Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

28/12/06

ANO NOVO

 

            Sempre que termina um ano as pessoas vivem um momento de retrospectiva, uma espécie de avaliação do seu desempenho, de sua performance em 365 dias. E logo vem a expectativa, a esperança e a lista de objetivos para o ano que virá. Os projetos podem ser singelos ou profundos e com certeza você já está mentalmente enumerando seus planos para 2007…

         Claro que assistimos e lemos as retrospectivas do ano na economia, na política, nas ciências, nas artes, em todos os âmbitos no Brasil e no mundo. E também nos interamos das previsões para os dias seguintes. Verificamos sobre o Reveillon: a cor que devemos vestir, o que devemos comer e beber, como devemos arrumar a mesa para a ceia, enfim…

      No entanto, hoje vamos pensar em nós mesmos, já que não estaremos na retrospectiva 2006… Ali só estarão celebridades e se não fazemos parte da mídia, se não somos famosos, vamos nos permitir um pouquinho de egoísmo. Pensemos, portanto, na individualidade, até porque as notícias no Brasil e no mundo não são as melhores. Mas na nossa vidinha em 2006, muita coisa legal pode ter acontecido, coisinhas modestas, mas que fizeram, fazem e farão pessoas normais felizes: nascimento, aniversário, viagem, passeio, descoberta ou preservação do amor, mudança de cidade, leituras inesquecíveis, amigos, encontros e festas com gente divertida, brindes, beijos e abraços de verdade.

        Guardo o ano de 2006 com carinho, muita coisa boa aconteceu e uma delas é este espaço chamado Crônicas no jornal Bom Dia: a conquista de leitores, os elogios bacanas que escutei. Dois mil e seis fica como uma data importante, também, porque minha filha está aprendendo a ler e a escrever e tem sido especial assistir os passos da Sophia por este fascinante mundo das letras.

        Em 2007 espero lembrar a lição que aprendi com um filme: permitir-me um pouco da travessura, da alegria de Elsa, personagem de Elsa & Fred que é uma obra prima sobre o amor e a alegria de viver.

      Desejo a todos: um excelente ano em termos pessoais. Do Rio Grande do Sul, do Brasil, da América Latina, do Mundo, do Planeta Terra - não sei se devo esperar muito… Sugiro que cada um tente desempenhar o seu papel da melhor forma, trabalhar com dignidade (mesmo que nossos governantes não tenham atuado deste modo). Família unida, saúde em plena forma, amores correspondidos, enfim tudo em sua mais perfeita ordem… E se não puder ser tudo assim tão novela global, espero que a gente aprenda a dançar, conforme a música e tente conduzir a vida sem desespero.

      Fé na vida e feliz 2007!

Publicado em 28 de dezembro de 2006, Jornal Bom Dia, p. 14

criado por joselmanoal    9:49 — Arquivado em: Crônica

19/12/06

O Natal na Sociedade Moderna

No Caderno de Cultura de Zero Hora (sábado, 9/12/06) o filósofo francês Gilles Lipovetsky, que esteve em Porto Alegre, participando de um evento na PUCRS, fez uma declaração sobre a sociedade atual de fazer pensar: “Nas sociedades antigas, havia a reza. Hoje temos os shoppings”. Esta reflexão conduz o texto, escrito às vésperas do Natal. 

A maior festa religiosa é também, ou principalmente, a de maior consumo. O que deveria ser espiritual, tornou-se puro comércio. Grande parte das famílias nem sequer lembram de Jesus Cristo algum, só tem em mente os pacotes enfeitados, os laçarotes coloridos, a árvore repleta de bolas e luzes pisca-pisca. A questão é o rumo materialista que nossa sociedade tem tomado, no qual shopping atua como religião. O dinheiro é um deus e o mundo escorrega na materialização, na mediocridade, na pequenez.  

Arnaldo Jabor em Amor é prosa, sexo é poesia, em muitas de suas crônicas afetivas (todas exemplares!), trata da supervalorização do ter em detrimento do ser. Da importância atribuída à mídia, do poder dos endinheirados e do desejo desesperador por consumo. O cronista cineasta declarou em Zero Hora (quinta-feira, 7/12/06): “tento ter utilidade pública”. Em minha opinião, Jabor cumpre sua função social!      

