições de Ensino Superior (IES) se manifestaram oficialmente pela utilização dos resultados do ENEM nos seus processos de seleção. Algumas reservam vagas aos participantes que obtiverem média maior ou igual a determinada nota; outras, acrescentam pontos à primeira ou à segunda fase; outras, ainda, substituem a nota do vestibular pela nota do ENEM. Alunos concluintes do ensino médio em 2007 ou que já o concluíram podem fazer a prova no dia 26 de agosto. As inscrições estão abertas até o dia 15 de junho e podem ser feitas pela internet: www.enem.inep.gov.br/inscricao. Além disto, o PROUNI é oferecido apenas aos alunos que fizeram o ENEM.

     Com relação às cotas para negros, a capacidade intelectual, cognitiva, emocional não é ditada por cor, portanto trate de estudar e mostrar que é capaz. Se eu fosse negra não me sentiria honrada em iniciar uma graduação entrando por sistema de cotas, gostaria de ingressar em uma universidade por mérito intelectual e não por meu tom de pele. A questão abordada anteriormente: menor condição de acesso à cultura e o menor nível de exigência das escolas públicas (em sua maioria) se comparadas às particulares, estas razões, sim, justificariam a existência de cotas. Não lhes pareceria mais justo que as universidades públicas fossem para alunos oriundos de escolas públicas e as universidades privadas para alunos provenientes de escolas privadas?

     A UFRGS votará na sexta-feira, 15 de junho, o projeto para adoção de cotas raciais e sociais, 10% para negros e 10% para egressos de escolas públicas. Em minha opinião deveria ser destinado 20% a cotas sociais. O ideal, ideal mesmo, seria que as universidades fossem 100% destinada a alunos das escolas públicas, mas…

     Acreditem o intelecto não é pigmentado, se esforcem para ingressar na universidade e lembrem da prova do ENEM. Como diz a canção: "Sorte tem quem acredita nela", mas façam a sua parte também: estudem!

Publicado em 14 de junho de 2007, Jornal Bom Dia, p. 6

criado por joselmanoal    14:04 — Arquivado em: Crônica

6/6/07

Amores despertos

     A notícia do polonês que acordou após 19 anos em coma, motivou a escrita deste texto. Pensem bem: o sujeito foi atropelado e retornou à vida normal depois de cada quase duas décadas! Encontrou um outro país, uma nova constituição familiar, acordou aos 65 anos e avô de 11 netos. Mas, o mais interessante e admirável em toda esta história, é a figura feminina, é a esposa que permanece a mesma forte mulher. E o homem sabiamente reconhece que deve a Gertruda o seu renascimento. Os próprios médicos atribuem a esposa o reviver de Jan Grzebski. O amor ultrapassa as mudanças político-sociais, o nascimento dos netos, a queda do Muro de Berlim, a invenção do celular (que tanto surpreendeu Grzebski) o comunismo ou o capitalismo, a ditadura ou a democracia. Que loucura é esta a que chamamos amor?

     Renato Russo tinha toda a razão ao cantar é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã… Próximo ao dia dos namorados - que, na verdade, não passa de uma data comercial, porque amores nascem e morrem todos os dias em uma velocidade atroz - cabe esta reflexão sobre o amor. Datas cada casal tem as suas: o primeiro encontro, o início do namoro, o noivado, o casamento, o início da vida em comum. Os jantares românticos não devem ser compartilhados tão somente no dia 12 de junho. Devem ocorrer seguidamente, mesmo que nem sempre à luz de velas, com cardápio e bebida nem tão sofisticados, como: fondues e espumantes, pastas e vinhos. Nem sempre em talheres de prata ou em copos de cristal, no entanto sempre momentos únicos. As datas pessoais, aquelas que marcaram a vida de cada casal devem ser mais comemoradas do que um dia instituído a todos os amores. Não me interpretem mal, também comemoro o Dia dos Namorados, porém jamais esqueço as datas de meu amor, as nossas datas.

     Voltando à situação do polonês, também gostaria de hibernar (não precisaria ser por tanto tempo) só para ver se o nosso país permaneceria o mesmo. Deve ser interessante rever o lugar onde vivemos com um olhar de turista. Assim deve se sentir Jan, reencontrando uma terra tão diferente daquela em que nasceu e viveu. Queria ver um Brasil com maior justiça social, sem corrupção e com a mesma alegria e a mesma paixão que encanta o mundo destes todos os tempos. E também queria reencontrar meu amor - seria ele como a Gertruda?

     Um feliz dia dos namorados a todos! Festejem o dia 12 de junho, mas jamais esqueçam as datas especiais de seu amor e aí sim comemorem em dobro…

Publicado em 7 de junho de2007, Jornal Bom Dia, p. 8

criado por joselmanoal    8:36 — Arquivado em: Crônica
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