Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

30/8/06

Gente Plasta


     Não suporto gente plasta! Um pouco de preguiça não faz mal a ninguém, mas a falta de iniciativa torna o ser humano uma nulidade, o famoso joão ninguém, o zero à esquerda. Refiro-me as pessoas que têm que ser empurradas para tudo, não tem vontade de exercer nenhuma atividade. Não falo em depressão, falo em moleza, má vontade. Aquele sujeito que você não pode nem olhar que sai bocejando, falando devagar e querendo uma cama. Cuidado porque a inércia pode contaminar e causar sérios danos…
     O plasta é aquele incapaz de se sentir motivado a realizar qualquer atividade, ele nasceu para ser mandado. Não enxerga tarefas a serem realizadas, não vê problemas no mundo, para ele tudo deve estar maravilhoso já que se nega a construção de algum feito. Pior é que o mundo está repleto de plastas! O prezado leitor, já deve, com certeza, ter identificado vários sujeitos plastas de seu convívio.
     Na adolescência até considero perdoável a moleza. Neste período da vida todos parecem estar viajando, vivem desatentos, preocupados, tão somente, com a procura do amor… Mas na fase adulta é imperdoável!
     Os nossos problemas, sejam eles quais forem, só serão solucionados com iniciativa, motivação e interesse. Portanto ser plasta é um atributo de quem julga ter vida perfeita ou dos que se acomodam em uma vida medíocre.
     Os plastas jamais serão lembrados, morrem e apodrecem no esquecimento de todos que com ele conviveram, porque nada construíram, nada realizaram, viveram inutilmente. A melhor maneira de permanecer no mundo, de buscar a imortalidade, queridos leitores, é fazer, construir, criar, trabalhar.
     E como os tais plastas estão espalhados em diferentes áreas: cuidado com a eleição, leitor! Pesquise sobre o seu candidato, do contrário você pode estar empurrando um plasta para um cargo público. Como poderá representar um povo um ser que não tem iniciativa alguma? Investigue, busque informações sobre os candidatos, verifique: iniciativas, projetos, atitudes, ações, antes de votar é claro, para não se arrepender depois…
     A eleição brasileira deste ano é a mais pacata de todos os tempos, os cidadãos descrentes, desiludidos. Nosso voto é importante para tentar fazer algo por nosso país, buscar representantes que realizem algo, gente de iniciativa e vontade. E os plastas que fiquem em casa de pijama, dormindo e bocejando sem contagiar os demais.
     Em época de inclusão, manifesto abertamente que sou favorável à exclusão dos plastas, a fim de que a humanidade se desenvolva. E se você por acaso conhece algum, tente sacudi-lo para a vida, mas muito cuidado com o contágio, pode ser fatal!

Publicado em 31 de agosto de 2006, p. 8, Jornal Bom Dia

criado por joselmanoal    20:59 — Arquivado em: Crônica

24/8/06

Tietagem

                                                       
      Aprendi com minha mãe que exageros não fazem bem, nem tornam as pessoas mais felizes, a palavra de ordem deve ser harmonia e levo tão a sério o conselho que aprendi a apreciar o vocábulo - harmonia. O que não significa que às vezes não peque pelo excesso. Como professora, adoro encher os alunos de exercícios, não por sadismo, mas por julgar necessário. Sou, profissionalmente, exagerada!
     Nosso mundo não é nada harmônico, é um puro exagero. Há fanáticos nas diferentes áreas: artes, esportes, religião, política, etc. Assuntos que devem ser evitados em reuniões familiares para não causar desarmonia. Mas vai falar sobre o quê então? Sobre a telenovela? Eu não assisto nenhuma há anos e podem acreditar: sou deste planeta! Agora que estamos em época de eleições todo o cuidado é pouco na seleção de nossas palavras.
     Mas um pouco de tietagem não faz mal para ninguém, em doses controladas, é claro! Recordo um dia sensacional em que fui a um show do Ivan Lins, sozinha. A sala repleta de mulheres de outra geração, eu ainda estava na faixa dos vinte, a maioria das meninas já estava na faixa enta. Sentei na primeira fila e foi um dos valores mais bem pagos de minha vida e para o meu salário na época foi suado, mas valeu e como. Ver Ivan Lins de pertinho cantar e tocar aquele piano de olhos fechados e com aquele sorriso tímido, se me pedissem o dobro pelo valor do ingresso na saída, eu, com certeza, pagaria sorridente. Sai da OSPA vibrando e sem voz. Gritei como nunca por uma música e ele cantou! Ouvir meu ídolo cantar a canção que pedi, claro histericamente, mas isto não importa, foi como uma rápida excursão ao paraíso.
     Ainda sobre a tietagem artística, tenho uma amiga corajosa, decidida, tiete e apaixonada por Fábio Júnior que já conseguiu duas façanhas em dois shows. No primeiro ganhou rosas do cantor, no segundo entregou rosas e em ambos logrou beijos. E não estou falando de beijinho, nem de selinho, me refiro a beijo completaço mesmo! O Fábio Júnior que se cuide no próximo show em Porto Alegre, segundo minha amiga marcarão a data do casamento. Isto não é só tietagem, isto é determinação! Nestas horas sinto muito orgulho em ser mulher. Não consigo imaginar um elemento do gênero masculino, arquitetando um plano com tanta astúcia, com tanta competência.
     Mulheres são tietes de verdade: jogam calcinhas para o Vando, gritam em shows, buscam ou entregam flores, beijam, agarram, amassam seus ídolos. É exagerado, no entanto quem já viveu um segundo sequer de tiete, não esquecerá jamais… De vez em quando, podemos esquecer a harmonia.
     Na verdade escrevi este texto porque nós, colorados, vivemos um momento de tietagem também. Há, sem dúvida, os que aumentam a vitória. Contudo temos que reconhecer que é muito bom ser torcedor quando o time está ganhando. Importante é ser de um time, reconhecer-se em um tom. Eu sou vermelho, passe o que passar. Querido leitores colorados, vamos torcer por mais momentos de glória vermelha! E viva o Rafael Sobis que nasceu nesta terra! Nada de harmonia nesta hora, colorados, sejamos exageradamente felizes!

