Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

24/1/07

Heroínas ou assassinas

     Semana passada a notícia de um bebê de dois meses, em Belo Horizonte, jogado na Lagoa Pampulha pela própria mãe (condenada a tão somente oito anos de prisão). Esta semana uma mãe salva o filho de sete anos em um poço de quatro metros de profundidade no bairro São José em Franca São Paulo. O que aproxima as duas mulheres? Ambas podem ser chamadas de mãe.

     Mães são assim mesmo heroínas ou assassinas. Nem sempre no sentido literal como nos exemplos anteriores, mas no dia-a-dia mesmo. Ás vezes temos que ouvir as malditas comparações, a famosa frase: a mãe da fulaninha deixa, ela é legal. Só tu que não me deixa…, etc. Assassinar desejos, nem sempre coerentes com a faixa etária e a maturidade dos filhos, faz parte da difícil tarefa de educar. Mas aí a jogar um bebê em uma lagoa. Aí não, aí é demência ou maldade. Não sei, os psiquiatras devem avaliar. Para pessoas consideradas normais parece incompreensível: a mulher gera e depois mata uma parte sua. Verdade repetida e até clichê que filho é um pedaço da mãe. Dizem as que sofreram a perda de um filho que tal fatalidade causa uma dor física, como se realmente faltasse uma perna, um braço, …

     Voltando a mãe heroína - esta que não causou polêmica e teve o rosto estampado em apenas uma pequena nota no jornal, diferente da outra (a assassina) que foi tema de vários dias na imprensa. A repercussão das duas notícias revela que a mídia sempre reserva um maior espaço à barbárie que à redenção. Talvez a barbárie esteja mais na moda…

     Prefiro falar da redenção! Da coragem que impulsiona uma mãe, que faz com que ela se jogue em um reservatóio de uma obra em construção, repleto de vigas para abraçar o seu filho. Lembro de uma outra reportagem das mães que lutam contra o vício dos filhos: uma, inclusive, chegou a amarrá-lo na cama para que não buscasse crack. Na revista Época (15 de janeiro de 2007) há uma matéria denominada Uma colherada de cada vez - relato de outra lutadora americana na busca de salvar a filha da anorexia: calculando calorias, buscando receitas e alimentando a menina, como o fez quando a amamentou. Comovente o amor visceral! Perdoem expressão comum, mas não encontro melhor forma para definir o heroísmo destas mães do que amor visceral.

     Lamento que nem sempre o assunto do momento seja a beleza do amor visceral, mas a crueldade, a barbárie, a violência. Afinal a maldade tem dominado o mundo há muito… Ainda bem que existem o veraneio, as férias, a família, o convívio entre amores e amigos para salvar a vida, nos conduzir à redenção e nos livrar da barbárie!

Publicado em 25 de janeiro de 2007, Jornal Bom Dia, p.6

criado por joselmanoal    21:53 — Arquivado em: Crônica

17/1/07

POBRES FIÉIS

     A Igreja Renascer é uma empresa bem sucedida. Os fundadores (o casal Hernandes) são proprietário de uma emissora de televisão, uma gravadora, uma produtora de cds e shows, uma editora, uma loja de confecções, quatro apartamentos, duas fazendas, um haras em São Paulo e uma mansão na Florida. A bispa Sônia é cliente da Daslu (uma das lojas mais caras do Brasil) e o apóstolo Estevam coleciona relógios de luxo e carros importados. Quanto desprendimento material, não é mesmo?

      Me surpreende e entristece verificar o grandioso número de fiéis desta falcatrua religiosa. Pobre gente que acredita em Deus e, em nome desta crença põe dinheiro na mão de safados.  

