Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

29/3/07

O millésimo gol do Romário e o pódio do Lewis

     Aprendi a admirar Romário, não como jogador, mas como gente por seu amor e por sua luta contra o preconceito desde que nasceu sua filha com síndrome de Down. Como jogador é indiscutível o seu talento, no entanto é como homem que o considero ainda mais especial. No Senado deu um show na última semana ao falar que a criança Down é toda bondade, diferentes são os ditos normais a comandar guerras e chacinas. Brilhante! Aplausos para Romário! Ficamos na torcida pelo milésimo gol, representativo na carreira de um esportista sempre a traçar novos desafios. Um exemplo de alguém que não parou e se aposentará com dignidade. Romário recebeu muitas críticas, ao longo de sua carreira, por postura, comportamento, etc. Porém como pai se mostrou o mais belo dos homens e é isto que deve ficar registrado! Cá entre nós: quem não gosta de uma noitada? Tudo bem há a concentração, porém vamos pegar leve, afinal no momento em que ele precisou mostrar-se homem e pai, o fez com a mesma maestria e habilidade conhecidas, até então, apenas no futebol! Eu virei fã e fico na maior torcida pelo gol 1000!

     Outra figura para se admirar é Lewis Hamilton, 22 anos, primeiro negro da história da Fórmula 1, que subiu ao pódio como terceiro lugar em sua primeira corrida. A história de Lewis e o apoio de sua família mereceram a vitória. A determinação de um garoto que dirigiu pela primeira vez aos sete anos (em um kart emprestado de um menino de condição financeira muito superior a sua), quebrou o nariz e apaixonou-se pelo esporte. O fato de não pertencer à elite, não o desmotivou, muitos em seu lugar teriam desistido. Em 1995, em uma entrega de prêmios de kart, incentivado por seu pai, Lewis pediu um autógrafo a Ron Dennis da McLaren, aproveitou para pedir também um espaço para correr na escuderia. Desde então Ron Dennis acompanha a carreira de Lewis e em 1998 o contratou para uma escola de pilotos da Mc Laren. E logo vieram os títulos: campeonato europeu e mundial de kart, fórmula européia, GP2. Chegou na fórmula 1 em novembro e de primeira já chegou ao pódio. O garoto vai longe…

     Mais do que vitórias Romário e Lewis são exemplos de vida, de saber levantar a bandeira contra o preconceito. Não são vencedores apenas porque são famosos, mas porque souberam buscar seu espaço profissional. Quantos não se acomodam em uma vida medíocre e infeliz? Eles sabiam o que buscavam. A determinação e o talento os conduziram ao sucesso. Nós ficamos aqui a aplaudir e pensar se somos também tão lutadores quanto estes ídolos esportistas…

Publicado em 25 de março de 2007, Jornal Bom Dia, p.6

criado por joselmanoal    11:21 — Arquivado em: Crônica

21/3/07

A ARTE CLAMA POR ESPAÇO NO PAÍS DO FUTEBOL

     Em nosso país convivemos com a supremacia do futebol e o rebaixamento da arte. Estou falando em arte e não necessariamente em ingressar na Rede Globo, porque nem todos que ali adentram são artistas. Vide Malhação e BBB. Há gente de talento, sem dúvida, atuando em programas televisivos, mas me refiro às pessoas que desejam viver de arte e que ainda não constam na lista de celebridades da mídia nacional. Aqueles que optam por: música, teatro, cinema, escultura, pintura, dança, literatura, tem que rebolar para sobreviver. Aprendemos a rebolar, então, porque se há uma qualidade indiscutível do povo brasileiro é a criatividade que está na arte e na vida.

     Digo isto porque vejo o quanto cobra um global e até mesmo o Felipão (já que mencionei antes o Futebol) para proferir uma palestra e o quanto se remunera um grupo de teatro para uma encenação. Muitas vezes a palestra não teve um décimo do planejamento, do número de ensaios e da quantidade de suor exalado pelo pessoal do teatro. E porque ditam valores tão extremos?

