Textos da Jô

Crônicas e contos de minha autoria

27/7/06

Olga - uma mulher admirável

                           OLGA - UMA MULHER ADMIRÁVEL

     Em 26 de fevereiro de 1921 nasceu Olga Salomoni, ainda não era Bertaco. Em Bertaco transformou-se por amor a Luiz, jovem elegante, também filho de imigrantes italianos, com que se casou em 1939, na Igreja São José da Vila Nova.
     Olga filha de Lúcia e João Salomoni. Do pai herdou o gosto pela arte: da ópera à literatura; da mãe: o talento na culinária.
     Com Luiz construiu sua família, morando em Porto Alegre, no bairro Vila Nova, onde plantaram, colheram, compraram terrenos, fizeram amigos, tiveram filhos. Após um ano de casados veio a Janete; depois de seis anos, o Jainor e após três anos, a caçula Joecí.
     Passaram-se os anos, os filhos casaram e nasceram os netos: Janilce, Josandra, Josiane, Joselma, Josângela, João Luís, Joselaine e Joe Luís.
Infelizmente nem todos os netos puderam conhecer Luiz, conviver com ele, mas sabemos de sua alegria e entusiasmo. Eu mesma, às vezes, repito frases ditas por ele, embora não recorde de tê-las ouvido, na verdade nem sei como era o timbre de sua voz. Agradeço à Olga por lembrá-lo sempre e fazer com que nós, os netos, pudéssemos conhecê-lo de alguma forma, através dela.
     Da Olga sim todos nós, os netos,  poderíamos falar muito… Recordo da infância com torta bolacha e crostoli, do colo macio, dos raviolis, do incentivo para qualquer feito: para as viagens, para a compra do primeiro apartamento, para o comprimento da micro-saia, para a troca de emprego, …
     Dando continuidade à história de Olga, as netas cresceram e também tiveram suas filhas. Nasceram as bisnetas: Laura, Maria Eduarda, Júlia, Sophia, Juliana, Jordana e Clara. Sem dúvida esta é uma família de mulheres fortes, sangue herdado dos imigrantes. E esta força da mulher imigrante muito nos orgulha e tentaremos transmitir a esta nova geração feminina que tem a sorte de ter Olga como bisavó, esta gigante em amor, a quem hoje quero homenagear de uma forma muito especial na semana do Dia da Vovó (26 de julho).
     Para mim Olga sempre foi e será muito mais que uma avó, grande amiga e companheira de viagem. A pessoa mais doce, amável e generosa que já conheci. Olga é uma mulher admirável! Admirável pela forma como sempre conduziu sua vida, preocupada em unir a família aos domingos com chás inesquecíveis e bandejas sem fim. Tudo arrumado com primazia, cuidado e beleza.
     Devo confessar que pertenço a uma família tradicional e vivi todos os momentos femininos ou ritos de passagem com orgulho e a Vó Olga esteve muito presente nestas datas: tricotou meu vestido de Primeira Comunhão (tinha esquecido de mencionar que é também minha madrinha de batismo), costurou o meu vestido de quinze anos e o de noiva. Em meu casamento estava tão nervosa quanto eu e ajeitava meu vestido a cada cinco minutos, em uma expressão de carinho memorável…
     Felicidades para Olga e para todas estas mulheres admiráveis, que parecem trufas recheadas de encanto e alegria, a quem chamamos Vó.

