7/11/06
BÁRBARA
Sempre me achei divina. Divina é um belo nome. Tão significativo! Eu sou Bárbara , não Divina. Estou em frente ao aquário, deliciando-me com o silêncio na casa e em mim. Magnífico silêncio. Um deus! Minha irmã detesta. Nunca fomos próximas. Vivemos raros eclipses. Esse aquário belíssimo? Sim, ganhei de minha irmã em um destes malditos e barulhentos natais em família. Dezembro e suas mentiras. Mentiras todos temos, inclusive os meses. Por que não?
Meu filho é um maluco faceiro. Sua gargalhada me sufoca. Maltrata. São os insuportáveis, alucinantes sons. Eu busco o silêncio por todos os cantos e poros. Preciso sobreviver.
Presente de bom gosto o aquário, não? Minha irmã é assim mesmo: toda bom gosto. Um tanto escandalosa, talvez demais. Decotes, unhas vermelhas, saltos altos e gargalhadas. Se nos vemos seguido? Ah, não! Nos vemos muito pouco e assim é ótimo. Muito bem casada Veruska – observa que até o nome é de bom gosto – um empresário gentilíssimo. Confesso que nunca entendi. Há coisas que morremos sem compreender. E aí está justamente o fascínio da vida. E eu viverei mesmo sem Arthur e Lúcio. Em Lúcio uma tentativa de reviver. Fracassei. Casada? Sim, fui casada, muitos anos. Agora sou viúva. Casamento: vinte e sete anos entre encanto e dor.
A dor. Revejo aquele entardecer, seis horas da tarde, eu chegava do trabalho. Verão, ainda havia sol. Quando subia as escadas, ouvi o telefone tocar. Abri a porta às pressas para atender, socorrer, sei lá, telefone é tanta coisa desde nascimento a enterro. Quem sabe Arthur do serviço? – pensava em meu marido ao abrir a porta. Era sempre a primeira a chegar em casa. Agarrei o telefone como um filho recém-nascido. Conheci a voz de Arthur. Ele chegara antes do horário. Não sei porque não consegui largar o telefone. Maldita extensão! Hipnotizada ouvia a voz feminina, sorvendo a ira, mordendo o lábio. Degustando a falsidade. Pensava em um engano. Há tantos! Por que hoje não poderia ser mais um? Arthur, Rei Arthur. É deve ser um engano. Quem sabe linha cruzada? – insistia meu lado cínico. Mas a voz era dele. Sim, era Arthur. Sem dúvida, Arthur e outra mulher, me enxerguei aos dezesseis anos deslumbrada com aquela voz. A mesma voz, as mesmas palavras. Até o apelido! Parecia criado para mim. Sim, o mesmo apelido. Mordia o lábio com força. Não suportei ouvir a despedida, baixei o telefone, fechei a porta com cuidado e saí para caminhar. Acho que nunca caminhei tanto sem perceber…
Odeio chorar. Mas àquela noite chorei. Não sei se por mim, por ele, pornôs. Sempre fui forte. Bárbara, bem diz meu nome. Nunca descerrei os lábios. Decidi aquela noite, a boca machucada por tantas mordidas, que jamais diria uma palavra. Optei pelo silêncio.
Hoje tudo é igual o abandono me persegue. Lúcio não passa de um Arthur revestido. Vivo a mesma noite. Lúcio e outra mulher. Como Arthur. Demônios de voz mansa e palavras repetidas.
Eu estou em silêncio, em frente ao aquário, os lábios próximos, cerrados. A gargalhada arde. Sim, eu vivo. Degustando falsidades. Mordo o lábio. Gargalhadas? Toas sufocadas. Olho os peixes. Atiro a água do aquário pelo chão, um pouco bebo. Pego os peixes com todo o cuidado e os esmago um a um. No carpete cinza, água e peixes com olhos arregalados. O aquário contra a parede. Me aproximo do aquário, agora apenas caçoa de vidro que enfio um a um na boca. Pego o telefone, disco vários números. Não procuro ninguém, busco o silêncio. Na boca, sangue e saliva misturam-se. Moro no décimo andar. Atiro o telefone e vejo-o cair. Um sorriso em sangue e saliva e pela primeira vez o prazer dos gritos e gargalhadas.
Publicado em Contos de Oficina 8, p. 71-72
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