Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

24/7/06

As mini-mulheres e o fenômeno Barbie

                        As mini-mulheres e o fenômeno Barbie

     Meninas de cinco anos sonham em ser a Barbie. Eu, como mãe de uma menina nesta faixa etária, às vezes, tenho vontade de retroceder algumas décadas na forma de educá-la. Fico apenas na vontade porque acredito na minha geração e em seus preceitos educativos.
     Sei que não estou só nesta angústia, conversando com outras mães percebo que nos encontramos com as mesmas dificuldades ao educar meninas que desejam ser sexy. Aos cinco anos, até mesmo antes, só vestem blusas baby look, calças de lycra boca de sino, micro-saias, leggings coloridos e botas de salto. E nós que usávamos até aqueles shorts de ginástica na cor azul marinho, com elásticos nas coxas, fofinhos e ridículos? Aquilo sim era o fim do mundo e nós suportávamos todo o horror e aos nossos pais e professores nada dizíamos. Era o uniforme e o aceitávamos caladas – assim eram os tempos de ditadura…
     Há um lado muito bom nisto tudo, o de que nossas meninas serão, e já são, mais críticas, contestadoras, opinativas do que fomos e tudo indica que serão mulheres capazes de fazer suas próprias escolhas e tomar decisões com segurança. Sem falar que jamais nossas meninas vestiriam aqueles nossos shorts, não é mesmo?
     Porém o que me preocupa, de verdade, é a minha desatualização: até quando dura mesmo a infância?
     Nada contra a Barbie! É uma boneca bonita, cabelo e corpo perfeito, roupas e calçados dos sonhos de qualquer mulher. E aí justamente que consiste o problema: de qualquer MULHER. As meninas querem ser Barbies, querem ser mulheres sedutoras, têm coleções de batons e bolsas. Precoce e assustador!
     Aos cinco anos, minha filha já pediu celular. Claro não ganhou, mal conhece os números… Outro dia me perguntou quando eu permitiria outro furo na orelha e piercing no umbigo. Quase tive um colapso nervoso, mas disfarcei um sorriso e tentei explicar, pacientemente, que tudo na vida tem uma idade certa e com certeza faltava muito tempo para ela…
     Sem dúvida serão outras mulheres! Têm muito mais acesso à informação do que tivemos. Mas e a infância? Fui criança até os doze ou treze anos, ingênua, feliz, brincando de boneca de papel.
     Preocupar-se com ser atraente aos cinco anos? O que vão fazer aos quinze, vinte, trinta? Para que adiantar esta neurose feminina? O que ocorrerá dentro de alguns anos: lipoaspiração infantil?
     E viva a infância! E a Barbie que me desculpe, porque eu continuo preferindo o Coelhinho da Páscoa e o Papai Noel como símbolos da infância!