Publicado no Jornal Bom Dia, em 28 de julho de 2006, p. 6

criado por joselmanoal    17:22 — Arquivado em: Crônica

24/7/06

Dia do amigo

      DIA DO AMIGO
     Hoje é o dia do amigo: vinte de julho. E sei que é uma tarefa difícil escrever sobre a amizade sem resvalar em pieguice e clichês, mas em nome do carinho que tenho por meus amigos, vou aventurar-me, ciente dos riscos.
     Pode causar espanto, mas Fairytopia, desenho da Barbie, traz uma bela mensagem sobre amizade. Uma fada serve o chá à outra que, curiosa, pergunta o motivo de uma cadeira e de uma xícara vazias. A fada anfitriã explica que sempre espera o amigo que ainda não conheceu.
     Recordo também de uma entrevista com uma senhora de noventa anos sobre a arte de envelhecer com saúde e alegria. Sua resposta foi a de que nada adianta lamentar-se da idade. Declarou que sente falta da agilidade da juventude, porém aprendeu a viver em outro passo. Confessou que sofre uma saudade sem fim pelos que se foram, no entanto aprendeu a conquistar novos amigos.
     Quero compartilhar com vocês, queridos leitores, duas teorias sobre a amizade. A primeira delas é a de que os companheiros da infância e adolescência sempre serão os nossos eternos confidentes. Afinal são capazes de distinguir nosso humor pelo simples alô ao telefone. São aqueles com quem compartilhamos significativas experiências na passagem para o mundo adulto. Não importa se você era da turma da Bolinha de Gude ou das Cinco Marias! Aqueles com os quais rimos sem saber o porquê, até engasgar. Choramos abraçados pelo rompimento do primeiro namoro, mais abalados e solidários do que ao escutar a notícia da explosão da bomba atômica. Aqueles que presenciaram grandes momentos como a compra do primeiro sutiã, o primeiro beijo, a primeira reunião dançante ou balada (não importa a nomenclatura)… Razão que explica serem depois homenageados como padrinhos em casamento e batizado. Os amigos da infância e da adolescência fazem parte da nossa história, não soubemos contar histórias passadas sem relatar os seus nomes, afinal somos protagonistas de mesmas aventuras.
     A segunda teoria é a de que fazer amigos na fase adulta e conservá-los é o nosso grande desafio. Depois dos trinta, tudo fica mais difícil… Então devemos ir além do gesto da fada, não só esperar a visita de novos amigos, mas também convidá-los. Temos que aprender a valorizar estes amigos da fase adulta que não presenciaram e não aplaudiram quando conseguimos andar de bicicleta sem rodinhas. Porém ficaram felizes e vibraram conosco diante de nossa ascensão profissional e nos abraçaram com sinceridade quando conseguimos finalizar um projeto, engravidar, comprar uma casa, trocar de carro… Ambos amigos, comemoraram e comemoram conquistas em momentos tão diferentes de nossas vidas. Portanto, vale cuidar de todos os nossos amigos.
     Finalizo com uma frase recebida por e-mail: Nem todo irmão é um amigo, mas todo amigo é um irmão. Eu tenho a maior sorte porque tenho os dois: irmãos-amigos e amigos-irmãos! Feliz dia do amigo! Comemorem com a sua turma, seja ela a das Cinco Marias ou a da Bolinha de Gude, e não esqueçam de colocar uma xícara e uma cadeira…