O conceito de felicidade, repensado tanto por Lipovetsky como por Jabor, é a de uma promessa equivocada de realização plena em todos os planos: trabalho, amor, sexo. Daí surge A sociedade da decepção - título da obra de Gilles Lipovetsky.            

Já disse outras vezes e repito que o ser humano deve investir em recomeços e não em decepções para buscar a felicidade. Quem sabe este não seja um Natal de maior reflexão? Lembre de seu deus, seja ele denominado Jesus Cristo, Buda, Maomé,… Tenha fé e não permita que a crença no materialismo o domine. Seja gente de verdade! Que a iluminação não fique só nas árvores natalinas, mas acompanhe nossos pensamentos durante o ano. E que, acima de tudo, tenhamos utilidade pública como Lipovetsky e Jabor. 

Um ótimo Natal a todos! Presenteiem abraços verdadeiros, pois valem mais que qualquer pacote. Para vocês, queridos leitores, um forte e sincero abraço. 

Uma especial saudação a todos os colorados, afinal o Papai Noel este ano virá mais vermelho do que nunca… 

 Publicado em 21 de dezembro de 2006, Jornal Bom Dia, p. 8

criado por joselmanoal    17:47 — Arquivado em: Crônica

13/12/06

SATANÁS E O TAPETE VERMELHO PARA PINOCHET

 

 

 

            A história de Augusto Pinochet é a de um Chile sangrento. O número de assassinatos ultrapassa três mil. Inúmeros chilenos carregam, ainda hoje, a dor da perda, como Michelle Bachelet, atual presidente chilena, que teve o pai  assassinado durante a ditadura do general. Pinochet morreu impune. Fez-se senador vitalício e garantiu sua impunidade em território chileno.

 

            Augusto Pinochet foi um dos líderes da Operação Condor (unido a outros ditadores) cuja missão era eliminar qualquer vestígio socialista na América Latina. O patriota morreu aos 91 anos e espalhou a perversão e a crueldade em seu país.

            Eu, quando vejo chilenos a chorar por Pinochet, desconheço os seres humanos e passo a admirar ainda mais a minha cadela - Kika - que não mata nem mosquito e beija (com lambidas, claro!) a todos que dela se aproximam com cara de amigo. Pinochet não merece uma lágrima sequer e isto independe de qualquer posição política e partidária. Foi um assassino, dos maiores que a história já conheceu.

            Em outubro de 1998, o juiz espanhol Baltazar Garzón tentou levá-lo à prisão, a fim de responsabilizá-lo pelos inúmeros crimes cometidos. Como estava em Londres, ali permaneceu. Infelizmente o governo londrino foi fiel ao apoio recebido pelo ditador chileno durante a Guerra das Malvinas. E tudo ficou na mesma, afinal pobrezinho estava senil. Loucos ficamos nós, os justos, diante de tanta amoralidade! Só nos resta lamentar: na Espanha teria tido um outro julgamento…

            Segundo Gabeira, a morte de Pinochet representa o fim simbólico de um horror. Definiu o general como o pesadelo do século XX e parte do XXI, uma figura nefasta. Para os chilenos, de acordo com o senador, com a morte de Pinochet dá-se o início de uma época mais leve para o Chile.

            Para ler algo belo (também sofrido) sobre a ditadura chilena recomendo: A casa dos espíritos e De amor e de sombras (ambos também em filme) de Isabel Allende (sobrinha de Salvador Allende). Imperdível o documentário Chove sobre Santiago! É de emocionar, de fazer chorar a qualquer telespectador e desejar ao ditador algo muito pior que a morte…

            Seja bem-vindo ao Inferno, General! Assim deve ter dito Satanás ao estender o tapete vermelho ao nefasto. Lá está Pinochet entre seus amigos. Hitler, Stalin e Franco já o aguardavam há anos para jogar: xadrez, batalha naval e forca.