Publicado em 18 de maio de 2006 – Jornal Bom Dia, p. 6

criado por joselmanoal    19:32 — Arquivado em: Crônica

Mães

                                                               MÃES

     Existem no mundo muitas mães vocacionadas, que são aquelas capazes de transformar o tempo com o seu filho em pura alegria. Não significa que estejam todo tempo ao lado do filho, mas valorizam a intimidade e o momento em que estão juntos. Compartilham jogos, desenhos, cinema, pipoca, risos e lágrimas. Sabem ouvir e respeitar e têm uma paciência gigantesca.
     Ser mãe é rechear a vida de novidades e descobertas e também de muitas noites maldormidas. É viver em estado de ponto de interrogação constante… E ser feliz mesmo rodeada de dúvidas. A maternidade é para sempre e preenche a vida com um amor inexplicável e único. E certamente ao nos tornarmos mães, já não somos as mesmas mulheres de antes, nos transformamos, nos enriquecemos, nos energizamos.
     Quando o filho está na infância, a mãe conhece os brinquedos e os super-heróis preferidos e embarca de mãos dadas no mundo do imaginário. Na adolescência já é bem diferente… No entanto, a aproximação permanece não de forma punitiva ou repressora. Amizade e respeito continuam sendo as palavras-chaves em qualquer relação de amor. E a mãe também sabe dizer não nas horas certas.
     Sabemos, é claro, que ser mãe não é tarefa nada fácil e precisa, sobretudo, ter vocação. Portanto, ser mãe não é para qualquer uma! E por isto respeito muito a decisão de não ter filhos feita por mulheres que dizem não a uma sociedade inteira de cobranças. Louvável e digna escolha! Se não têm vocação para a maternidade, nada mais sensato e honesto. Afinal sabemos que muitas mulheres são levadas à maternidade por imposição social. Aquelas que se preparam para a maternidade saibam que este é o maior gesto de doação e generosidade de uma mulher, lembrem que egoísmo não combina com mãe. E jamais tenham filhos porque a sociedade assim o quer. Pensem com cuidado, munam-se de amor e paciência porque estou certa de que vale a pena!
     Vale a pena ser mãe sim! Pelo fascínio e beleza do primeiro encontro (seja ele o do choro do bebê no nascimento ou do primeiro abraço no caso de adoção), pela melodia da primeira palavra, pelo ritmo do primeiro passo, pela singeleza do primeiro sorriso, pela emoção do primeiro dente que nasce ou que cai, pela primeira mamada desajeitada, nervosa e plena de amor, pela primeira papinha preparada com tanto esmero, pela primeira escola, pracinha, cinema, teatro, viagem, praia,… A maternidade reveste-se destas e outras tantas primeiras experiências e também do encanto das ações repetidas do cotidiano.
     E para as mulheres que assumiram dignamente a mais sublime vocação feminina, como Joecí – minha mãe - um maravilhoso Dia das Mães. Para Joecí, mãe maravilhosa, um parabéns especial por ter uma paciência invejável e sempre saber ouvir… E quem me conhece sabe o quanto gosto de falar!

Publicado em 11 de maio de 2006 – Jornal Bom Dia, p. 6

criado por joselmanoal    19:29 — Arquivado em: Crônica

Uma pitada de prazer

                                       UMA PITADA DE PRAZER
     Soube de alguém que se sente inseguro diante da escolha profissional. Foi um ótimo aluno na graduação, tanto que até conseguiu bolsa da CAPES para o Mestrado na UFRGS, porém ele tem dúvidas… Tal fato, originou este texto que visa propiciar uma reflexão na semana do Dia do Trabalho.
     Conclui que sou um caso raro: entrei na faculdade aos dezoito anos e já apaixonada pelo curso de Letras, paixão que, por mais estranho que possa parecer, foi aumentando com o passar dos anos… Gostava de todas as disciplinas – estou sendo sincera (aliás como sempre procuro ser nesta coluna e na vida). Na Faculdade de Letras encontrei o meu mundo. Se o segundo grau (como era denominado naquela época o ensino médio) causava-me torturas, tristezas e frustrações com a obrigatoriedade do entendimento de disciplinas com as quais não tinha afinidade; nas Letras era cercada pelas maravilhas de Línguas, Literaturas, Lingüísticas e Teorias da Literatura, tudo exercia em mim puro encanto e fascínio. Podem acreditar que, no então chamado Instituto de Letras e Artes da PUCRS, descobri o meu paraíso. E podem perguntar para os meus ex-professores e eles, com certeza, vão confirmar.
     Triste pensar que nem sempre é assim. Às vezes a escolha profissional é feita por ocasião, por oportunismo, por determinação familiar e/ou social, enfim não por amor e por prazer. Eu, como defensora do amor e do prazer, acredito que eles deveriam estar em primeiro plano sempre e em todas as decisões de nossas vidas.
     Há muito profissionais em lugar errado! Conheço um juiz que é um excelente matemático, uma nutricionista que sonha em ser veterinária, um poeta travestido de funcionário público, uma dona de casa que é assistente social, uma relações públicas disfarçada de telefonista. Lamentável!
     Outro dia a Sandra, minha querida amiga e leitora desta coluna, perguntou sobre o significado do trabalho em minha vida, em razão de uma pesquisa para uma disciplina do curso de Psicologia, respondi que trabalho é a garantia de um sustento econômico, financeiro, mas deve ser também prazer. Nunca consegui, e nem vou tentar, trabalhar sem prazer. Prazer que move também a escrita desta coluna, sabiam? Acredito que devemos incluir uma pitada de prazer, se possível até uma colherada, em tudo que fazemos. E por que não no trabalho? Voltando ao significado do trabalho, respondi também que esta ação deve transformar a sociedade, o mundo, um pouquinho que seja.
     Nunca calculei a data de minha aposentadoria e para mim quem o faz (exceção aos que estão em fim de carreira) deve estar na atividade errada. Leitores, reconheçam os seus talentos, acreditem nos seus sonhos e se encham de coragem para buscar a profissão certa. Movidos de talento e coragem, a oportunidade será criada e a sorte os acompanhará. Afinal, “sorte tem que acredita nela” – não é assim que diz a canção?
     Desejo, estimados leitores, que possam encontrar em suas profissões, além do sustento econômico, uma pitada de prazer. E àqueles que seguem profissionalmente indecisos repensem seus talentos…