Publicado no Jornal Bom Dia, 20 de julho de 2006, p. 6

criado por joselmanoal    19:56 — Arquivado em: Crônica

Zidane em um minuto de insensatez

                       ZIDANE EM UM MINUTO DE INSENSATEZ

     Como brasileira e gaúcha, com a saída do Brasil na Copa do Mundo, me uni à torcida lusitana por Felipão. E depois resolvi torcer pela Itália na final. Escolha da qual não me arrependi porque os italianos ganharam em educação e caráter, me refiro tão somente à partida e não a comentada corrupção.
     Zidane jogou, divinamente, durante toda a Copa, poderia ter se aposentado como um ídolo, teria respeito e admiração mundial. No entanto, um minuto de falta de lucidez e maturidade, pôs tudo a perder. A vaia de franceses e italianos ecoou no estádio mais forte que La Marselhaise e fará parte dos pesadelos de Zidane por muito tempo… Uma vergonha nacional que confesso como brasileira perversa, gostei! E sabem por que gostei? Gostei porque desta vez não fomos nós, brasileiros, que exacerbamos em falta de educação. E assistir a Final da Copa com um vexame do ídolo futebolístico de um país desenvolvido, referência em etiqueta e elegância é, no mínimo, surpreendente! A França ganhou em estupidez nesta Copa! E não me refiro só a Zidane, mas também ao técnico francês por todo seu sarcasmo e ironia ao aplaudir e sorrir diante da expulsão merecida do craque francês. Um gesto hipócrita!
     Sabemos que o italiano não disse nenhum versinho de amor a Zidane, porém a provocação faz parte do jogo e nada justifica a tresloucada atitude do ídolo francês.
     Quantas vezes, caros leitores, não nos deparamos com provocações e não tivemos a mesma vontade de cabecear o estômago de alguns. Não obstante, soubemos nos controlar, respirar fundo e voltar aos nossos afazeres. Se fosse um adolescente, perdoaríamos, mas Zidane está longe de ser assim qualificado.
     A sabedoria está em saber lidar com as provocações. O desprezo e o silêncio do jogador francês às palavras do italiano, o teriam mantido no pedestal. Um minuto de insensatez e ficará marcado pelo resto da vida. Sabemos que a sociedade é cruel: os anos de glória são apagados pelos instantes de deslize. Pobre Zidane será lembrado por um único instante de descontrole, violência e desequilíbrio e não por seus inúmeros momentos de espetáculo com a bola no pé.
     E perdoem a franqueza da comparação, apesar de todas as críticas feitas a Ronaldinho Gaúcho, se comparado à delicadeza de Zidane, prefiro a sinceridade do sorriso dentuço de nosso guri. Ronaldinho pode até não ter jogado tudo que sabia e podia nesta Copa, porém jamais reagiria de modo grosseiro a uma provocação em campo. Dona Miguelina educou bem o menino. E que na Copa de 2010 não nos decepcione este piá…

Publicado em 13 de julho de 2006 – Jornal Bom Dia, p.6

criado por joselmanoal    19:54 — Arquivado em: Crônica

O poder

                                                  O PODER

     É mais fácil e prazeroso o exercício da oposição que o de governo (o PT que o diga…) Partido excelente, exemplar como oposição, porém no poder não conseguiu fazer a diferença com que tantos brasileiros contavam. Mas este é um assunto para outro texto, o de hoje quer refletir sobre poder, não necessariamente na vida política.
    O poder corrompe, destrói, envelhece, às vezes, até mata. No entanto deve ter o seu lado atrativo, visto que tantos o almejam e nele querem permanecer. Aliás há quantos anos Fidel Castro comanda Cuba?
O poder modifica o ser humano, na maioria das vezes, (que pena!) negativamente. Conhecemos inúmeras pessoas que se tornaram altivas no poder. E poucas, na verdade raras, dignas e verdadeiras, que permaneceram as mesmas, estando em outro patamar. Digo as mesmas com referência à humildade. A forma como tratamos os demais, revela o que somos. E de nada vale o poder sem o caráter! Como o poder é belo, sedutor e traiçoeiro, tenham muito cuidado com ele!
     E por que o poder deve estar sempre associado à arrogância, à presunção e à auto-suficiência? Ele pode ser exercido com um tom mais humano. Do contrário, nos deparamos com o falso poderoso - aquele que quase no último lance da escada dirá, atônito, diante da própria queda: Como pode ter acontecido isto comigo, justo agora que faltava apenas um degrau? Os que estão no topo nunca devem deixar de olhar para os que estão no térreo, pois podem escorregar a qualquer momento.
      Como todos sabem, participamos de um processo de eleição na URI, no dia vinte de junho e nos deparamos com a escolha daqueles que estarão no poder nos próximos quatro anos em cargos diretivos em nossa universidade.
     Cabe lembrar que no poder encontramos diferentes indivíduos. Vou tentar uma classificação: há os que sonham com o poder e lutam para atingi-lo, utilizando-se de estratégias lícitas e ilícitas (depende do caráter e do tamanho do sonho); há outros em que o poder lhes é inato, têm o dom da liderança; e há outros ainda, aos quais o poder lhes é concedido por mérito. Não se trata de uma escolha individual, mas sim do desejo do grupo que este representa.
     E a quem confiamos o poder em nossa universidade? Acredito que façam parte do segundo e terceiro grupo da tríplice classificação anterior.
Com relação ao Curso de Letras, do qual faço parte, tenho a certeza -porque a Lucila Augusta Campesatto eu conheço bem - de que não será maltratada pela arrogância do poder, conduzirá o grupo docente e discente com a mesma delicadeza e bom-humor com que trata sua vida pessoal.
     Aos colegas da URI que assumiram o poder no sábado, 1º de julho, desejo sorte e sucesso! Talento e competência vocês já mostraram ter! Excelente trabalho a todos!

