3/8/06
Solidão - o mal do século
SOLIDÃO – O MAL DO SÉCULO
Perdoem a nostalgia: houve um tempo em que as pessoas moravam em casas afastadas, sem telefone. Neste tempo fazíamos mais visitas, conversávamos mais do que hoje.
Não havia o celular, a internet. Havia a carta. Conheço alguém que diz que não abandonará o hábito de escrever cartas, nem que seja a única pessoa a realizar tal façanha. Acho genial!
Imagino como serão os acervos literários dentro de alguns anos… É não teremos mais as cartas que acrescentavam tanta beleza e pessoalidade ao arquivo do escritor. Bem organizadas em enviadas e recebidas. A leitura destes textos era uma viagem do ponto de vista do deslumbramento e não da loucura.
Passamos a maior parte de nosso tempo em frente à tela do computador ou da televisão. O mundo está disperso e os seres cada dia mais sós.
A Rede (Estados Unidos, 1995, direção Irwin Winkler) não se trata de nenhuma obra prima, está muito longe disto, no entanto traz uma reflexão interessante sob a solidão de nosso século. No filme a protagonista (Sandra Bullock) é uma analista de sistemas que passa todo tempo em frente ao computador, pouco sai às ruas, razão pela qual seus vizinhos não a conhecem. Há um problema com a identidade da moça e ninguém sabe quem ela é, já que só conhece pessoas, através da internet, ninguém conhece o seu rosto. Parece uma grande loucura, porém nem tão distante assim de nosso mundo.
A solidão é o grande mal deste século! Motivo do sucesso das vendas de Prozac e do alto índice de suicídios. Diferentes saídas para a mesma dor. As relações humanas perdem-se pelo caminho. Ensino à distância, escolas em condomínios privados em Porto Alegre. Ausência de conversas ao vivo, de toques, de palavras proferidas olho no olho. Importante lembrar que a mesma tecnologia que nos auxilia, também pode levar ao ensimesmamento, ao monólogo e à tristeza.
E para aprofundar o assunto desta crônica, cito o genial Octavio Paz em El laberinto de la soledad (esta sim uma obra prima!) que classifica o nascimento e a morte como experiências de solidão. Entende tal sentimento como condição própria e indispensável à vida.
Portanto, o problema do viver a solidão consiste na dosagem e na forma como a vivenciamos. Como sempre devemos buscar a harmonia! E se escrever e ler são atos solitários e sabem ser tão prazerosos, um pouco de solidão vai bem. O que não devemos desejar de forma alguma é a clausura, que me perdoem as religiosas, jamais consegui compreender o gesto de fechar os olhos para o mundo como algo positivo…
Publicado em 3 de agosto, Jornal Bom Dia, p. 6
criado por joselmanoal
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Comentário por Andrea — 3 03UTC agosto 03UTC 2006 @ 8:35
Estava passeando pelos blogs e achei o seu tÃtulo deste post interessante e resolvi ler… Gostei muito do seu estilo e de suas palavras… Parabéns pelo belo texto! Um abraço
Comentário por Severino Mirandola Júnior — 3 03UTC agosto 03UTC 2006 @ 18:29
Jô! Gostaria de parabenizá-la, mas não com os tradicionais “magnÃfico, belo, tocante!”. Aà pensei, pensei, pensei (pasme! eu penso, embora que por apenas alguns instantes), e concluà que melhor do que adjetivar suas palavras seria confessar que minha solidão inquietou-se e, misturada a uma dose de fascÃnio e encantamento, resolveu ir embora, batendo a porta e sem despedida escrita com batom no espelho. Quase fico feliz, se não soubesse de seu certo retorno, invariavelmente acompanhado do terno apelo para deixá-la ficar. E eu cedo. E, antes de encerrar (espoquem tiros e vivas e urras!), preciso falar de “Feliz Ano Novo”. É piedoso. É denso. É de amor e de outros demônios. MagnÃfico, belo, tocante! (desculpe, escaparam!)