31/5/07
Liberdade fragilizada
A decisão do presidente Hugo Chávez na Venezuela de fechamento de um canal privado de televisão - que figurava entre os mais antigos e considerados no país - e abertura de outro estatal em seu lugar revela, não somente o poder de um ditador, como também a impotência e a fragilidade daqueles que não apóiam o seu governo. Em nosso país fala-se tanto em liberdade de expressão, mas só quando acontece algo desta magnitude, em um país próximo ao nosso, é que percebemos mesmo do que se trata…
O rumo venezuelano é incerto e preocupante! Como latino-americana os danos causados por aqui, nas nossas redondezas, me afetam muito mais. Perdoem o egoísmo, não significa uma despreocupação ou descaso com a situação do Iraque e com a loucura de Bush, só que como a distância territorial é maior, centro minha atenção nos governantes malucos que moram ao nosso lado…
Ainda bem que na Venezuela nem todos parecem concordar com Hugo Chávez, daí para conseguir combatê-lo é outro papo. Depois da doença de Fidel Castro parece que Hugo Chávez se vê como substituto do líder cubano. Acredito que o venezuelano ainda tem muito pra trilhar e como diz a piazada: ele tá se achando… Autoconfiantes, narcisistas, é no umbigo do mundo que nascem os ditadores. Não surgem do nada, sempre são idolatrados por alguns, às vezes até pela maioria da população a qual representam. Fidel ainda decora paredes com suas fotos em alguns lares cubanos. Há quem sente saudade dos tempos dos militares no Brasil. Lembram da morte de Pinochet, recentemente, no Chile? Hitler tem um número inacreditável de admiradores até hoje, apesar do holocausto - de toda brutalidade e matança historicamente comprovada.
Se pensarmos em liberdade de expressão, se valorizarmos o termo, se o tomarmos à risca, jamais deveria ser aplaudido qualquer ato que a ferisse, que a comprometesse, que a lesasse, que a excluísse. A liberdade de expressão deveria ser intocável, estar acima de qualquer governo. O povo tem direito a se pronunciar. Calar uma opinião oposta a sua, coibir a discussão, como deseja Hugo Chávez é acovardar-se. Silenciar a crítica é mais fácil que responder a ela, mais simples que se defender e que argumentar.
A liberdade anda fragilizada na Venezuela. Lembram da Libertad - amiga da Mafalda nas histórias em quadrinhos do cartunista argentino Quino? É uma menina bem pequeninha e nada casual a escolha do nome: Libertad. Na Venezuela a menina está ainda mais apequenada. Que os contestadores tenham força, coragem, determinação e consigam gritar todos aqueles que choraram em frente à televisão venezuelana, que entreguem a bengala à menina liberdade, tentem reerguê-la e fazê-la seguir seu curso ora interrompido.
Publicado em 31 de maio de 2007, Jornal Bom Dia, p.6
criado por joselmanoal
13:43 — Arquivado em: 