Publicado em 4 de maio de 2006 - Jornal Bom Dia, p. 6

criado por joselmanoal    19:26 — Arquivado em: Crônica

Para Geci

                                                PARA GECI
     Meninas, podem morrer de inveja, porque me acompanha a sorte de poucas: tenho uma sogra que é uma mãe!
     E a família já está ciente, pois já comuniquei a todos e aqui reafirmo: posso até trocar de marido, mas definitivamente não troco de sogra. Afinal onde iria encontrar outra sogra igual a esta?
     Muitos nem comemoram, porém o Dia da Sogra existe (28/04) e quero parabenizar a todas as sogras pelo seu dia! Algumas são dignas de piadas de mau gosto, já a minha merece – no mínimo – estas linhas carinhosas…
Geci nasceu, coincidência ou não, em Erechim, depois fez sua vida em Porto Alegre. Muito jovem deparou-se com a solidão, irmão e pais faleceram. O marido se foi, em um tempo e que iam comprar cigarros e… Por sorte tinha três filhos! Um deles a razão que nos aproximou. Compartilhamos amores comuns, no entanto não é somente este fato que move a escrita deste texto, mas também a admiração que aprendi a ter por esta mulher.
     Depois desta rápida descrição, vocês devem imaginar que com tantas perdas e tristezas minha sogra é uma velhinha curvada e de olhar baixo. Pois estão muito enganados, o mais incrível de tudo é que permanece bela, tem uma postura ereta e um olhar doce que faz com que ao conhecê-la ninguém imagine o que viveu nesta vida.
     Minha sogra, ao ver-se sozinha, soube encher-se de coragem para procurar emprego, comprou apartamento e conseguiu educar seus filhos, contou com poucas ajudas, afinal poucos generosos há no mundo.
     Antes de meu casamento tínhamos uma relação cordial, longe de ser o que é hoje. Acredito que o nascimento da Sophia nos tenha aproximado e nos tenha tornado realmente amigas. Não simplesmente porque é uma avó fantástica, mas porque passei a vê-la como alguém em que posso confiar e contar sempre, sem cobranças, por puro amor.
     Seja por doença ou festa, minha sogra está sempre perto. É muito bom saber que existe alguém com quem contar nesta vida, não é? Em um mundo tão egoísta e falso, saber que existe uma pessoa de sentimentos tão verdadeiros…
     Geci é uma excelente companhia, seja para comprar móveis ou roupas, trocar confidências, chorar ou sorrir, passear ou ver televisão. Sua bondade é quase ingênua, sua generosidade absoluta. A voz mansa de minha sogra fez minha avó materna fazer-me um comentário inesquecível ao conhecê-la: “Selma, das duas uma: ou tua sogra é muito falsa ou é uma pessoa muito boa. O tempo nos dirá e vamos rezar pela segunda opção!”. Claro, a Vó Olga nunca havia visto ninguém igual a Geci e o comentário, que agora causa graça, naquele dia deixou-me preocupada…
     Geci merecia da vida com certeza mais diamantes e desejo com estas palavras iluminar o seu dia. Feliz dia da sogra para você, Geci, que sabe ser uma sogra que é uma mãe!

