16/5/07
CASTIDADE EM UM PAÍS SEXUAL
A visita do Papa Bento XVI ao Brasil só me causou mais espanto sobre as idéias do Pontífice. Não entendo como pode alguém que quer falar para o mundo, alguém que ambiciona ser a voz de Deus, revelar-se tão aquém deste mesmo mundo, tão fora da realidade. O Papa vive em seu mundinho dourado do Vaticano e parece nada saber da vida ou nada querer saber sobre ela. A pregação de castidade dentro e fora do casamento é incompreensível (concordo com Paulo Sant’ana em Castidade no casamento? ZH,14/05/07). Será que era esta mesmo a palavra que o Papa desejava proferir?
Castidade - podemos encontrar o verbete em qualquer pequeno dicionário como: abstinência completa dos prazeres sensuais. Como pode? Primeiro o absurdo de conceber a virgindade como condição para o casamento. Depois a reprovação ao uso de métodos anticoncepcionais. Enquanto a Aids se prolifera por aí E agora esta manifestação sobre castidade.
Relaciono sexo a uma necessidade vital, portanto tão necessária aos seres humanos como comer, beber água, etc… Sexo pode estar relacionado a amor. O primeiro talvez exista sem o último, mas aí é assunto para outra oportunidade. Vamos pensar no casamento que é a princípio uma tentativa de unir amor e sexo. Ou estou equivocada? Por acaso alguém escolhe para companheiro um homem ou uma mulher com quem pretenda manter-se casto? Por favor, quanto menos casto, melhor será o casamento, mais chance de perduração terá. Claro aqui considero a fidelidade entre o casal. Todos sabem que não há receitas para o casamento ter final feliz, mas com certeza algo a ser considerado é o saber dosar sexo e amor. E, por favor, nada de castidade! Muitos casamentos seriam desfeitos se o Papa fosse ouvido e levado a sério, mas como sua atuação é restrita, está mais para uma figura decorativa, não deverá ocasionar mais divórcios. Algo que a Igreja reprova também e cujo assunto já foi abordado nesta coluna.
O Papa dirigiu a sua fala a quem mesmo? Aos jovens brasileiros que em sua maioria perdem a virgindade antes dos treze anos. Falar em castidade em um país onde o sexo está por tudo, em outdoors, revistas e televisão é perigoso. No Brasil sexo está por todo lado, somos um país sensual e por que não dizer sexual? E o Papa Bento XVI vem buscar fiéis, aqui, como este discurso? Sou católica e creio em Deus, no entanto não ouço a voz de Deus na de Bento XVI.
Se todos devemos ter muito cuidado com as palavras, mais cuidado ainda deveriam ter as figuras públicas, pois estão todo tempo a ser vigiadas pela imprensa. Todos os pronunciamentos papais se transformaram em manchetes de jornais, portanto levará a alguma discussão e naturalmente a muitas críticas. Espero que os padres brasileiros, após esta visita papal, consigam levar uma nova visão de igreja nas suas comunidades, se aproximem dos fiéis, falem a mesma língua de seu povo e com a voz de um Deus mais amigo e menos punitivo, diferente do que tem feito Bento XVI.
Publicado em 17 de maio de 2007, Jornal Bom Dia, p. 6
criado por joselmanoal
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