Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

21/2/07

Objetos lembranças valiosas

     Alguns objetos adquirem um significado majestoso para seus proprietários. Recordo bem a dificuldade de meu pai em vender um carro ano 1973, quando já possuía outros automóveis (mais modernos e de tons mais discretos que o ocre marajó) passados mais de vinte anos de uso da alaranjada Variant. O encantamento é fácil de explicar: a paixão pelo primeiro carro zero!

     Hoje entendo melhor o apego ao material, arrumando armários e gavetas nas férias, compreendo melhor meu pai, claro não guardo nenhuma Variant, no entanto tenho papéis antigos com desenhos infantis, cartas amareladas, roupinhas de bebê de minha filha, o tip top da saída do hospital, o primeiro brinquedo que conseguiu segurar sozinha, o primeiro livro, etc. Teria mais espaço livre em meus armários se aprendesse a jogar fora algumas recordações, porém não o faço, afinal não ocupam tanto lugar quanto um carro na garagem…

     Imagine se você tivesse de abandonar a sua residência em poucos minutos, devido a grave; ameaça de terremoto, bomba, sei lá qualquer horror destes que a gente vê na ficção e não deseja vivenciar na vida real, e só pudesse carregar alguns objetos: o que você levaria? Pergunta boba capaz de revelar muito sobre quem somos.

      Em minha infância a casa de minha família foi assaltada quando estávamos na praia, lembro que me senti aliviada por estar usando os brincos de rubi (com os quais havia furado as orelhas quando bebê) e por isto não foram roubados, já minha irmã não teve a mesma sorte e acredito que hoje sinta falta dos brincos infantis por seu valor estimativo. Não me imagino sem meu anel solitário, presente de meu avô paterno aos quinze anos (óbvio). Não pelo valor material (que nem deve ser tanto!), mas pela maneira que encontrei de permanecer de mãos dadas com aquele que por muitos anos, assim de mãos dadas, me acompanhou à escola, falando pouco e sorrindo muito.

     Cada vez valorizo mais as fotografias (ainda não aderi as digitais), adoro folhear álbuns: rever amigos, colegas e familiares, relembrar momentos funciona como máquina do tempo a revisitar o passado. Arrumar armários e gavetas é arte complexa de selecionar o que deve permanecer no espaço e na lembrança. Aprender a fazê-lo é um exercício no qual eu devo permanecer em aprimoramento…

     E nada mais divertido que reler cartas de amor antigas, todas são ridiculamente divertidas, não é mesmo? Como disse Fernando Pessoa em Cartas de Amor:"(…) As cartas de amor, se há amor, / têm de ser ridículas.

     Portanto, leitores, permaneçam guardando suas lembranças e, até mesmo, as cartas de amor que em um dia comovem e no outro causam graça…

Publicado em 22 de fevereiro de 2006, Jornal Bom Dia, p.6

criado por joselmanoal    18:02 — Arquivado em: Crônica

1 Comentário »

  1. Comentário por josi — 26 26UTC fevereiro 26UTC 2007 @ 11:33

    Joselma,
    É bem verdade…Ainda sinto pesar pelos meus brincos de rubi…Mas não da variant…Bjs.

Deixe um comentário

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://joselmanoal.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.