     Mesmo após prisão do casal Hernandes (Sônia e Estevam), em Miami, no dia 19/01 com US$ 56.467 (não declarados), os discípulos da Igreja Renascer continuam a defender os canastrões e ainda culpam o Diabo e acusam as forças do mal como responsáveis por uma perseguição, uma injustiça com a dupla religiosa. Ingênuos fiéis, incapazes de enxergar um palmo &à frente de seu nariz. A ingenuidade aí beira a burrice, a ignorância mais absoluta. É o resultado da fórmula mágica de lavagem cerebral utilizada nestas religiões. Mais que um pecado, um crime.

     O apego dos devotos a estas falsas igrejas se dá pelo desespero do ser humano por acreditar em algo. Sempre pensei que o problema do mundo fosse a falta de fé. Hoje penso que o problema do mundo é, justamente, o excesso da fé;! A fé em qualquer um, em qualquer coisa! Fundar uma igreja tornou-se negócio lucrativo, uma excelente alternativa empresarial. Basta ter um discurso convincente, um grupo musical, uma salinha ou uma garagem (que logo será um majestoso templo) e um espírito empreendedor, criminoso e canalha. O sucesso é certo, garantido. Junte-se a um grupo de cretinos e mãos a obra! Só tenha cuidado ao carregar o dinheiro para o exterior. A estratégia dos Hernandes não funcionou…

     A Renascer iniciou em 1986, em São Paulo na sala de jantar dos Hernandes. Hoje já tem 1200 templos no Brasil e no exterior. Uma invejável trajetória de sucesso! Uma pena que calcada em mentira e crueldade. O que fazem estas lideranças religiosas é muito pior, muito mais sério e muito mais criminoso que assaltar um banco. Pobres fiéis!

    Enriquecimento ilícito, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, dívidas, falsificação de documentos, títulos protestados são os processos contra o apóstolo Estevam Hernandes e a bispa Sônia Hernandes. Espero que a justiça seja feita contra os caloteiros da fé.

Publicado em 18 de janeiro de 2007, Jornal Bom Dia, p. 6

criado por joselmanoal    16:02 — Arquivado em: Crônica

9/1/07

O FASCÍNIO DO MUNDO

      Como sou uma cidadã; comum, trabalhadora em um país terceiro-mundista, não posso me dar ao luxo de mais de trinta dias de férias ao ano, não recebo um salário milionário e, portanto, não posso visitar e conhecer todos os lugares que gostaria (mesmo em vôo charter em classe econômica e hospedagens em albergues). Assim justifico a minha paixão por revistas de viagem: falta de tempo e de dinheiro.

     Agora ando faceira lendo A fantástica volta ao mundo do jornalista global Zeca Camargo. O livro escrito em uma linguagem simples, quase modesta, trata-se somente de relatos de viagem. O que afinal há de tão especial nisto? A noção de pequenez que falta ao ser humano!

     Explico melhor: cada um pensa só no seu umbigo e enxerga o mundo miudinho. O livro parece uma lente de aumento que vai mostrando ao leitor, com vagar,cada pedacinho do globo… Fascinante! Este é o adjetivo usado por Zeca ao descrever a viagem. Concordo e assino embaixo: o mundo é fascinante! Lástima que muitos não queiram sair do seu mundinho e conhecer a vida lá fora: assistam Big Brother Brasil, leiam livrinhos de auto-ajuda e comprem uma felicidade de engodo.

     No filme Lugares Comunes o protagonista professor diz em sua última aula, (antes da aposentadoria) que sua função como educador é despertar no aluno a dor da lucidez. É o conhecimento pode ferir. A ignorância é o caminho mais fácil e menos doloroso. Lendo o roteiro de viagem de Zeca Camargo, penso o quanto é importante tirar a venda dos olhos. Não me refiro à filosofia, à psicanálise, à literatura, que o fazem de modo mais complexo e profundo. Me refiro a um roteiro de viagens, algo simples e pé no chão, sem divagações e magias nada semelhante a Paulo Coelho, muito melhor, inclusive.

     Muralhas, montanhas, ruínas, complexos arqueológicos, curandeiros, monges, mendigos, lagos, rios, mares, templos, igrejas, catedrais, ritmos, danças, músicas, souvenirs,idiomas, etc, compõe a singela e interessante descrição dos diários de viagem.