 Publicado em 14 de dezembro de 2006, Jornal Bom Dia, p. 6

criado por joselmanoal    18:50 — Arquivado em: Crônica

8/12/06

Reticências

… com o padrasto ela descobriu o medo do próprio corpo, com a mãe ela conheceu a dor da palavra silenciada …

Publicado na revista eletrônica Veredas Micronarrativas - ano IX - nº 127 -Março / abril 2007

http://veredas.art.br  

http://micronarrativas.com.br

 

criado por joselmanoal    8:55 — Arquivado em: Conto minimalista

6/12/06

BOAS VINDAS A DEZEMBRO!

     Dezembro é o mês conhecido como o da comilança sem fim, não é mesmo? Jantar de encerramento dos colegas de trabalho, dos amigos da escola, da faculdade, do clube, do futebol, da ginástica,… É festa que não acaba mais. Assim segue até a entrada do novo ano. E aí vem meu assunto de hoje, um dos meus favoritos, quem acompanha esta coluna sabe bem: os prazeres da mesa.
     Quem já viveu uma situação de enfermidade, em que foi modificado ou impedido o hábito alimentar cotidiano de um dos componentes do grupo, sabe o quanto se torna difícil o encontro, a reunião. Nossos agrupamentos sempre vêm acompanhados de jantar, almoço, chá, independente do horário, sempre há comida.
     Nunca entendi reunião-almoço e nem pretendo. Para mim não há como uni-los! Como descendente de italianos aprendi que hora de comida é hora de comida e nada mais deve ser feito. As refeições são sagradas e nada de discutir coisa alguma enquanto se come! Quando comemos, só devemos apreciar os alimentos: cor, sabor, aroma, enfim usar os sentidos e mastigar diversas vezes. E nada de oferecer um jantar fantástico se não houver sobremesa! Aliás, acho que a sobremesa deveria fazer parte do prato principal.
     Vocês já assistiram ao programa Hell´s Kitchen no canal GNT? Nem queiram, é um total desrespeito com o ser humano e com a paixão culinária. Trata-se de um Big Brother da cozinha e tão ruim quanto! Há o chef e os doze aprendizes (como o programa já está na etapa final, dez participantes já foram eliminados). O prêmio: um restaurante. Os candidatos são tratados pior que cães. O chef Ramsay passa todo tempo a gritar com os participantes, diz todas as barbaridades possíveis. É de uma brutalidade assustadora, muito diferente do que penso ser uma cozinha de um restaurante. Quem já assistiu ao filme argentino El hijo de la novia – O filho da noiva? Ali, sim, se apresenta a diferença crucial entre um restaurante administrado em um momento pela família, em outro, por um grupo de administradores. E não quero ser preconceituosa, mas, em minha modesta opinião, os melhores restaurantes são os administrados por família, pois tem o tempero de uma alegria, de um sentimento diferente pelo trabalho. Há a pitada de prazer que falta a um administrador.
     Ainda sobre o Hell´s Kitchen é ofensiva a forma como tratam o alimento. O prato é enfeitado, tudo servido à francesa. Bonito, mas sob tensão. Não há a empolgação que eu via em minha mãe, tias, avó, antes de algum aniversário em meio a panelas, papelotes, rolos de massa. Em tempos em que tudo se fazia em casa de salgadinhos a tortas enfeitadas. No referido programa televisivo não há uma risada, um sorriso sequer. Muito pelo contrário! Em um determinado momento uma das pretensas chefs foi ao banheiro chorar, após sofrer inúmeras humilhações, então o tal Ramsay resolveu procurá-la para se desculpar. Ou seja, após uma série de insultos, um afago. Que hipocrisia, que falsidade! Assisti uma única vez a Hell´s Kitchen com o propósito de escrever este texto e me basta!
     A minha dica para dezembro é a de que aproveitem a comilança com prazer e iniciem a dieta, se acaso for necessário, apenas em 2007! Convém verificar como anda o estoque de chá de boldo e/ou sal de fruta em casa. Boas vindas a dezembro e que venham as comilanças, os encontros, os amigos secretos e revelados, os abraços e as sobremesas!

Publicado em 7 de dezembro de 2006, Jornal Bom Dia, p. 8

criado por joselmanoal    13:34 — Arquivado em: Crônica
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