Publicado no Jornal Bom Dia, 6 de julho de 2006, p.6

criado por joselmanoal    19:52 — Arquivado em: Crônica

O humor nas nuvens

                                    O HUMOR NAS NUVENS
     Invejo os bem-humorados! Uma inveja boa (será possível?) sem desejar mal àqueles que sabem conduzir a vida com alegria! Apenas desejaria ser como eles… Porém acredito que o humor não se aprende, nasce ou não conosco. E eu, com certeza, não faço parte da seleta lista dos que se destacam por bom-humor. Quando me inventaram, devem ter esquecido tal ingrediente. Ou será falha no sistema? Fator genético ou hereditário? Como não sou boba, aprendi a conviver com meu humor e tratei de casar com o mais bem-humorado homem que conheci. Foi a maneira que encontrei de resolver meu problema, ainda bem que sou esperta…
    Hoje quero lamentar a perda de um ícone do humor brasileiro. É ele mesmo: o Bussunda! Com certeza o nosso gordo faceiro está contando piadas para São Pedro e transformando o paraíso em um grande parque de diversões. A Tabajara tem nova filial e lá está o Bussunda criando úteis e inovadores produtos. Já imita santos e anjos e constrói novos tipos cômicos em sua atual morada. Se Deus escreve mesmo certo por linhas tortas, imagino que o paraíso estava por demais rotineiro e sem graça… Faltava algo, faltava o humor e a alegria de um brasileiro e então buscaram o Bussunda, garantindo com o novo hóspede a perfeição local. Temos de concordar que é mesmo astuto o tal Comandante do Céu!
     Voltando à Terra, o mérito de Bussunda não é somente o do humor e o da alegria, em minha visão o principal é a inteligência e a revelação de nosso Brasil, a sabedoria de fazer crítica de qualidade, conseguir provocar risos e também fazer pensar o que, sem dúvida, não é tarefa para qualquer um! Tem que ser espada!
     Claro o grupo dos Cassetas continua e permanecem talentosos os que ficam, porém sempre haverá uma saudade… Lembro dos Trapalhões sem o Mussum, nunca mais foram os mesmos!
     Desconhecia a história de amizade do grupo, soube agora e fiquei surpresa e comovida: a afinidade não advém de uma relação meramente profissional, são todos amigos, o que explica o sucesso do programa. Não há estrelismos, disputas, falsidades e hipocrisias – algo tão comum em ambientes profissionais e artísticos. Desejam construir algo juntos, sabem trabalhar em equipe e, apesar da ausência do Bussunda, os meninos do Casseta e Planeta, como mestres do humor inteligente, vão superar este momento e seguirão criticando e divertindo por um Brasil melhor. Bola pra frente, meninos! Eterna saudade, Bussunda! Sorte dos anjos que devem estar rindo como nunca…

Publicado no Jornal Bom Dia, 29/06/2006, p. 6

Obs.: Enviei este texto aos meninos do Casseta & Planeta Urgente no site oficial, em 29/06, recebi resposta na mesma data (uns 30 min depois)  por e-mail, em nome do grupo de humoristas e da Central Globo de Comunicação, agradecendo a homenagem e comunicando que enviariam a crônica a família de Bussunda. Fiquei impressionada com a rapidez da resposta da Rede Globo…