      Estar ciente da existência de lugares no mundo que convivem com a escassez de água, em que elefantes são meios de transporte, que existem temperos e frutas dos quais nunca ouvimos falar, enfim, um acúmulo de informações que aproximam a cultura do outro e nos fazem ver a própria cultura com outros olhos e aprender a respeitar a cultura do outro. Contemplar o outro é o que nos falta - aqui dito em sentido amplo, nada a ver com o Big Brother Brasil que inicia esta semana. E por favor: investigue o mundo além de sua janela, nada de perder tempo na frente da telinha observando uma mansão repleta de gurizada sarada. Nada contra gente jovem e bonita, mas vai ver gente de verdade, vai conhecer o mundo (fascinante, com certeza). Sai da toca! Vai viver!

Publicado em 11 de janeiro de 2007, Jornal Dia, p. 14

criado por joselmanoal    16:08 — Arquivado em: Crônica

3/1/07

A corda e o pacote

       O ano de 2007 iniciou com dois acontecimentos que desejo comentar neste texto: o enforcamento de Saddam Hussein e a tentativa desastrosa (ainda bem!) do pacote econômico proposto pela governadora do estado do Rio Grande do Sul.

      Temos de reconhecer que o ditador Saddam Hussein não é o único que deveria ser enforcado. O presidente George Bush não é menos cruel do que foi Saddam. Interessante lembrar que o armamento bélico iraquiano veio da potência econômica norte-americana. Portanto, os mesmos Estados Unidos que alimentaram Saddam, o mandaram matar. Há um ditado espanhol que diz o seguinte: Cría cuervos y te sacarán los ojos / Cria corvos e lhe arrancarão os olhos, pois foi o que aconteceu: o corvo começou a crescer e quase arrancou os olhos do Tio Sam, que não apreciou nem um pouquinho a idéia. Agora, após o enforcamento, é possível que Saddam se transforme em mito, em mártir. Concordo com o nosso Ministro das Relações Exteriores de que a execução de Saddam Hussein não vai contribuir para a pacificação do Iraque.

       Sou contrária à pena de morte e considero atroz a invasão de privacidade, por meio da filmagem, feita por um celular, da morte de Saddam. Por favor: não me enviem por e-mail, porque eu não quero assistir. Odeio barbarismo! Na televisão apareceu um pouco (para mim já foi muito): a corda e o rosto. O homem não quis ocultar a face, cobri-la com um pano. Diferente do líder americano que esconde o medo apoiado à valentia ou à ingenuidade patriótica de jovens soldados.

       Saindo do drama Iraque X Estados Unidos, que já causou tantas mortes, e conduzirá milhares de outras… Vamos a algo mais próximo: ao nosso Rio Grande do Sul nas mãos de Yeda Crusius, que começou mal: prepotente, arrogante e falsa. Promessas feitas em campanha foram esquecidas pela governadora. Uma vergonha! Ainda bem que não foi aprovado o pacote! Agradeço e aplaudo de pé os nossos vinte e oito deputados sensatos que disseram não a este desrespeito para com os gaúchos. E quanto aos demais vinte e quatro deputados que votaram a favor? Estes merecem vaias, muitas vaias!!! Importante lembrar quem são estas figuras para merecer ou não o nosso voto em uma próxima eleição! Aumentar impostos? Nós que já pagamos as maiores taxas do país! Bacana a presença de sindicalistas, empresários e servidores a comemorar na Assembléia a rejeição ao pacote.

       Espero que não haja mais execuções, nem tentativas de aumento de impostos em 2007, que os pacotes sejam de presente e as cordas, apenas, para as crianças pularem nas ruas. E viva o novo ano!!!

Publicado em 4 de janeiro de 2007, Jornal Bom Dia, p. 6

criado por joselmanoal    15:35 — Arquivado em: Crônica
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