     Confesso que não entendo o apequenamento da arte e a supervalorização, seja do futebol ou da mídia! Que raio de sociedade é esta a nossa que não aplaude os seus artistas? Quantos bailarinos saem de nosso país para brilhar em palcos internacionais? Que tristeza - nós nem sequer sabemos seus nomes… Sabemos sim das top models, porque fazem parte da mídia formada pela indústria da beleza.

     Alguns escritores brasileiros encontram um maior público leitor fora de nosso país. O brasileiro, de um modo geral, lê best seller (quando lê), mesmo que, muitas vezes, se trate de uma história imbecil e lugar-comum. O leitor brasileiro chega na livraria, agarra o livro de auto-ajuda, repetitivo e sem graça, com o selo de best seller (normalmente um enlatado americano), enquanto os belos textos nacionais (em prosa e verso) esperam sua vez nas prateleiras.

     Há cantores e compositores brasileiros que só descobrimos na lista dos concorrentes ao Grammy (o Oscar da música). Não é um absurdo? Pior é estar ciente de que o absurdo é real! Amo meu país, no entanto me envergonho de minha condição de brasileira quando penso nos nossos artistas que têm que mendigar para sobreviver de arte. E ao mesmo tempo, me orgulho de ser brasileira toda vez que lembro que em nosso país já nasceram talentos capazes de emocionar o mundo e muitos continuam a brilhar, apesar da dificuldade em encontrar um palco decente…

     Como difundir a arte em um país que fecha os olhos diante de tantos talentos? Uma nova política cultural no Brasil faz-se urgente! Aliás não só na cultura, sei que na educação, na saúde e na segurança pública é urgentíssima também. Falo em cultura por ser a temática escolhida em meu texto. Arte clama por espaço no país do futebol - quem tem ouvidos para ouvir, ouça!

Publicado em 22 de março de 2007, Jornal Bom Dia, p.7

criado por joselmanoal    10:15 — Arquivado em: Crônica

14/3/07

O preconceito pintado de discrepância

     Temos a imbecil mania de rotular as pessoas e imaginar discrepâncias onde não há! Mulher ou é bonita ou é inteligente - como se fossem dois adjetivos impossíveis de estar lado a lado, caracterizando o sexo feminino. Tá certo que algumas mulheres erguem mesmo esta bandeira! Há, sem dúvida, as intelectuais feias, porque assim o desejam. E há, lamento concordar, as que não exercitam tanto o cérebro…

     Carol Teixeira é o que se poderia chamar, dentro de uma ótica preconceituosa, de uma incoerência: escritora, proprietária de um bar noturno em Porto Alegre, manequim. Tantas profissões, tão diversificadas e me parece que ela dá conta da diversidade…

     No Caderno de Cultura da Zero Hora do último sábado (10/03/07) o filósofo Luc Ferry (ex-ministro francês de educação) em uma entrevista reafirmou a existência de uma filosofia leiga, ou seja, não religiosa, como diz em seu livro O homem Deus ou O sentido da Vida -lançamento no Brasil. Mais uma incongruência? Às vezes tentamos entender os casais e quantas vezes não nos perguntamos: como pode o fulaninho tão legal conviver tantos anos com a fulaninha tão chata (ou o contrário)? A completude ou a similaridade garantem o melhor resultado na vida a dois?

     Estamos sempre atrás da formação de duplas perfeitas: arroz com feijão, café com leite, queijo e goiabada, cerveja e batata frita, etc. O que não significa que não possamos distorcer as duplas e formar outras! Eu, por exemplo, aprendi a comer churrasco com cuca - o que em Porto Alegre pode parecer uma discrepância, é, na verdade, uma delícia!  

