24/7/06
O último desafio
O último desafio
Sempre relacionei esporte à vida, porém após a morte do alpinista brasileiro Vitor Negrete, ocorrida em dezenove de maio deste ano, lembrei de outros alpinistas brasileiros com igual destino: Marcos Luszczynski e Eduardo Silva, (2005), Mozart Catão, Othon Leonardos e Alexandre Oliveira (1998), e reconsiderei minha afirmação anterior.
O ser humano está sempre em busca de desafios – nesta frase não há nenhuma novidade! A questão toda está no teor da conquista que buscamos… Negrete já havia escalado o Everest e quis voltar sem os cilindros de oxigênio que o acompanharam no ano passado na mesma rota. Por quê? Sujeito de vida normal: casado, pai de duas crianças, engenheiro de alimentos, mestre em Tecnologia de Alimentos, pesquisador colaborador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação - UNICAMP, porém quis o desafio e buscou o próprio fim. E nos perguntamos, incrédulos: por quê?
Confesso minha praticidade: prefiro desafios menores e de soluções mais fáceis. Se a insatisfação humana conduz ao desafio e cada um tem o seu, que sejam mais concretos e atingíveis: alcançar as metas na empresa, manter os alunos felizes em sala de aula, conseguir uma promoção, realizar uma especialização, um mestrado, um doutorado. Queremos sempre mais, tudo bem, mas precisa morrer para isto? Para alguns sim! Falando em brasileiros: Cazuza, que para mim era um gênio da poesia e da música, desafiou-se até o último instante de vida…
O que difere esportistas radicais e grandes artistas dos meros mortais é o limite do desafio, eles ousam mais, portanto a vida passa a ser mais desafiada e “a morte os visita muito antes do que deveria” - assim pensamos nós que nos sentimos abandonados ao não poder mais assistir ao vivo ao show do Cazuza ou assistir na televisão aquele alpinista colocando a bandeira de nosso país, com tanto orgulho e alegria, no cume do Everest… O desejo de provar para si mesmo o seu potencial, a sua genialidade faz com que muitos abandonem o oxigênio no caminho.
Há, claro, os que desejam a morte, os homens bomba, por exemplo, morrem por um ideal. Será mesmo ideal? O ideal deveria ser viver, conquistar, realizar, buscar!
A verdade é que há muito a ser construído em vida. Independente de suas ações, com certeza, você também tem muitos desafios, portanto, basta adquirir a habilidade para observá-los e preparar-se para ir ao encontro de suas conquistas. Só não esqueça, prezado leitor, dos cilindros de oxigênio!
Publicado em 8 de junho de 2006 – Jornal Bom Dia – p. 6
criado por joselmanoal
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