Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

26/4/07

O jogo do descontente

Pão quente, manteiga e geléia

     Tenho recebido várias mensagens eletrônicas que professam a mesma idéia com relação à felicidade. Todas colocam o ser feliz entrelaçado ao conformismo. Esta concepção me irrita profundamente e deu origem a este texto.

    Na infância li Poliana Menina e Poliana Moça e, com certeza, não presentearei jamais alguém com estas obras. A mensagem dos livros é a de uma felicidade baseada no Jogo do Contente, exercício diário praticado pela protagonista que, ao viver as maiores desgraças, em tudo via algo positivo. Uma lição de otimismo irritante e falso!

     Muitos fazem da frase Deus quis assim… seu lema de vida. Que horror! Me escandalizo diante de tanta acomodação! E ainda usar o nome de Deus para justificar sua falta de perspectivas! Jesus Cristo - o maior personagem histórico de todos os tempos - era um inconformado, pregou uma vida de luta, e não de aceitação às desgraças. Era um lutador contumaz. Sua morte pode ser considerada um gesto de valentia e de luta.

     Há alguns dias li uma entrevista, na qual vários brasileiros afirmaram ser felizes. A felicidade aí também vinculada ao estar satisfeito com a vida (afinal sempre existe alguém em pior situação que a nossa!). O grande problema do povo brasileiro é este: conformismo. O que move o ser humano, em minha opinião é o inconformismo, o não se contentar com migalhas, o buscar o pão quente e com manteiga (se possível até com geléia). A ambição mantém as pessoas vivas. O desejo de ir além, de se superar a cada dia, é o que torna alguém feliz.

     Ter objetivos faz com que nos sintamos vivos. Contentar-se com a vida como está e nada fazer para melhorá-la é uma maneira de morrer lentamente… E há inúmeros brasileiros agradecendo a Deus pelo que têm e nada fazendo para atingir algo mais. Os sonhos podem ser modestos, mas devem existir na vida de todos. Do contrário não estamos vivendo, apenas fingindo viver.

     Limitar-se a dizer sou feliz para contentar o mundo, para prestar uma conta À sociedade, não vale de nada! Buscar a felicidade a cada minuto, saber viver a essência, exercitar-se até o limite, é imprescindível ao ser humano. Superação deveria ser o nosso lema!

     Todo o meu respeito aos admiradores de Poliana, no entanto eu prefiro o Jogo do Descontente, pois me conduz a caminhos novos, a fuga da rotina e a busca pelo ser feliz. Viver é aventurar-se e não sentar na cadeira de balanço e contemplar a vida como mero figurante. Eu quero ser protagonista! E, por favor, não me enviem mensagens eletronicas mostrando a infelicidade alheia, para que eu possa me sentir feliz. Comigo não funciona!!!

Publicado em 26 de abril de 2007, Jornal Bom Dia, p. 6

criado por joselmanoal    14:21 — Arquivado em: Crônica

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