 

criado por joselmanoal    19:49 — Arquivado em: Crônica

Aos formandos

                                                 AOS FORMANDOS

     Houve um tempo, do qual sinto saudades, em que a formatura era uma ocasião formal, respeitosa e as músicas eram clássicas e belas. Acredito que a formatura deva permanecer solene, apesar de toda parafernália técnica que agora a rodeia e do comércio que se criou neste mundo de máquinas digitais, efeitos especiais, telões e tantas outras sofisticações… No entanto, a formatura continua sendo aquele momento que ficará registrado, seja em fotos digitalizadas ou tradicionais e em fita vhs ou dvd, pouco importa. O mais importante de tudo é que ficará guardado em sua memória e na daqueles que também consideram este o seu grande momento. Portanto, não faça disto uma piada. A ocasião merece requinte. Os que vem prestigiar e aplaudir a colação de grau devem ser respeitados e apreciar o momento de glória daqueles que agora farão parte do grupo seleto dos concluintes do terceiro grau em nosso país. Aliás, caro formando, quantas pessoas não gostariam de estar em seu lugar?
     Na hora de planejar a formatura pense no parágrafo anterior e escolha músicas adequadas e que possam e devam sonorizar este dia. Em várias ocasiões tive vontade de me retirar das formaturas ao ouvir coisas do tipo Na Boquinha da Garrafa, acompanhado de coreografia e tudo. Penso nos pais que pagaram o curso e tem de assistir a isto!
     Tantas canções podem refletir sua vida e sempre há tanto a ser dito… E Na Boquinha da Garrafa diz o que mesmo? Escolha uma canção que mereça ser assim qualificada e com a qual sinta-se identificado, capaz de revelar sua trajetória pessoal e acadêmica. Não necessariamente músicas brasileiras, não necessariamente clássicas, mas que digam algo. Se for em língua estrangeira espera-se que o acadêmico saiba o que diz a letra. Do contrário, pode estar sendo ovacionado ao som de algo pior do que Na Boquinha da Garrafa, só que em idioma estrangeiro, o que, para mim, é pior do que a consciência do mau gosto, é a ignorância globalizada.
     Como professora já assisti e assisto a muitas formaturas, além das de familiares e amigos, as profissionais, e espero não sofrer mais nenhum espasmo nesta ocasião que para mim tem a obrigação de ser formal. Sugiro aos formandos que economizem na tecnologia e abusem na educação, no respeito, no bom senso e na elegância que, certamente, herdaram de seus pais.
     Se eu tivesse de escolher uma música teria dúvidas se Mercedes Sosa em Gracias a la vida ou se Fito Paez em Brillante sobre el mic – idéias para os alunos, principalmente, de Letras Espanhol. Para aqueles formandos indecisos na escolha da canção, uma dica: consultem a sua discografia preferida e a sua alma. E certamente acertarão na escolha.
     Uma brilhante formatura a todos! Bolo, champanhe, alegria! Sorte e sucesso na vida profissional! E muitas palmas para vocês, formandos!