Publicado em 27 de abril de 2006 – Jornal Bom Dia, p.6

Obs.: Este texto fez mais sucesso do que eu imaginava ao publicá-lo e o mais importante de tudo: a minha sogrinha adorou!!!

Olha ela aí!

 

criado por joselmanoal    19:17 — Arquivado em: Crônica

Eu faço pega em Erechim

                                          Eu faço pega em Erechim

     Não, eu não faço pega em Erechim, mas havia uma comunidade no Orkut assim denominada, com um significativo número de participantes. Após uma matéria jornalística, alertando para o perigo da difusão da atividade como ócio e prazer para a juventude, a comunidade fez-se inexistente. O que não significa, que a ação de fazer pega inexista, só trouxe o anonimato aos adeptos erechinenses.
     Quando adolescente, talvez sofresse de alguma anomalia, porque nunca tive o menor interesse em roubar o carro de meu pai. E eu pertenço ao planeta Terra, por mais incrível que possa parecer… Freqüentava muitas festas, danceterias (ainda chamam assim?), adorava chegar de madrugada, fazer lanche com minha mãe e contar a ela todos os detalhes da noite. Ficar em casa sábado a noite era motivo para depressão, queria morrer! Saía muito e pertencia a diferentes grupos de amigos: os que usavam o ônibus como transporte, as meninas que iam de táxi (como a Angélica - lembram da música?) e a turma do fusquinha.
     Com o primeiro grupo, o retorno para casa, era feito com o primeiro ônibus, e isto já era lá pelas seis horas. Em um tempo em que Porto Alegre não nos assustava e podíamos sentar no cordão da calçada, contando piadas e cantando. E nos embriagávamos sim, mas apenas de amanheceres e gargalhadas.
     Com a turma do fusquinha, nos espremíamos entre uns dez  adolescentes e era a maior farra, a definição dos lugares, quem iria no colo de quem (aqueles que conhecem um fusca imaginam exatamente do que se tratava…). O máximo da sacanagem era baixar os vidros e passar a mão na bunda dos pedestres distraídos, gritar algumas besteiras e era o que de mais pesado fazíamos! Por isto nem imagino o significado, nem vejo graça alguma em fazer pega. Com fusquinha nem pensar, sem chance…
Nunca tive amigo filhinho de papai, mesmo os que tinham uma condição privilegiada, andavam de fusquinha. Os automóveis dos pais eram respeitados, até porque andar espremido dentro de um fusca era uma delícia e não nos sentíamos menores por isto.
     Ah! Havia também as caronas, entre elas, a inesquecível do Pai do Tubarão! Após mais de vinte anos, fiz uma enquete com as minhas amigas e todas (sem exceção) lembravam com detalhes do Pai do Tubarão. Ninguém lembra a cor ou o modelo do automóvel, embora fosse um carrão, muito diferente de um fusca… Muito menos lembramos do nome do Tubarão. Lembramos sim que o Tio foi buscar a meninada de roupão em uma festa, e podem acreditar, era melhor que o Edson Celulari!
     Bem, saindo do túnel do tempo… Adolescentes devem viver novas experiências, mas não ser isentos de responsabilidade. Talvez a nova geração de pais tenha sido muito permissiva e aí está o resultado de tantos sins. Não queiram que seus filhos tornem-se mais uma borboleta no asfalto, permitam que eles alcem vôos, porém mais rasantes e seguros e nem por isto menos felizes. Digam mais nãos e desfrutem da companhia de seus filhos por mais tempo!