Olhem a amiga de quem falei no texto, na foto abaixo, para confirmar a tietagem - Lisiane e Fábio Júnior:


Publicado em 24 de agosto de 2006, p. 6, Jornal Bom Dia

criado por joselmanoal    8:11 — Arquivado em: Crônica

17/8/06

A Barbárie na Internet

                                     A BARBÁRIE NA INTERNET

     A notícia do suicídio do adolescente de Porto Alegre, noticiada em dez de agosto causa assombro, espanto, tristeza e medo. O que conduz alguém aos dezesseis anos, de classe média, aluno de escola tradicional, inteligente, ao suicídio? Este texto não pretende responder a tal pergunta, mas sim refletir sobre a barbárie que habita a Internet.
     Deparar-se com a existência palpável da maldade aterroriza e causa pesadelos mais sérios na fase adulta do que Bicho Papão é capaz de provocar na infância. Nas telenovelas detesto os bonzinhos, prefiro os malévolos, no entanto como eles parecem excessivamente maus, parecem artificiais, parecem gente de mentirinha e por isto sinto um gigantesco alívio. Mas, ao deparar-me com a perversão internauta, me apavoro. Agora os lucíferes conseguem disseminar o horror por meio de computadores. A tecnologia tão bela e idealizada vira monstro.
     O rapaz veio planejando sua morte há meses… Muitos o auxiliaram na arquitetura do plano suicida perfeito. Somente a estudante canadense, Lindsey, mostrou-se preocupada e buscou ajuda. Lamentável que o auxílio tenha chegado tardiamente…
     Salas de bate papo em que o assunto é autodestruição, seres humanos que ficam monitorando e se divertindo com a morte alheia, que mundo é este? Que evolução é esta? Que uso horrendo da tecnologia faz o homem? Que espécie evoluída é a nossa?
     Claro que a internet pode ser utilizada de modo saudável e inteligente. Atua como veículo de informação, leitura, entretenimento e cultura. Através da rede podemos viajar, visitar museus, parques, passear pelo mundo.
     No entanto, a internet também está povoada de imbecilidades, de referências incorretas, de textos com autorias errôneas e absurdas, de pornografia e de muita gente sinistra! E os adolescentes sentados durante horas na frente do computador engolem e absorvem um pouco de tudo isto em dosagens nada homeopáticas… E assim morrem meninos todos os dias.
     Diante de tanta dor e comoção, resta apenas aplaudir a ação policial, tanto em Toronto como em Porto Alegre, pois ambas mostraram-se ágeis, competentes, sensíveis, humanas, embora não tenham conseguido salvar o adolescente. As máquinas venceram!
     Fica registrado o apelo para que a investigação prossiga, a fim de apurar os nomes dos demônios espalhados pelo mundo que estimulam e ensinam suicídio àqueles que tanto têm para viver…
     Finalizo com um lembrete aos pais: mantenham os olhos abertos para o acompanhamento de seus filhos e lembrem de que “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”, como nos ensinou um dia Renato Russo.

