Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

24/7/06

A goteira ou a enchente?

                                   A goteira ou a enchente?
     Nas últimas semanas o Brasil foi arrastado por uma onda de “enchentes”, além dos cotidianos escândalos de corrupção; a Petrobrás na Bolívia, Evo Morales x Lula; a revolta dos presídios, o confronto entre policiais e PCC, rebeliões que fizeram de São Paulo uma cidade em plena guerrilha. E o medo era, então, digno de um filme de terror!
     Porém, como de enchentes os jornais estão repletos, esta coluna prefere tratar, muitas vezes, da goteira. Há uma cobrança social dirigida àqueles que tem um espaço semanal em jornais para o trato a temas atuais. Este texto justifica minha escolha, minha preferência pela goteira que pode até sofrer o estigma de alienada, egoísta, medíocre - classifiquem do modo que quiserem. Só não chamem de auto-ajuda, porque me sentiria realmente ofendida!
     Argumento que a goteira tem sua importância e que a vida é uma temática eternamente atual! E por acaso não serão as enchentes formadas a partir da união de muitas, inúmeras goteiras?
     Ninguém escreve para não ser lido! O leitor é, portanto, o que motiva o texto. Quando alguém escreve, pensa em seu leitor, dirige-se a ele e o tem em mente… E eu falo da goteira pensando em, de alguma forma, sacudir as pessoas, provocar uma discussão, pensar e repensar o dia, divertir, alegrar, enfim depende do texto, mas seja ele do estilo que for, tem a obrigação de mexer com o leitor. E prometo, a vocês – meus leitores – que se o texto não lhes dizer nada, eu não o escreverei!
     Muitas vezes as transformações miúdas do cotidiano dão suavidade, leveza e sintonia às nossas horas. As questões político-econômico-sociais nos dizem respeito sim! No entanto, nem sempre quero falar sobre elas. Ao escrever, desejo que a leitura de meus textos lhes conceda um pouco da tranqüilidade que tão bem descreve Ivo Pessoa na letra da canção. “Eu quero uma casa no campo onde possa ficar do tamanho da paz…” E minhas crônicas almejam também, porque sou pretensiosa, conduzi-los a lugares do imaginário, do sonho, acompanhá-los na viagem a Pasárgada com Manuel Bandeira.
     Na verdade pouco importa se a escrita versa sobre a goteira ou a enchente, o fundamental é que ocorra alguma mudança seja ela grandiosa ou minúscula, ínfima ou suprema. Encontro apoio em Jean-Paul Sartre na obra Que é a literatura?: “O prosador é um homem que escolheu determinado modo de ação secundária, que se poderia chamar de ação por desvendamento. (…) O escritor engajado sabe que a palavra é ação: sabe que desvendar é mudar e que não se pode desvendar senão tencionando mudar. (…) A função do escritor é fazer com que ninguém possa ignorar o mundo e considerar-se inocente diante dele.” (p. 20-21)
     Esclareço que não me sinto incluída na nobre categoria de escritor, sou apenas aprendiz no manejo da complexa palavra. Percorro esta trilha pela linguagem como uma criança que, insegura, pula amarelinha, apesar da paixão e voracidade que a movem, tentando acertar a cada pequeno salto.
Queridos leitores, desejo preencher e harmonizar o seu dia a cada coluna semanal. E quem sabe, após a leitura, não decidimos consertar aquela velha e indesejável goteira?

Publicado em 15 de junho de 2006 – Jornal Bom Dia, p.6

criado por joselmanoal    19:40 — Arquivado em: Crônica

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