Publicado em 20 de abril de 2006, Jornal Bom Dia, p.6

criado por joselmanoal    19:00 — Arquivado em: Crônica

Um brinde a Erechim

                                      UM BRINDE A ERECHIM

     Há muitas qualidades em Erechim que podem passar despercebidas para os que nasceram aqui. Dirigir o olhar para o mesmo local todas as manhãs, muitas vezes, não nos permite a contemplação da beleza cotidiana. Meu texto segue esta direção hoje: fazê-los enxergar melhor Erechim no mês de seu aniversário.
     O atendimento nesta cidade encanta a qualquer morador de uma metrópole. Vou contar-lhes algo que se passou com meu irmão em uma visita a esta cidade. Meu mano esteve aqui em um feriado e aproveitou para realizar pequenos ajustes em seu automóvel. Gostou tanto do atendimento recebido que retornou à mesma concessionária, meses depois, para adquirir um outro automóvel. Todos em Porto Alegre questionaram e consideraram a idéia absurda com tantas lojas na capital… A explicação é muito simples, o que encontramos de sobra em Erechim falta à capital: cordialidade, gentileza e bom atendimento.
     Quem nasceu em um grande centro sente, com certeza, falta de maiores espaços culturais, teatros, cinemas, shows, mas se depara com um lugar onde é possível realizar passeios noturnos pelo centro. Além dos bancos da avenida (sempre ocupados por pessoas de diferentes idades), das praças, do chimarrão, da pipoca, dos amigos e dos namorados que conversam tranqüilos. Há uma beleza nesta tranqüilidade que confesso, por vezes, até emociona. Como porto-alegrense posso afirmar que a falta do quê fazer em Erechim é compensada pela paz das ruas.
     Amo Porto Alegre, porém tenho me deixado conquistar por Erechim em seus singelos atrativos, menos sofisticados e talvez mais humanos. A segurança que aqui encontro, em minha cidade de nascimento já faz muito que não há. Foi um dos motivos que me levou a decisão de mudança, da qual não me arrependo um décimo. Em Erechim sou mais feliz pela paz que vejo nas praças, pelo silêncio da rua em que moro, pelas passadas mais curtas que dou, pelo tempo que administro melhor e me permite escrever esta coluna, trabalho que realizo com muita alegria.
     Causa-me graça quando erechinenses reclamam do congestionamento, das distâncias atribuídas a determinados locais e quando se dizem estressados. Estresse deveria existir somente em Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, destacando apenas algumas capitais brasileiras onde nos deparamos com assaltos, seqüestros, engarrafamentos, poluição…
     Queridos leitores erechinenses, vocês são felizes e talvez nem saibam disto! E por acaso a felicidade não pode ser um drinque elaborado a partir das essências de: segurança, tranqüilidade, ócio, calmaria, praça, pipoca, chimarrão e agradável companhia? Misturem bem, levantem suas taças e tim-tim à nossa felicidade!

Publicado em 13 de abril de 2006 – Jornal Bom Dia – p. 6

Obs.: Após a publicação desta crônica, recebi uma carta do Prefeito de Erechim ( Elói Zanella) parabenizando pelo texto e agradecendo a homenagem à cidade… Me achei, né?