Publicado no Jornal Bom Dia, p. 6 – quinta-feira – 22/06/06

criado por joselmanoal    19:46 — Arquivado em: Crônica

Futebol: orgulho tupiniquim

                            FUTEBOL: ORGULHO TUPINIQUIM

     Gostaria que todos nós, brasileiros, tivéssemos um maior orgulho de nossa nacionalidade. Seria perfeito viver em um país que fosse referência em sistema educacional ou em saúde pública… No entanto, temos de engolir que somos referência em futebol!
     Sou brasileira e, como tal, também assisto aos jogos da Copa do Mundo e torço pela camiseta verde e amarela. Vibro, grito e me alegro com as vitórias.
     Porém me indigna a imagem de nosso país diante do mundo, porque somos apenas isto – futebol. E nada mais temos a nos orgulhar? Esta febre nacionalista delirante que se propaga por todo país em época de Copa do Mundo: lojas, restaurantes, escolas, bares, jornais, enfim tudo que se vê, que se ouve, tudo que se respira é futebol e Brasil. E nos outros tantos dias do ano, em nossas datas nacionais, como se chama mesmo o país em que vivemos?
     O exagero me aborrece! A construção, o desenvolvimento se faz através de equilíbrio, de harmonia. Uma nação que pensa em seu futuro não pára em função de Copa do Mundo. Uma sociedade paralisada em frente a uma tela sente-se feliz em sua miséria, porque encontra em um jogador uma figura heróica, um salvador! E esquece as contas atrasadas porque a taça virá para o seu país. E o seu salário miserável permanecerá o mesmo! (isto se estiver empregado).
     Se pudesse em período de Copa do Mundo hibernaria, para não presenciar toda esta baboseira ridícula e, deste modo, poderia estar isenta do papel de torcedora do qual, acordada, não consigo escapar. Os governantes de nosso país encontram na Copa do Mundo tudo o que necessitam em um ano eleitoral, que o Brasil tenha os olhos fixos no futebol e esqueça toda a podridão que circunda Brasília. E tem sido assim desde sempre…
     Muitos pensam em sair do país como um modo de melhoria de vida, confesso que me incomoda esta decisão. O melhor seria que os brasileiros construíssem algo em seu país em lugar de pensar que a vida ideal está em outra terra que não a sua. Até porque um estrangeiro vivendo em outra nação, embora com dupla cidadania, continuará fora de sua pátria. Perturba-me quando algum brasileiro viaja e diz não ter vontade de retornar ao Brasil.
     Nossos governantes são os menos nacionalistas que conhecemos, devemos a eles todo nosso descrédito neste país. Portanto, em ano de eleições, caros leitores, olhos abertos não só para o futebol, mas também e, principalmente, para o futuro de nosso país. Pertencemos a um povo cada dia mais incrédulo, mais desiludido… Tentem, por meio da urna, responder a toda esta mixórdia vergonhosa que se tornou o nosso congresso. Sorte e responsabilidade ao Brasil na Copa e nas eleições!

Publicado nos Jornais: Bom Dia, p. 6 – quarta-feira -21/06/06
Zero Hora, p. 15 – quinta-feira – 22/06/06

criado por joselmanoal    19:43 — Arquivado em: Crônica

A goteira ou a enchente?