Publicado em 17 de agosto de 2006, p. 6 no Jornal Bom Dia

criado por joselmanoal    8:14 — Arquivado em: Crônica

10/8/06

OS SUPER-HERÓIS

                                             OS SUPER-HERÓIS

     Na minha infância, todas as mães eram as mulheres mais lindas do mundo e todos os pais eram super-heróis para os seus filhos. Hoje as crianças, são mais realistas, críticas e idealizam menos suas mães e seus pais.
     Aliás a figura paterna mudou muito… Os meninos aprenderam a trocar fraldas, fazer seus bebês dormirem e alguns até a levantar de madrugada para atender os pequenos. E, pasmem, há os que têm mais instinto materno que as próprias mães! A mudança é o resultado de uma nova geração de mulheres, que, por também exercer uma atividade profissional, exigiu uma maior parceria de seus companheiros nas tarefas com os filhos. Meu pai, homem de uma outra geração, não cumpriu as tarefas anteriores, porém foi, a seu modo, meu herói. Seus atos heróicos? Para mim o maior foi enfrentar a dor com coragem e fé inabalável num mundo em que fraqueza e descrença imperam…
     Considero todos os pais, das diferentes gerações, um pouco super-heróis e para confirmar que não estou só em minha constatação, basta acessar na internet a página do provedor Terra e realizar o teste para saber qual super-herói é o seu pai. Ou seja, os pais continuam super-heróis!
     Como nossos pais são nossos super-heróis, passamos a vida buscando que tenham orgulho de nossos atos. Percebi o orgulho de meu pai em uma noite memorável, em uma premiação de concurso literário. Na abertura da solenidade, os jurados do tal concurso comunicaram que muitos participantes haviam classificado incorretamente seus textos e, portanto, poderiam ser premiados em outra categoria, devido à dificuldade de discernimento entre conto e crônica. Após discursos de autoridades foram apresentados os premiados. Finalizada a lista na categoria conto, como meu nome não fora anunciado, fiz menção de levantar. O meu pai tocou o meu ombro, em um gesto firme e seguro, e anunciou que não iríamos embora, pois não havia terminado a solenidade e questionou se eu não havia escutado sobre equívocos na classificação entre conto e crônica. Ou seja, voltei a sentar. Ao anúncio de meu nome como uma das premiadas em crônica, levantei sob o olhar de viu eu não falei e o sorriso infantil de meu pai. Claro, minha mãe também estava lá e ao ouvir meu nome abriu um largo sorriso, mas como as mães sempre têm um orgulho transparente de seus filhos, foi o orgulho de meu pai que me surpreendeu. E como Leonildo não é dado a muitos elogios, este momento tornou-se inesquecível.
     Felicidades a Leonildo e a todos os super-heróis, pais de diferentes gerações, em seu dia. E como meu pai é dono dos mais belos olhos que já vi, tento uma descrição para finalizar o texto e apresentá-lo a quem não o conhece: nos olhos de Leonildo vive um mar azul entre dias de maremoto e dias de calmaria.

Segue uma foto de meu super-herói de belos olhos e eu (no niver da Laurinha, minha amada sobrinha e afilhada).

Publicado em 10 de agosto de 2006, p. 6, Jornal Bom Dia

criado por joselmanoal    8:33 — Arquivado em: Crônica

3/8/06

Solidão - o mal do século

SOLIDÃO – O MAL DO SÉCULO

     Perdoem a nostalgia: houve um tempo em que as pessoas moravam em casas afastadas, sem telefone. Neste tempo fazíamos mais visitas, conversávamos mais do que hoje.
     Não havia o celular, a internet. Havia a carta. Conheço alguém que diz que não abandonará o hábito de escrever cartas, nem que seja a única pessoa a realizar tal façanha. Acho genial!
     Imagino como serão os acervos literários dentro de alguns anos… É não teremos mais as cartas que acrescentavam tanta beleza e pessoalidade ao arquivo do escritor. Bem organizadas em enviadas e recebidas. A leitura destes textos era uma viagem do ponto de vista do deslumbramento e não da loucura.
      Passamos a maior parte de nosso tempo em frente à tela do computador ou da televisão. O mundo está disperso e os seres cada dia mais sós.
     A Rede (Estados Unidos, 1995, direção Irwin Winkler) não se trata de nenhuma obra prima, está muito longe disto, no entanto traz uma reflexão interessante sob a solidão de nosso século. No filme a protagonista (Sandra Bullock) é uma analista de sistemas que passa todo tempo em frente ao computador, pouco sai às ruas, razão pela qual seus vizinhos não a conhecem. Há um problema com a identidade da moça e ninguém sabe quem ela é, já que só conhece pessoas, através da internet, ninguém conhece o seu rosto. Parece uma grande loucura, porém nem tão distante assim de nosso mundo.
     A solidão é o grande mal deste século! Motivo do sucesso das vendas de Prozac e do alto índice de suicídios. Diferentes saídas para a mesma dor. As relações humanas perdem-se pelo caminho. Ensino à distância, escolas em condomínios privados em Porto Alegre. Ausência de conversas ao vivo, de toques, de palavras proferidas olho no olho. Importante lembrar que a mesma tecnologia que nos auxilia, também pode levar ao ensimesmamento, ao monólogo e à tristeza.
     E para aprofundar o assunto desta crônica, cito o genial Octavio Paz em El laberinto de la soledad (esta sim uma obra prima!) que classifica o nascimento e a morte como experiências de solidão. Entende tal sentimento como condição própria e indispensável à vida.
     Portanto, o problema do viver a solidão consiste na dosagem e na forma como a vivenciamos. Como sempre devemos buscar a harmonia! E se escrever e ler são atos solitários e sabem ser tão prazerosos, um pouco de solidão vai bem. O que não devemos desejar de forma alguma é a clausura, que me perdoem as religiosas, jamais consegui compreender o gesto de fechar os olhos para o mundo como algo positivo…

Publicado em 3 de agosto,  Jornal Bom Dia, p. 6

criado por joselmanoal    8:23 — Arquivado em: Crônica
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