criado por joselmanoal    17:38 — Arquivado em: Crônica

Procura-se gente

                                                  Procura-se gente
     Vivemos um século de evoluções, descobertas e avanços científicos, mas o grande problema permanece e se intensifica com os passar dos anos: a falta de solidariedade. Somos a cada dia mais egoístas, mais isolados, menos gente. E não há medicina capaz de encontrar a cura de tal enfermidade, embora a venda de Prozac tenha aumentado de modo significativo! Basta observar o número de farmácias em nossa cidade para ter certeza de que a depressão está ao nosso redor…. Em lugar de remédios deveríamos buscar uma boa sala de terapia, pois a doença está dentro de nós.
     Moramos em edifícios, condomínios, mas não sabemos compartilhar. Ouvi um relato de uma amiga sobre a dificuldade em realizar reformas no condomínio onde mora e, imediatamente, pensei na escritura deste texto. Assustador como as pessoas não sabem relacionar-se, não sabem escutar, têm ouvidos somente para si mesmas.
      A solidariedade pode ser encontrada nos pequenos gestos: retirar a lata de refrigerante da mesa, após o lanche (já observei que no shopping poucos o fazem, deixam a tarefa para os funcionários, afinal são pagos para isto); respeitar a faixa de segurança (tanto pedestres como seguranças); em festas não pedir bebidas e depois deixá-las pela metade, pelo simples fato de que não estamos pagando pelo consumo (o que considero uma total desconsideração com os anfitriões).
     Por que é tão difícil trabalhar em equipe? Noto a dificuldade dos alunos em realizar os chamados trabalhos em grupo. Dividem os conteúdos para a apresentação e não os discutem como seria a proposta inicial do professor. Nas empresas também há individualidade. As reuniões, normalmente, são informativas e não momentos de discussão. As decisões não são tomadas em conjunto. Falta solidariedade, falta saber ouvir o outro! Se no local de trabalho alguém desconhece determinada tarefa, muitos pensam “que se dane, quando cheguei aqui ninguém me explicou nada e eu tive de aprender tudo sozinho” e assim se forma um círculo vicioso de individualismo.
     Um exemplo de solidariedade? MV Bill. É o meu ídolo da atualidade, já disse em outro texto e repito que este sim é um cidadão brasileiro de quem devemos nos orgulhar. O livro e o documentário sobre os falcões, os meninos do narcotráfico nas favelas do Rio de Janeiro, são exemplos de solidariedade, de alguém que não só enxerga o seu país, como grita por sua melhoria, por sua cura. A história destes meninos comoveu o Brasil, embora tenha sobrevivido apenas um dos entrevistados… Mas se algum projeto surgir para resgatar estes meninos, para apresentar-lhes uma nova vida, será fruto da brilhante iniciativa do registro desta realidade, trabalho feito por alguém que não é político, é rapper, no entanto se preocupa com o futuro de seu país porque é, acima de tudo, um brasileiro solidário.
     Palmas para MV Bill!

Publicado em 30 de março de 2006 – Jornal Bom Dia – p.6

criado por joselmanoal    17:33 — Arquivado em: Crônica

Boloterapia

                                                   BOLOTERAPIA
     Vocês, leitores que acompanham esta coluna, já devem ter percebido que sou uma comilona convicta. E afirmo, sem titubear, gastronomia é arte! E encontro apoio no cinema em “Como água para chocolate” (1992) – com um belo e fiel roteiro para o romance de mesmo nome - “Simplesmente Martha” (2001) e “O Tempero da Vida” (2003). Obras de diferentes nacionalidades, mexicana, alemã e grega/turca, respectivamente, que versam sobre a mesma relação culinária e amor – que, vamos combinar, é um prato cheio!
     Quando criança me encantava estar com minha avó e minha mãe entre aromas e temperos… Quantas vezes você já ouviu alguém manifestar saudade do prato preparado pela avó, mãe, tia? Com certeza inúmeras! Além disso, há as comparações entre os pratos da esposa e da mãe que podem gerar, inclusive, problemas conjugais.
      Segundo minha mãe: cozinha é terapia. Demorei para entender a afirmativa, mas hoje concordo que não há nada melhor para desestressar do que bater um bolo - boloterapia. E nada de batedeira, no pulso mesmo! A transformação da massa e o surgimento das bolhas de ar são delícias capazes de modificar o astral de qualquer espécie de mal-humorado. Martha Medeiros na crônica - A melhor terapia em 23/12/2005 - declarou que a melhor terapia é lavar louça, já eu acredito na boloterapia! E convém esclarecer que a boloterapia atenua apenas pequenos problemas de estresse cotidiano.
     Ainda em defesa da gastronomia, não podemos esquecer que é em torno de uma mesa que ocorrem os grandes encontros familiares. Os famosos churrascos de domingo, com certeza não seríamos os mesmos sem eles… E as férias? Com guloseimas tornam-se ainda melhores e como dizem os espanhóis: “con queso, pan y vino se hace mejor el camino”. Quer saber: um dos melhores prazeres da vida é o de comer. Ao estar de férias: tomar café da manhã em hotel. O comer sem pressa, a leveza dos dias e a maravilha do apreciar e degustar as frutas, os pães, os bolos, as geléias, … Em sábados chuvosos: um filme, um cobertor, um sofá, uma boa companhia e uns bolinhos de chuva, com muito açúcar e canela, complementam a vida e o entardecer. Em noites de inverno: um cabernet sauvignon de qualidade e um fondue eternizam o momento e refinam o paladar romântico. Como glutona que sou, só em pensar, já sinto o aroma, a cor e o sabor…
     Aliás aroma, cor e sabor são os principais ingredientes para a culinária. E por que não dizer para a vida? Amizade, amor, sedução colocamos um pouco de tudo isto em nossos preparos gastronômicos.
No que diz respeito à gastronomia, sou obsessiva: adoro assistir programas culinários, coleciono cadernos de jornais e revistas, compro livros, estou, sempre que posso, procurando novas idéias na internet e, claro, tenho um caderno de receitas infinito. Sorte a minha que herdei a magreza, o apetite, o prazer gastronômico e a boloterapia de minha mãe, pois a verdade é que se eu tivesse que abandonar a cozinha ou fazer dieta seria menos feliz…
     Bom apetite!