                                   A goteira ou a enchente?
     Nas últimas semanas o Brasil foi arrastado por uma onda de “enchentes”, além dos cotidianos escândalos de corrupção; a Petrobrás na Bolívia, Evo Morales x Lula; a revolta dos presídios, o confronto entre policiais e PCC, rebeliões que fizeram de São Paulo uma cidade em plena guerrilha. E o medo era, então, digno de um filme de terror!
     Porém, como de enchentes os jornais estão repletos, esta coluna prefere tratar, muitas vezes, da goteira. Há uma cobrança social dirigida àqueles que tem um espaço semanal em jornais para o trato a temas atuais. Este texto justifica minha escolha, minha preferência pela goteira que pode até sofrer o estigma de alienada, egoísta, medíocre - classifiquem do modo que quiserem. Só não chamem de auto-ajuda, porque me sentiria realmente ofendida!
     Argumento que a goteira tem sua importância e que a vida é uma temática eternamente atual! E por acaso não serão as enchentes formadas a partir da união de muitas, inúmeras goteiras?
     Ninguém escreve para não ser lido! O leitor é, portanto, o que motiva o texto. Quando alguém escreve, pensa em seu leitor, dirige-se a ele e o tem em mente… E eu falo da goteira pensando em, de alguma forma, sacudir as pessoas, provocar uma discussão, pensar e repensar o dia, divertir, alegrar, enfim depende do texto, mas seja ele do estilo que for, tem a obrigação de mexer com o leitor. E prometo, a vocês – meus leitores – que se o texto não lhes dizer nada, eu não o escreverei!
     Muitas vezes as transformações miúdas do cotidiano dão suavidade, leveza e sintonia às nossas horas. As questões político-econômico-sociais nos dizem respeito sim! No entanto, nem sempre quero falar sobre elas. Ao escrever, desejo que a leitura de meus textos lhes conceda um pouco da tranqüilidade que tão bem descreve Ivo Pessoa na letra da canção. “Eu quero uma casa no campo onde possa ficar do tamanho da paz…” E minhas crônicas almejam também, porque sou pretensiosa, conduzi-los a lugares do imaginário, do sonho, acompanhá-los na viagem a Pasárgada com Manuel Bandeira.
     Na verdade pouco importa se a escrita versa sobre a goteira ou a enchente, o fundamental é que ocorra alguma mudança seja ela grandiosa ou minúscula, ínfima ou suprema. Encontro apoio em Jean-Paul Sartre na obra Que é a literatura?: “O prosador é um homem que escolheu determinado modo de ação secundária, que se poderia chamar de ação por desvendamento. (…) O escritor engajado sabe que a palavra é ação: sabe que desvendar é mudar e que não se pode desvendar senão tencionando mudar. (…) A função do escritor é fazer com que ninguém possa ignorar o mundo e considerar-se inocente diante dele.” (p. 20-21)
     Esclareço que não me sinto incluída na nobre categoria de escritor, sou apenas aprendiz no manejo da complexa palavra. Percorro esta trilha pela linguagem como uma criança que, insegura, pula amarelinha, apesar da paixão e voracidade que a movem, tentando acertar a cada pequeno salto.
Queridos leitores, desejo preencher e harmonizar o seu dia a cada coluna semanal. E quem sabe, após a leitura, não decidimos consertar aquela velha e indesejável goteira?

Publicado em 15 de junho de 2006 – Jornal Bom Dia, p.6

criado por joselmanoal    19:40 — Arquivado em: Crônica

O último desafio

                                               O último desafio

     Sempre relacionei esporte à vida, porém após a morte do alpinista brasileiro Vitor Negrete, ocorrida em dezenove de maio deste ano, lembrei de outros alpinistas brasileiros com igual destino: Marcos Luszczynski e Eduardo Silva, (2005), Mozart Catão, Othon Leonardos e Alexandre Oliveira (1998), e reconsiderei minha afirmação anterior.
     O ser humano está sempre em busca de desafios – nesta frase não há nenhuma novidade! A questão toda está no teor da conquista que buscamos… Negrete já havia escalado o Everest e quis voltar sem os cilindros de oxigênio que o acompanharam no ano passado na mesma rota. Por quê? Sujeito de vida normal: casado, pai de duas crianças, engenheiro de alimentos, mestre em Tecnologia de Alimentos, pesquisador colaborador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação - UNICAMP, porém quis o desafio e buscou o próprio fim. E nos perguntamos, incrédulos: por quê?
     Confesso minha praticidade: prefiro desafios menores e de soluções mais fáceis. Se a insatisfação humana conduz ao desafio e cada um tem o seu, que sejam mais concretos e atingíveis: alcançar as metas na empresa, manter os alunos felizes em sala de aula, conseguir uma promoção, realizar uma especialização, um mestrado, um doutorado. Queremos sempre mais, tudo bem, mas precisa morrer para isto? Para alguns sim! Falando em brasileiros: Cazuza, que para mim era um gênio da poesia e da música, desafiou-se até o último instante de vida…
     O que difere esportistas radicais e grandes artistas dos meros mortais é o limite do desafio, eles ousam mais, portanto a vida passa a ser mais desafiada e “a morte os visita muito antes do que deveria” - assim pensamos nós que nos sentimos abandonados ao não poder mais assistir ao vivo ao show do Cazuza ou assistir na televisão aquele alpinista colocando a bandeira de nosso país, com tanto orgulho e alegria, no cume do Everest… O desejo de provar para si mesmo o seu potencial, a sua genialidade faz com que muitos abandonem o oxigênio no caminho.
     Há, claro, os que desejam a morte, os homens bomba, por exemplo, morrem por um ideal. Será mesmo ideal? O ideal deveria ser viver, conquistar, realizar, buscar!
     A verdade é que há muito a ser construído em vida. Independente de suas ações, com certeza, você também tem muitos desafios, portanto, basta adquirir a habilidade para observá-los e preparar-se para ir ao encontro de suas conquistas. Só não esqueça, prezado leitor, dos cilindros de oxigênio!