     Tenho horror de preconceito, seja ele qual for, luto quanto a qualquer um que tente se abater contra mim! No entanto, penso que Erechim pode melhorar na luta contra prejulgamentos e desejo com este texto provocar alguma reflexão a respeito. Me desculpem, leitores erechinenses, mas a verdade é que há sérios preconceitos circulando por aí. O primeiro a ser destacado é contra os forasteiros, ou seja os não nascidos na cidade em que vivem (podem ter certeza os que optam por viver em Erechim desejam o progresso da cidade e querem contribuir para isto!) Outra séria prenoção é quanto ao gênero masculino e feminino. Há uma forte divisão entre os sexos, que pode ser facilmente percebida, basta abrir os olhos e querer enxergar…

     Espero que, com o tempo, a gente não denomine de discrepâncias os nossos preconceitos, que sejamos mais abertos, condescendentes, tolerantes e, assim, possamos entender melhor o mundo. Casais heterossexuais e/ou homossexuais, mulheres inteligentes e bonitas, filosofia e/ou religião, cidadãos conterrâneos ou não, churrasco - com ou sem cuca - e quem sabe, política sem a companhia da palavra corrupção?

Publicado em 15 de março de 2007, Jornal Bom Dia, p. 8

criado por joselmanoal    14:51 — Arquivado em: Crônica

7/3/07

Mulheres incompreendidas

     No Dia Internacional da Mulher quero parabenizar as meninas e consolar os meninos e dizer-lhes que nem se preocupem em nos entender, gastem o seu precioso tempo em nos amar. Na verdade, garotos, as mulheres são incompreensíveis mesmo, portanto se esforcem em nos amar. E para nós: assim fica ótimo!

     As mulheres mudaram muito e com estas transformações o sexo masculino também se obrigou a sofrer algumas mudanças. Cumpriram bem o seu papel, mas ainda devem melhorar um pouquinho… Nós, meninas, andamos obcecadas com palavras que demoraram um pouco a compor o nosso vocabulário: independência, ascensão e carreira profissional. Porém sem esquecer vocábulos do mundo feminino que nos acompanham de outras gerações: casa, marido e filhos. Acumulamos tarefas, quase enlouquecemos, mas superamos porque somos donas de uma força gigantesca, carregamos o mundo e nem sabemos muito bem como.

      E no que devem melhorar os meninos mesmo? O negócio é o seguinte: esta mulherada que hoje faz mil coisas - às vezes cansa, tem enxaqueca (de verdade!), sofre com TPM, tem uma chefia que lhe faz mil cobranças e os filhos que lhe exigem atenção - quer tão somente carinho. E você, companheiro desta mulher, o que faz? A quer sempre bela e sorridente. Nem sempre é possível! A gente se esforç… Então, vocês do sexo masculino, devem saber o momento em que precisamos de colo, devem perceber sozinhos porque a gente não vai falar, não vai mesmo! Fiquem mais espertinhos para perceber nossa carência, nosso dia de querer cafuné; e aprendam a nos carregar no colo até a nossa cama e tenho certeza: não irão arrepender-se da noite por vir…

     As mulheres sejam elas: empresárias, donas-de-casa, professoras, dentistas, secretárias, faxineiras, todas, independente de sua atuação profissional querem mesmo é isto: carinho de seus companheiros (compreensão não precisa!). Aproveitem a data para felicitar aquela com quem compartilham seus momentos. Ser mulher não é fácil não! Temos nossas loucuras e também nossas maravilhas. Querem um prodígio maior do que gerar? Carregar um filho na barriga é fantástico. Assumir filhos que não saíram de nossa barriga também! A mulher é uma plenitude de amor, basta saber lidar com este ser tão precioso… Como já disse no início do texto, repito aos garotos (aliás, as mulheres adoram repetir!): não tentem entender as mulheres, basta amá-las! E para as meninas: um carinhoso parabéns pelo nosso dia, afinal a gente merece!

Publicado em 8 de março de 2007, Jornal Bom Dia, p. 6

criado por joselmanoal    16:56 — Arquivado em: Crônica
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