Publicado em 23 de março de 2006 – Jornal Bom Dia – p.6

criado por joselmanoal    17:30 — Arquivado em: Crônica

Para que quebrar o barraco?

                         PARA QUE QUEBRAR O BARRACO?

        A música popular brasileira tem Elis Regina e Tom Jobim, mas, infelizmente, também tem Tati Quebra-Barraco. A começar pelo nome artístico escolhido, revelador, mostra a que veio Tati – para quebrar, romper, com o quê? O Barraco seria o Brasil? A intenção me parece a de terminar com a qualidade musical de nosso país.
      Não se trata de modo algum de preconceito, seja ele racial ou social. Reconheço o talento vindo da periferia. Bezerra da Silva cantou a favela com primazia, denunciou os problemas sociais, as barbaridades, os preconceitos, representou com dignidade o seu povo. Sem falar em Zeca Pagodinho! Não sou fã de rap, mas sei que Marcelo D2 tem talento. MV Bill, além de músico e autor do livro Cabeça de Porco, foi premiado pela UNICEF e UNESCO por seu engajamento social na ONG Central Única das Favelas – projeto que atende a jovens de comunidades carentes. Este sim exerce sua cidadania e é um brasileiro do qual podemos nos orgulhar!    Quanto ao chamado Black Music, temos o Tim Maia e a Sandra de Sá, entre outros tantos músicos deste país.
      Voltando à Tati Quebra-Barraco, conheci a sua “música” em um aniversário de quinze anos e fiquei chocada, não só pela letra, pelo ritmo, mas também pela coreografia. Tive a certeza de meu envelhecimento. Me entristeci ao ver as adolescentes cantando felizes o fato de serem “cachorras” e os meninos entusiasmados se sentindo “tigrões”! As letras são discriminatórias, preconceituosas. Vão muito além do machismo, são depreciativas, vulgares, rudes.
      Cabe destacar que, antes da escrita deste texto, li todas as “letras das músicas” de Tati Quebra-Barraco, pois gostaria de fazer uma análise mais minuciosa, mas como não encontrei fragmentos possíveis de serem publicados em minha crônica, farei apenas algumas referências de minha leitura atenta. As letras são repetitivas, versam sobre a banalização e a violência sexual, estimulam a infidelidade, em uma linguagem absolutamente grotesca, ofensiva. Talvez seja interessante para estudiosos da linguagem vulgar e para o aprendizado de novas nomenclaturas para posições sexuais e para membros genitais. Sem dúvida, Tati quebra o barraco e o sucesso a ela atribuído é vergonhoso no país do Samba, da Bossa Nova e do Tropicalismo.
      Ainda bem que a sorte acompanha os brasileiros e surgem músicos com o desejo de reconstruir e não de quebrar o barraco, como: Ana Carolina e Zeca Baleiro. Mencionei apenas dois nomes de uma nova geração de músicos verdadeiros que conquistam o espaço nacional para alívio dos ouvidos mais exigentes…
       Minhas desculpas aos fãs de Tati Quebra-Barraco. Confesso que sou jurássica, saudosista e me orgulho de ter vivido a adolescência cantando e dançando Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Ira, Titãs e Barão Vermelho.

