9/1/07
O FASCÍNIO DO MUNDO
Como sou uma cidadã; comum, trabalhadora em um país terceiro-mundista, não posso me dar ao luxo de mais de trinta dias de férias ao ano, não recebo um salário milionário e, portanto, não posso visitar e conhecer todos os lugares que gostaria (mesmo em vôo charter em classe econômica e hospedagens em albergues). Assim justifico a minha paixão por revistas de viagem: falta de tempo e de dinheiro.
Agora ando faceira lendo A fantástica volta ao mundo do jornalista global Zeca Camargo. O livro escrito em uma linguagem simples, quase modesta, trata-se somente de relatos de viagem. O que afinal há de tão especial nisto? A noção de pequenez que falta ao ser humano!
Explico melhor: cada um pensa só no seu umbigo e enxerga o mundo miudinho. O livro parece uma lente de aumento que vai mostrando ao leitor, com vagar,cada pedacinho do globo… Fascinante! Este é o adjetivo usado por Zeca ao descrever a viagem. Concordo e assino embaixo: o mundo é fascinante! Lástima que muitos não queiram sair do seu mundinho e conhecer a vida lá fora: assistam Big Brother Brasil, leiam livrinhos de auto-ajuda e comprem uma felicidade de engodo.
No filme Lugares Comunes o protagonista professor diz em sua última aula, (antes da aposentadoria) que sua função como educador é despertar no aluno a dor da lucidez. É o conhecimento pode ferir. A ignorância é o caminho mais fácil e menos doloroso. Lendo o roteiro de viagem de Zeca Camargo, penso o quanto é importante tirar a venda dos olhos. Não me refiro à filosofia, à psicanálise, à literatura, que o fazem de modo mais complexo e profundo. Me refiro a um roteiro de viagens, algo simples e pé no chão, sem divagações e magias nada semelhante a Paulo Coelho, muito melhor, inclusive.
Muralhas, montanhas, ruínas, complexos arqueológicos, curandeiros, monges, mendigos, lagos, rios, mares, templos, igrejas, catedrais, ritmos, danças, músicas, souvenirs,idiomas, etc, compõe a singela e interessante descrição dos diários de viagem.
Estar ciente da existência de lugares no mundo que convivem com a escassez de água, em que elefantes são meios de transporte, que existem temperos e frutas dos quais nunca ouvimos falar, enfim, um acúmulo de informações que aproximam a cultura do outro e nos fazem ver a própria cultura com outros olhos e aprender a respeitar a cultura do outro. Contemplar o outro é o que nos falta - aqui dito em sentido amplo, nada a ver com o Big Brother Brasil que inicia esta semana. E por favor: investigue o mundo além de sua janela, nada de perder tempo na frente da telinha observando uma mansão repleta de gurizada sarada. Nada contra gente jovem e bonita, mas vai ver gente de verdade, vai conhecer o mundo (fascinante, com certeza). Sai da toca! Vai viver!
Publicado em 11 de janeiro de 2007, Jornal Dia, p. 14
criado por joselmanoal
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