Publicado em 8 de junho de 2006 – Jornal Bom Dia – p. 6

criado por joselmanoal    19:38 — Arquivado em: Crônica

A difícil arte de elogiar

                                   A difícil arte de elogiar
     Se realizamos um trabalho perfeito, se participamos de algum evento com brilhantismo, se preparamos um jantar caprichado, se escolhemos roupa, calçado e jóias adequadas à festa – o que esperamos? Claro, óbvio, um elogio! E, na maioria das vezes, o elogio não nos é dito.
     Impressionante como o ser humano desenvolve a capacidade crítica, mas não a capacidade elogiosa! Enxergamos qualquer pingo, qualquer gota de imperfeição. Nascemos para ser perfeitos, então temos a obrigação de sê-lo. E para que serviria mesmo o elogio?
     Elogio é tudo! Tente ir a uma festa sem ouvir um elogio sequer; por mais bela que nos sintamos, o elogio aumentaria alguns centímetros em nossos saltos, não é verdade, meninas? Sou elogiante, exercito, sempre que posso, a arte de elogiar. Para tanto, me esforço para observar todos os detalhes nos outros: corte ou cor do cabelo, roupa, decoração da casa, quilos a menos (naturalmente), etc. Sem falar nas situações mais significativas, como mudança de: cargo, emprego, cidade, casa, que merecem elogios pelo gesto de coragem e pela fé que nos lança ao eterno recomeço.
     Então vamos refletir o porquê será tão difícil elogiar. Será que ao prestigiar os outros nos sentiríamos diminuídos? E inveja explica? Ou será: “para que revelar o que é bom, basta dizer o que não o é” ? E o resto fica subentendido? O resto é justamente o que dá razão à vida e a torna especial!
     Relações amorosas felizes não ocorrem sem elogios, não se estabelecem, não se fortalecem e não perduram. Então porque alguns só elogiam no momento da conquista? Casais se afastam, após anos de vida em comum, às vezes, um pequeno elogio poderia ter modificado a história… Inúmeras pessoas realizam seu trabalho com dignidade e esmero, sem jamais ter ouvido um mísero elogio por parte de suas chefias. E assim tristemente se aposentam…
     Vale elogios à família também! É triste ver um adolescente aprovar no Vestibular, ganhar uma medalha em um campeonato esportivo, conseguir um dez suado em uma disciplina e nada ouvir. “Afinal é sua obrigação, não é?” – diriam os pais em sua incapacidade elogiosa que deve ser repensada com urgência! O mesmo ocorre com os pais que também merecem elogios, até mesmo pelos pequenos gestos como aquela comida tão bem elaborada… O churrasco do papai e a lasanha da mamãe com um “que delícia” de seus filhos garante um prato ainda mais saboroso da próxima vez tão somente pela recordação do elogio. Afinal não queremos ser só bons naquilo que fazemos, queremos a aprovação social, os aplausos daqueles que queremos bem, precisamos de um estímulo para melhorar cada vez mais… E afinal que custa elogiar? Garanto que não dói, não é prejudicial à saúde, nem provoca cáries. Então, aos elogios…
     Queridos leitores, como adoro elogios quero agradecer a todos que tenho recebido em razão deste espaço semanal. Muito obrigada e registro aqui meu elogio sincero a todos vocês que sabem elogiar!

Publicado em 25 de maio de 2006 – Jornal Bom Dia, p. 6

criado por joselmanoal    19:35 — Arquivado em: Crônica
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