Publicado nos jornais: Bom Dia em 16 de março de 2006, p. 6
e Extra Classe – SINPRO/RS em junho de 2006, nº 103, ano11

criado por joselmanoal    17:27 — Arquivado em: Crônica

As Pontes de Madison

                                       As Pontes de Madison 
       Em razão do Dia Internacional da Mulher (8 de março), hoje me dirijo às leitoras de modo especial. Claro que vocês, meninos, podem continuar lendo o texto. E quem sabe não aprendem um pouquinho mais sobre nós? Difícil dizer algo sobre as mulheres que já não tenha sido dito…
       As mulheres de hoje são muito diferentes das de outras gerações - isto todo mundo já sabe! Diferentes porque têm profissões, usam anticonceptivos, são mães independentes, porém muitas permanecem tão infelizes como as de décadas atrás. Infelizes porque incapazes de mudar suas vidas. Quantas, em pleno século XXI, permanecem casadas por conveniência ou covardia? Quantas realizam cirurgias plásticas e moram nas academias, tomam emagrecedores quando deveriam olhar menos para estrias e celulites e mais para realizações e sonhos?
      Por acaso vocês assistiram “As Pontes de Madison”(1995) com direção de Clint Eastwood? Vale a pena! É um filme de amor, dos mais belos que já vi, e com atores fantásticos: Meryl Streep e Clint Eastwood. Assista e pense em sua vida! Eu, por exemplo, não me imagino após o filme dormindo ao lado de quem não amo. O amor e a mulher são indissociáveis.
    O problema das mulheres além da TPM, da busca do amor e da ascensão profissional, também é da beleza. Adoro a Campanha pela Real Beleza da Dove! Os comerciais mostrando mulheres de verdade, sem Giseles ou Ivetes, corpos normais e de diversas idades! Por que sofrer tanto por uma gordurinha? Tudo bem, eu também acho que devemos nos cuidar, mas nada de só comer alface. Aliás, querem saber: tenho pena das modelos desnutridas! Não as invejo e adoro um bom prato de “spaghetti alla carbonara” com muito queijo parmesão.
      Vale lembrar que a coragem de recomeçar é o que move qualquer ser humano. Portanto, os verbos principais de nossa vida devem ser, obviamente, recomeçar, e também: recriar, reinventar, reciclar, reformar, transformar, aventurar-se. Seja o problema com o casamento, com a profissão, com o corpo, com a casa. Meninas: busquem ser felizes e aprendam a aventurar-se. Cruzem as Pontes de Madison! Quanto aos cuidados com o corpo, não sejam obsessivas, cuidem-se, mas nada de procurar gordurinhas onde não há. Permitam-se a normalidade de alguns defeitos para não parecerem Barbies, afinal esta é a função das modelos, das globais. A nossa função é tão somente a de ser feliz!
      Antes de ser recriminada, eu não esqueci da mais sublime vocação feminina que é a da maternidade. Deixarei este tema para o Dia das Mães…
Finalizo desejando a todas muito amor, chocolate, sexo, champanhe e um Feliz Dia Internacional da Mulher!

Publicado em 9 de março de 2006 – Jornal Bom Dia – p. 6

Obs.: Sem falsa modéstia, adoro este texto, acho que dá uma sacudida na mulherada, pelo menos este é o meu desejo…

criado por joselmanoal    17:20 — Arquivado em: Crônica
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