7/11/06
A VOLTA
É bom estar de volta! – a mulher de tailleur cinza, sapatos de salto lilás – suspira no aeroporto. Natália, malas e sorrisos. Voltara antes do tempo, ninguém a espera. Para a Comendador Caminha, por favor! – a voz autoritária para o motorista do táxi. Faz questão de dizer ao homem que chegara neste momento de Paris. Descontração e alegria nos gestos. Nos olhos, as verdades… Onde andará Vinícius? Não telefonara para ninguém durante esses dois meses. Não avisara ao ex-marido de sua viagem, afinal adora surpreender Vinícius… Ah, vivo tão bem sozinha! – ela consigo mesma, olhando-se no pequeno espelho que comprar em Paris. Remexe na bolsa, pega o batom lilás e com um pincel contorna os lábios com cuidado. Olha-se novamente no espelho, sorri, agora sim está ótimo! Deve apresentar-se bem em seu edifício, cara de recém chegada de Paris. Natália ajeita o cabelo com a ponta dos dedos, gosta de ser crespa. Guarda o espelho. Em seu edifício, paga o motorista com dólares, agradece em francês, coloca a mão sobre os lábios, sorri e retoma o muito obrigada. O táxi se afasta assim que diz não precisar de ajudas com as malas. O porteiro aproxima-se, ela cumprimenta-o com um aperto de mão, ele leva as malas pergunta pela viagem. Natália começa a sua ladainha de elogios : Paria? Uma cidade fascinante, perfeita, magnífica! Agradece ao porteiro, outros dólares. O homem sai sorrindo. Natália entra em seu apartamento. Tudo idêntico à noite anterior a sua viagem. Revê Augusto. Esteve com ela, exatamente há dois meses atrás, veio despedir-se. A mulher caminha pelo corredor, vê o grande espelho, quanta indelicadeza, Natália! A voz invade o apartamento. Ela lembra Augusto naquela noite… E nem sequer lhe enviara um postal. Que grosseria, Natália! Novamente, a boa alta.
Resolve fazer algo. Escolhe um disco, prepara um uísque e ao pegar o copo enxerga o rosto do pai no cristal. Ele estivera doente, fora visitá-lo. Natália após esta visita a Santa Rosa, voltara com a certeza de que a família não passa de uma miragem. O pai não! O copo já sobre a mesa. Não suporta contemplar a face do pai.
Ri, deitada no sofá. Natália tira os sapatos, joga para o alto. Os sapatos ficam ali no chão afastados – como ela e o pai. Os sapatos, pares de sapatos. Os olhos no copo. O pai sempre detestou vê-la bebendo uísque. Mas ela adolescente, já com o copo na mão, não parecia importar-se com as palavras do pai. No quarto, a adolescente chorava, o uísque ao lado.
Quem sabe telefona para Santa Rosa? Fala com a mãe, pergunta por ele. Não quer saber do pai, mas algo em si precisa. Entre um gole e outro, atirada no sofá a mulher pensa, para quem telefonará? Ao lado do sofá, a mesa de canto, telefone e agenda quase vazia. Olha a mala. Levanta-se com rapidez, abre a mala, puxa roupas. Senta-se no sofá. A mala ao lado. Panos enrolam-se: sedas, linhos, viscoses, lingeries. Um perfume francês! E comprou na França, quem diria? Uma interiorana foi a Paris! Que luxo! Natália contempla o perfume com um sorriso imenso. Vinícius usa Azzarro. O perfume de Augusto, ela não sabe. A mãe usa colônias extravagantes. O pai odeia perfume. Natália e seu Poison. Vê-se em Santa Rosa, menina encharcada das colônias baratas da mãe. O pai olhava feio, xingava. A menina morena corria parra o quarto ou ria alto em desrespeito, dependia de suas manhãs, do modo como acordava. Um dia riu alto demais e o pai puxou a cinta. Ela gritou, cuspiu no chão. Hoje é ela e o Poison, um apartamento na Comendador Caminha, uísque e gargalhadas solitárias preenchem os vazios. Natália levanta, aumenta o som. Precisa de música alta.
Sentada no chão, cabeça encostada no sofá – assim está Natália. No sofá de cetim, gotas: a água salgada e o uísque. O copo imaginado vazio pinga no sofá e no rosto da mulher a luta por um sorriso. Natália puxa um cinzeiro, acende um cigarro. Olha o telefone, suspira.
Publicado em Contos de Oficina 8, p. 67-69
criado por joselmanoal
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Comentário por Givanildo — 22 22UTC maio 22UTC 2008 @ 1:24
Maravilhoso. Este conto diz tudo… das Natálias que têm poraÃ.