19/9/06
MARIA DA PENHA & ÂNGELA DINIZ
Como vocês, caros leitores, já devem saber, a partir deste mês (setembro) passou a vigorar a Lei de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher ou a Lei Maria da Penha, sancionada em sete de agosto pelo presidente Lula.
Não deveríamos comemorá-la, pois sabemos que o ideal seria não precisar de leis como esta para coibir à violência nas relações. No entanto, a lei fez-se urgente e louvamos a sua existência.
Cabe relembrar a história de Maria da Penha Maia Fernandes, hoje com sessenta e um anos, vítima de agressões. Em 1983, um tiro enquanto dormia a deixou paraplégica. Na segunda tentativa de assassinato, no mesmo ano, o marido agressor tentou eletrocutá-la durante o banho.
Muitas ações penais, julgamentos, recursos. Em 1994, Mª da Penha publicou Sobrevivi posso contar. Em 1998, o CEJIL -Brasil (Centro para a Justiça e o Direito Internacional) e o CLADEM-Brasil (Comitê Latino-americano do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher) juntamente com Mª da Penha, encaminharam à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (OEA) petição contra o estado brasileiro sobre o caso de violência doméstica. Em 2001, a OEA responsabilizou o estado por negligência, omissão e tolerância em relação à violência doméstica contra as mulheres e exigiu providências do governo brasileiro sobre a finalização do processo penal do agressor de Mª da Penha. Em setembro de 2002, o agressor, finalmente, foi preso. A pena deveria ser de dez anos de prisão, no entanto, no início de 2004, foi posto em regime aberto e retornou ao Rio Grande do Norte.
Esta valente mulher brasileira é Coordenadora de Estudos da Associação de Estudos, Pesquisas e Publicações da Associação de Parentes e Amigos de Vítimas de Violência (APVV) no Ceará. Maria da Penha expôs sua dor e humilhação por sua solidariedade, para que outras não fossem vítimas de violência como ela. A lei tem o seu nome, porque soube gritar ao mundo seu sofrimento.
Recordemos agora outro caso de violência doméstica: à morte de Ângela Diniz, em trinta de dezembro de 1976. Em Mea Culpa o assassino relata a sua versão da história e, como revela o próprio título do livro, não quer inocentar-se, ao contrário assume seu ato insano.
Considero importante ressaltar que a violência sempre esteve presente nos diferentes patamares sociais. Doca Street e Ângela Diniz pertenciam à elite brasileira dos anos setenta. Uísque, champanhe, cocaína e sexo acompanhavam o cenário da dupla romântica. Em meio a esta loucura, aconteceu a morte.
Em entrevista à Época (nº 433, 4 de setembro de 2006) o assassino descreve Ângela como uma mulher do mundo e a si mesmo como um caipira - formavam um casal antagônico. Em um momento de discussão, atirou por reflexo, não foi um assassinato premeditado. Tanto que depois de matá-la, Doca Street chorou abraçado ao corpo de Ângela Diniz. E pasmem: só foi preso em 1981 e da condenação de quinze anos, cumpriu apenas três anos e seis meses em regime fechado.
Ao final do texto só posso concluir que a vida é mesmo uma doidera! Vocês não acham? Ainda bem que, às vezes, surge alguma lei sensata neste país…
Publicado em 20 de setembro de 2006, p. 4, Jornal Bom Dia
criado por joselmanoal
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