4/11/06
Moacyr Scliar
De escritorzinho do Bom Fim a membro da Academia Brasileira de Letras
O título simplifica a trajetória de Moacyr Scliar, a quem tive a honra de escutar na Feira do Livro de Erechim. Ouvir a um literato é sempre uma glória e, maior ainda, quando aquele que nos fala, consegue administrar a dose exata entre sabedoria e simplicidade. Difícil harmonia que Scliar demonstrou possuir.
O escritor contou de sua modesta ambição: queira ser o porta-voz de seu bairro marcado pela identidade judaica. Confessou que todos os prêmios e, até mesmo, o convite à Academia Brasileira de Letras, não faziam parte de seus sonhos. Queria ser o escritorzinho do Bom Fim. O talento de sua literatura o levou a outros públicos, a leitores de bairros, de cidades, de países distantes…
E tudo começou porque queria ser, como o pai, um contador de histórias. A diferença está centrada no código: o que o pai fazia na oralidade, Moacyr Scliar faria e faz na escrita. Apesar da pobreza em que viveu na infância, nunca faltou o incentivo da família à leitura e à escrita. Escrevia suas histórias em papel de pão e era feliz. Sonhava com uma bicicleta para perambular pelo bairro. O pai, após muitas economias, presenteou-lhe uma máquina de escrever, que lhe permitiu pedalar a lugares longínquos no mundo do imaginário, muito além do Bom Fim. Passeios que Scliar, com sua genialidade, soube transformar em preciosas páginas de literatura.
A fala de Scliar também me trouxe uma forte saudade de uma Porto Alegre que há muito já não existe: de casa sem chaves nas portas, sem muros altos e alarmes, um Bom Fim em que todos eram amigos, não apenas vizinhos. Não existia privacidade, mas união, respeito e solidariedade.
A paixão pela literatura, em um tempo em que não havia a Feira do Livro de Porto Alegre, e a espera ansiosa pela compra de livros com descontos na Livraria do Globo. A mãe, diante da pergunta de quantas obras poderia comprar, respondia sempre o mesmo: em casa poderiam faltar roupas, comida, mas jamais faltariam livros e que o filho escolhesse quantos desejasse. E feliz ficava o menino Scliar ao escolher os seus livros. Assim ia surgindo nosso nobre escritor…
Ao final da palestra, voltando para a casa, lembrei de minha filha. Na beleza de seus seis anos me havia perguntado, na noite anterior, o que aconteceria se engolisse um vaga-lume, se ela ficaria também iluminada. Cheguei em casa sentindo um vaga-lume na barriga, afinal não é todo dia que apertamos a mão e falamos com um imortal!
Publicado em 2/11/2006, no Jornal Bom Dia, p. 8
Obs.: Enviei o texto por e-mail a Moacyr Scliar. Fiquei feliz ao receber a resposta do escritor agradecendo, emocionado, a crônica dedicada a ele. Me achei, né? Estou no podium, meu ego ganhou alguns centímetros…
criado por joselmanoal
18:41 — Arquivado em: 

Comentário por João — 4 04UTC novembro 04UTC 2006 @ 20:28
centÃmetros ou metros? Um beijo do mano
Comentário por Ivete — 9 09UTC novembro 09UTC 2006 @ 10:38
Bah, profe!
Bem que eu disse que quando crescesse, queria ser como você… Mas agora mesmo é que eu não consigo!!! Sua escalada não vai parar nunca!!!
Muitos beijos e parabéns!